Virar as costas ao minimal para maximizar um sentimento: sejam bem-vindos ao imaginário dos Nu Guinea

Ao ouvir o magnífico álbum de estreia dos Nu Guinea, intitulado Afrobeat Makers, Vol.3 (The Tony Allen Experiments), editado em 2015, uma coisa parece ser certa: este não é um disco que se limita a homenagear Tony Allen, lenda viva do afrobeat e antigo baterista do estratosférico Fela Kuti. Procura, isso sim, partir das bases rítmicas do músico nigeriano para criar algo próprio, com um cunho pessoal. O desafio para tal aventura partiu de Eric Trosset, manager do baterista e fundador da editora parisiense Comet Records. Trosset lançou o repto a Massimo Di Lena e Lucio Aquilina, músicos italianos que formam os Nu Guinea, para estes trabalharem sobre as estruturas de Tony Allen.

A ideia inicial de Trosset limitava-se a uma abordagem simples do material já existente. Contudo, os Nu Guinea fecharam-se no estúdio durante quatro meses com a finalidade de criarem algo singular, baseado no seu código genético que encontra nos sintetizadores e na música napolitana nos anos 70 e 80 uma importante referência.

O resultado final traduz-se num trabalho rico e variado, que vai muito além dos limites da simples prova de reconhecimento. O ritmo afrobeat está lá todo mas mistura-se com jazz, funk, disco, sintetizadores, baixos electrónicos, Fender Rhodes, p-funk, arpeggios, efeitos intergalácticos, harmonias que nos levam para o mundo dos sonhos e melodias que facilmente se colam aos ouvidos. Dos três episódios da saga Afrobeat Makers, uma epopeia impulsionada pelo detentor da Comet Records, a dos Nu Guinea é claramente a mais ambiciosa e também a mais aplaudida.

Di Lena e Aquilina conheceram-se em 2006, numa altura em que eram vistos como duas grandes promessas da cena minimalista italiana, factor esse que os levou para a estrada durante anos ao ponto de terem esgotado completamente o conceito, colocando um ponto final à digressão e motivando também um afastamento. “O que mais nos aborrecia na nossa fase minimal era falta de cores e alma na música”, pode ler-se numa entrevista para o site Melbourne Deepcast.

Em 2009, os dois músicos reencontraram-se, desta feita em Barcelona, cidade onde decidiram fazer novamente música em conjunto e onde fundaram o projecto Real Pleasures, dada a sonoridade da música articulada poder perfeitamente servir de banda sonora para os filmes eróticos de categoria B dos anos 80. A colaboração tornou-se frequente desde então, impulsionando a compra de sintetizadores e a construção de um estúdio. Depois de vários anos de experimentação e algumas visitas aos confins do passado, decidem então formar os Nu Guinea.

O duo muda-se de armas e bagagens para Berlim mas nunca se afasta completamente da sua raiz, Nápoles, comuna do sul de Itália erguida nas imediações do Vesúvio. Nuova Napoli, o segundo álbum de longa duração, editado em Abril de 2018, respira o espólio de marcos importantes da música napolitana como Pino Daniele, Napoli Centrale, Tony Esposito e Tullio de Piscopo. É uma obra que interliga o presente com as décadas de 70 e 80, oscilando entre jazz, funk e disco. “O processo criativo incluiu várias viagens a Itália e inúmeras horas despendidas na construção de um produto que fizesse sentido”, revelam numa entrevista para o site Off The Record em vésperas da edição do disco.

Nuova Napoli está embebido numa sonoridade live, assegurada pela participação de vários artistas conterrâneos, nomeadamente Pietro Satangelo (saxofone), Fabiana Martone (vozes), Andrea de Fazio (bateria), Marcello Giannini (guitarra) e Roberto Badoglio (baixo). “Em Berlim, começámos a trabalhar com uma Linn 9000, alguns sintetizadores e jam sessions espontâneas”, recordam. “Assim que os temas instrumentais começaram a ganhar forma, percebemos que substituir alguns sons sintéticos por instrumentos acústicos ajudaria a espelhar aquilo que tínhamos em mente”.

Há um sentimento de saudade que tinge o mais recente álbum dos Nu Guinea, e é nele que grande parte do disco se rege. “Berlim é uma cidade com a mente muito aberta e dá-nos sem qualquer sombra de dúvidas as condições necessárias, contudo, sentimos falta daquele conforto a que estávamos habituados”, confessam. “Pequenas coisas como um café ou uma sfogliatella, pessoas a gritarem palavras aleatórias nos quarteirões espanhóis, o cheiro da roupa lavada pendurada em cordas manhosas por cima das estradas, velhinhas à varanda a falarem umas com as outras”. Apesar de não ser um disco assumidamente nostálgico, Nuova Napoli contém nas suas entrelinhas algumas das pequenas recordações destacadas pelos dois artistas, como serve de exemplo o tema “Ddoje Facce”, cujos primeiros segundos parecem percorrer uma dessas mencionadas ruas.

Nuova Napoli é um álbum para ouvir “ao mesmo tempo que se caminha pelas vielas do centro histórico de Nápoles, por entre estendais de roupas molhadas e vendedores de rua em pequenos triciclos”, sugere a banda na informação colocada no seu próprio Bandcamp. É mais do que isso, até. O disco leva-nos a imaginar um postal turístico de uma cidade com o Vesúvio a servir pano de fundo. E é no interior do imponente vulcão actualmente adormecido, numa dualidade de segurança e perigo, que os Nu Guinea cozinham a sua música, como se fosse uma espécie de calzone recheada com os mais diversos ingredientes.

https://open.spotify.com/album/1NuMP2jrBeyxR3MqwengWD?si=iNR0ME7qS9O_bsWxwLjnMw

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