Da Turquia, com amor: a história dos Altin Gün, o colectivo holandês que nasceu em Istambul

São oriundos de Amesterdão mas têm raízes musicais que os ligam directamente à Turquia. Os Altin Gün, que em turco significa “Era Dourada”, são figuras proeminentes da cena rock anatoliana, nome dado ao revivalismo do rock dos anos 60 e 70 que está a acontecer em Istambul, é por isso natural que o ADN da banda misture elementos de rock psicadélico e funk com música tradicional turca. Fazem parte da formação Ben Rider (guitarra), Gino Groeneveld (percussão), Merve Dasdemir (voz), Daniel Smienk (bateria), Erdinc Ecevit Yildiz (teclas, saz, voz) e Jasper Verhulst (baixo), o membro fundador do colectivo. Os Altin Gün contam com um álbum de longa-duração, On, lançado em 2018 pela editora Bongo Joe.

Tudo começou com uma visita de Jasper e Ben à Turquia como elementos da banda de suporte de Jacco Gardner, músico holandês que se expressa nos meandros do psicadelismo. Esta era a primeira vez que os dois artistas visitavam aquele país, como tal, decidiram ficar mais uns dias depois do espectáculo para visitar algumas lojas de discos e comprar música. Terá sido este o primeiro contacto com a música tradicional turca. “Isto tudo aconteceu, curiosamente, numa altura em que o projecto ao vivo de Jacco Gardner começou a dar os primeiros sinais de fracasso”, recorda Ben numa entrevista para o site All Things Loud, “Jasper quis fazer algo de novo com alguns dos integrantes da banda, incorporando também novos elementos”.

Os temas existentes são releituras de standards de música turca, contudo, os Altin Gün começaram por tocar covers e versões já existentes dessa base tradicional. “Basicamente, o que fizemos foi copiar o que já existia”, relembra Jasper, “só depois de alguns ensaios é que percebemos que podíamos aproveitar alguns desses standards e fazer algo de novo com eles, algo que nunca havia sido feito anteriormente, algo nosso. É bom sermos uma banda folk. Antes dos Beatles, grande parte das bandas utilizava standards tradicionais e interpretavam-nos à sua maneira”, remata. “Actualmente não nos consideramos uma banda de covers, mas sim uma banda folk que toca standards tradicionais”, acrescenta ainda Ben.

Merve Dasdemir e Erdinc Ecevit Yildiz são de origem turca, tiveram a música tradicional do país como banda sonora da sua infância e é por isso natural que estejam mais familiarizados com o conteúdo do que o restantes elementos da banda. Merve, que é vocalista, explica o sentimento que se esconde nas letras das músicas que canta. “O turco é uma língua carregada de alma, portanto, é sobre emoções humanas e as situações que te conduzem até lá”, explica. “Tem também muito a ver com o facto de a vida terrena ser apenas uma passagem para nós, e é também sobre amor e morte”. Mais à frente, na mesma entrevista, Merve esmiúça o conteúdo de alguns dos temas do álbum de estreia. “«Cemalim» foi escrito por uma mulher depois do seu marido, Jamal, ter sido morto por tropas inimigas na zona central da Turquia. É uma espécie de poema que virou posteriormente uma música”, revela, continuando, “«Goca Dunya» é sobre o mundo, a forma como o encaramos nesta nossa caminhada e o lidar com a insuportável leveza de apenas existir; «Tatlī Dile Güler Yüze» vai ao encontro das interacções sociais e do nosso comportamento, como por exemplo, se partilhamos sentimentos e palavras positivas com os outros”.

On, o primeiro álbum do colectivo, lançado através da Bongo Joe Records, editora e loja de discos suíça que se centra na actualidade musical mais underground e que alberga trabalhos de bandas como The Space Lady e Derya Yıldırım & Grup Şimşek, explora em dez temas o espírito da música turca dos anos 70 e tem um como importante foco os trabalhos de artistas como Selda, Baris Manço e Erkin Koray, pelos quais Jasper nutre especial fascínio. “Eu apaixonei-me verdadeiramente pela música turca”, confessa Jasper, “as escalas, as melodias, os sons das palavras. Mesmo não percebendo as letras das músicas, estimulou-me bastante a nível emocional”.

Os hábitos e a cultura turca sempre estiveram bem presentes no seio dos elementos da banda, ainda antes de Jasper ter realizado a viagem que seria decisiva para a formação dos Altin Gün, e é Gino, percussionista, que explica o porquê. “Existe uma grande comunidade turca no bairro onde eu vivo, em Amesterdão. Faço compras em lojas turcas. A Turquia tinha, na altura, uma conotação negativa na TV e nos jornais, e eu sempre pensei que seria interessante fazer algo baseado na música turca, aqui na Holanda. Queria por força injectar vibrações positivas turcas neste país”.

No ano passado, os Altin Gün andaram em digressão com os King Gizzard & The Lizard Wizard, um dos mais importantes nomes da actualidade do rock psicadélico. Passaram também por festivais como o Trans Musicales, em França, o Eurosonic, na Holanda, e o Montreal Jazz Festival.

 

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