“Uman” é a mais recente canção dos KOKOROKO, um jovem colectivo londrino de afrobeat fortemente influenciado pela sonoridade da África Ocidental dos anos 70 em geral e pelo trabalho em particular de artistas como Fela Kuti, Ebo Taylor e Tony Allen. Lançado no passado dia 7 de janeiro, o tema integrará o EP de estreia da banda – cuja edição está prevista para março, através da Brownswood, selo pertencente ao coleccionador de discos, produtor, DJ e radialista Gilles Peterson – a par de “Adwa”, “Ti-de” e “Abusey Junction”, podendo este último ser também encontrado na compilação We Out Here, onde é possível escutar peças de artistas como Ezra Collective, Moses Boyd e Nubya Garcia, destacando apenas alguns exemplos.

Os KOKOROKO, que em urhobo (dialecto do sul da Nigéria) significa “sê forte”, contam com uma sólida secção de metais, toda ela feminina, constituída por Richie SeivWright (trombone), Cassie Kinoshi (saxofone) e pela líder da banda Sheila Maurice-Grey (trompete). Fazem ainda parte do octeto Mutale Chashi (baixo), Oscar Jerome (guitarra), Yohan Kebede (teclas), Onome Ighamre (percussão) e Ayo Salawu (bateria). Alguns destes artistas, que dividem as suas origens entre o Reino Unido e a Nigéria, concluíram os estudos no conceituadíssimo Trinity Laban Conservatoire of Music & Dance, onde, aliás, Fela Kuti também estudou, e dividem esforços com outros projectos, como servem de exemplos os casos de Sheila (Nérija) e Cassie (Nérija, Seed Ensemble).

Existem inúmeras histórias de bandas que se formaram no seguimento de bons espectáculos de outras, quase como se o bom sucesso da actuação tivesse servido de gatilho para alguém dar o primeiro passo no recrutamento e na construção de um repertório. O caso dos KOKOROKO é exactamente o inverso. Na génese está um mau concerto de um conjunto de afrobeat em Londres. “Tinham uma estranha vibração e pouca ligação com público”, relembrou o Onome Ighamre numa entrevista para o site Music in Africa publicada em 2017. “A música com que cresci estava a ser muito mal tratada e a África Ocidental não estava ali representada, havia muito poucos africanos no palco e na plateia”, acrescentou. Onome comentou o que vira com Sheila que se apressou a reunir esforços para formar um projecto nos meandros do género. Assim nascem os KOKOROKO.

Fela Kuti é uma das principais coordenadas musicais do colectivo. Em conversa para o site Improved Music Company, uma organização que tem como um dos principais focos a promoção de jazz e música étnica na Irlanda, Sheila revelou o que a fez concentrar-se na vida e luta daquele que foi o pioneiro do afrobeat. “Inspira-me a forma como ele se manifestava politicamente, as questões relacionadas com a falta de dinheiro e os problemas culturais da Nigéria e da África Ocidental. Aquilo que oiço nas letras e o que ele defendia em geral faz todo o sentido para mim. Ele lutava por muita coisa, pela sua identidade, por tudo. Toda a sua música pode ser relacionada com o que está a acontecer agora, como o exemplo dos Estados Unidos. Ele acaba por ser a voz de muito do que acontece a nível político, e isso significa muito para mim”.

Lançada a 9 de fevereiro de 2018, a compilação We Out Here reúne alguns dos nomes mais emergentes da nova cena jazz britânica, tendo coleccionado rasgados elogios de meios como a Rolling Stone (“um momento de colaboração marcante para o jazz britânico”) e o Rhythm Passport (“álbum repleto de composições não vinculadas ao género, exibindo um espírito de improvisação de pensamento livre”). Na última posição da lista da compilação é possível encontrar “Abusey Junction”, tema dos KOKOROKO que conta com perto de 5 milhões de escutas no Spotify e 22 milhões de visualizações no Youtube. Trata-se de um casamento perfeito entre ritmo e melodia, com a guitarra, voz e metais a assumirem o principal protagonismo na trama e a contracenaram em harmonia com a percussão e baixo. A melhor forma de encerrar a escuta de um álbum que só por si já é fabuloso.

O recentemente editado single “Uman” assenta nos mesmos pilares de “Abusey Junction” mas com a particularidade de procurar uma vertente mais dançante, resultado de uma aposta forte na bateria, baixo e teclados. Os metais e vozes voltam a ser determinantes na mistura final, com a guitarra a desenhar novamente os sublimes contornos de África. Um aperitivo perfeito para o EP que se avizinha.