É tudo uma questão de frequências graves

Tocador de tuba e membro dos Sons of Kemet, colectivo que encontra na mistura de jazz com ritmos africanos, sonoridades caribenhas e timbres orientais uma importante coordenada, Theon Cross é, com apenas 26 anos, um dos mais proeminentes músicos da nova cena jazz britânica – onde se destacam também nomes como Shabaka Hutchings, Sheila Maurice-Grey, Moses Boyd, Nubya Garcia, Kamaal Williams e Alfa Mist, entre muitos mas mesmo muitos outros. No contexto da banda que integra, Cross já lançou três álbuns – Burn (2013), Lest We Forget What We Came Here To Do (2015) e Your Queen Is A Reptile (2018) -, todos eles acarinhados pela crítica. No seu trajecto a solo, paralelo aos Sons of Kemet, editou Aspirations EP (2015) e, no passado mês de fevereiro, o registo de longa-duração Fyah.

Theon tinha apenas oito anos quando os pais decidiram inscrevê-lo a si e ao seu irmão, Nathaniel Cross, numa escola de música localizada na zona sul de Londres. Nathaniel escolheu o trombone, através do qual se viria a notabilizar, sendo actualmente uma das grandes referências do instrumento no contexto britânico. Cross começou por aprender a trompa, trocou-a pelo bombardino e só mais tarde recebeu a pesada tuba nos seus braços. Durante a sua adolescência, estudou não só nas instalações da escola que frequentava como também fez parte de uma fanfarra carnavalesca, como as que operam no Rio de Janeiro, com a qual rodou vários festivais de rua no circuito do Reino Unido.

Cross sempre teve como grande objectivo incluir a sua tuba nas estruturas de jazz de improviso e swing. Investiu grande parte do seu tempo a transcrever solos de trompete e linhas clássicas de baixos de Paul Chambers, contrabaixista que chegou a tocar tuba, desenvolvendo uma sonoridade própria inspirada no dancehall, electrónica, hip hop e drum & bass, estilo pelo qual nutre enorme paixão. Para Cross nunca se tratou de aprender única e exclusivamente jazz mas sim cruzá-lo com a música que mais gostava de tocar. Envolveu-se nos circuitos de clubes da zona sul de Londres como instrumentista de grupos de hip hop liderados por rappers como Kano e Ruff Squad. É neste contexto que conhece o baterista Moses Boyd e o saxofonista Shabaka Hutching, líder dos Sons of Kemet. Em 2015, estreia-se a solo com Aspirations EP, uma obra impactante que lhe valeu duas importantes nomeações: Best Instrumentalist of the Year, para o Jazz FM Awards 2016, e Best Jazz Newcomer, para o Parliamentary Awards 2016. No EP participam Nubya Garcia, no saxofone, e Moses Boyd, na bateria.

O jazz britânico está a viver um momento de grande forma, com vários projectos a serem formados e uma imensidão de álbuns a verem a luz do dia. São vários os artistas com formação na área que decidiram partir das fundações adquiridas em direcção a outras paisagens, como servem de exemplo os Blue Lab Beats, com uma forte inclinação para o universo do hip hop, os KOKOROKO, inspirados no legado afrobeat de Fela Kuti, e Alfa Mist que, apesar de nunca virar costas à textura tradicional, opta por uma abordagem fresca, moderna, contemporânea.

No passado dia 4 de fevereiro, o site All About Jazz lançou um artigo focado no novíssimo álbum de Theon Cross. Esse mesmo artigo faz menção a uma entrevista que o artista deu para a revista Jocks&Nerds, na altura ainda por publicar, que nos ajuda a perceber a filosofia desta nova geração de músicos. “Perto do final dos anos 2000, estávamos todos nós na casa dos vintes, começámos a embeber a matriz jazz na música com que crescemos”, pode ler-se. “Eu respeito a tradição jazz e isso sente-se na forma como improviso. Contudo, quando formei o meu trio [referindo-se ao trabalho realizado com a ajuda de Boyd e Garcia] dei por mim a pensar se não seria interessante explorar ritmos dancehall. O meu pai é jamaicano, a minha mãe de Santa Lúcia. Esta foi a música com que cresci. Num ápice, começámos todos a trazer para a música os elementos que formaram a nossa identidade enquanto comunidade negra britânica. Para Moses eram as influências garage. Para Nubya o mesmo”, esclarece.

A tuba é mais facilmente associada às fanfarras e às orquestras do que propriamente à linguagem jazz. Contudo, Cross recorda, em conversa com o Guardian para um artigo sobre o novo jazz britânico, que a tuba foi o primeiro instrumento a assegurar as frequências graves no jazz. “Quando andavam a gravar em gramofones, a tuba era o único instrumento com uma pressão acústica minimamente audível para a captação, daí ter sido utilizada ao invés do contrabaixo. Esteve na linha da frente do género desde o início”, reforça.

E é precisamente na tuba que o novíssimo Fyah se centra. O álbum, que conta novamente com a participação da dupla Boyd-Garcia, cruza o lado mais tradicional de Nova Orleães com ambientes de sintetizadores e sonoridades modernas de grime e trap, como é possível ler no resumo presente no Bandcamp do artista. Fyah conta ainda com créditos do Nathaniel Cross no trombone, Wayne Francis no saxofone tenor e Artie Zaitz na guitarra eléctrica. Há frequências graves por todo o lado, venham elas de forma quase distorcida em “Radiation”, carregadas de efeitos em “The Offerings”, possantes em “Activate” (excelente abertura para a obra), gingonas em “Letting Go”, funkeiras em “Candace of Meroe”, dançantes em “Panda Village”, agitadas em “LDN’s Burning” e descontraídas em “CIYA”. Uma narrativa em que a tuba assume o papel principal.

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