Os Lusitanian Ghosts, colectivo formado por Neil Leyton (voz), Micke Ghost (guitarra eléctrica e amarantina), Omiri (braguesa e nickelharpa), O Gajo (campaniça), Abel Beja (terceirence), João Sousa (bateria), subiram ao palco do Auditório Carlos Paredes, em Lisboa, no passado dia 18 de Abril, para apresentarem ao vivo o seu álbum de estreia, de título homónimo. Para este concerto em especial, que correu o disco cuja capa mostra uma bela pintura a óleo da autoria de Alexandre Alonso, a banda contou ainda com a participação de João Pascoal (baixo e toeira) e Nelson Canoa (teclas), proprietário dos Estúdios Canoa, espaço onde decorreu todo o processo de gravação dos temas.

Tendo sido esta a primeira vez que os membros se juntaram em palco para interpretarem Lusitanian Ghosts, é natural que as arestas não estivessem ainda todas limadas. Numa das canções, sensivelmente a meio do espectáculo, testemunhou-se um ligeiro desencontro entre Neil Leyton e o sueco Micke Ghost sobre quem e como será dado o tiro de partida. Detalhes que serão certamente acertados em ocasiões futuras.

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Este é um projecto que tem como principal foco cruzar os já referido instrumentos tradicionais portugueses, alguns deles raros de encontrar ou de fabrico muito limitado, com a linguagem internacional e transatlântica do rock n’ roll, suportada pela energia da bateria, competentes solos de guitarra eléctrica e as letras de Neil Leyton, que, apesar de cantadas em inglês, procuram muitas vezes identidade nacional, como serve de exemplo “Capitularium”, deixada para o final, onde é possível assistir a uma passagem pelo tradicional “Malhão Malhão”, com os Lusitanian Ghosts a vestirem uma roupa completamente nova à música.

Os fantasmas lusitanos que dão nome ao projecto poderão ser interpretados de duas diferentes formas. A primeira ligada aos próprios cordofones que ao vivo ganham uma dimensão quase orquestral, como se fossem espíritos – neste caso benignos – a expressarem-se do outro lado da fronteira da vida. A segunda leitura prende-se com o conteúdo das letras das músicas. Em “A Long Time Ago…”, por exemplo, numa toada de paredes vizinhas com o fado, Neil Leyton evoca a temática dos descobrimentos a partir de um ângulo muito específico e raramente ou quase nunca abordado: o das atrocidades cometidas por esse mundo fora, onde ganha especial destaque a questão a questão da escravatura, um dos fantasmas que mais atormenta a história portuguesa e que é frequentemente escondido na cave do nosso edificado orgulho.

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“The World” é uma das primeiras a ouvir-se no auditório Carlos Paredes, colocando em evidência as aptidões musicais desta afinada orquestra de cordas. Sentados e dispostos em formato meia-lua no fundo do palco, Omiri, O Gajo, Abel e João vão colocando as suas cordas em vibração, servindo um eficaz sustento harmónico para as palavras de Neil, que se passeia na zona frontal de suporte de microfone na mão e uma colocação vocal que por diversas vezes traz à memória a do líder dos The White Stripes. Há também “Trailer Park Memories”, canção alegre e mexida, onde é possível testemunhar um excelente entendimento entre instrumentos.

A dada altura do concerto, O Gajo é deixado sozinho em palco com João Sousa para dar corpo a “Navio dos Loucos”, tema seu, retirado do álbum Longe do Chão, num momento de sublinhado desempenho e elevada inspiração nas cordas que terá certamente honrado o talento da lenda portuguesa que empresta o nome ao auditório escolhido para a noite – fica no ar a ideia que ocasiões destas, a solo, em que é possível sentir e degustar a sonoridade da campaniça de modo isolado do resto, podiam ser mais vezes exploradas, de forma a ser possível destacar e identificar todo e qualquer elemento desta vasta família.

Até ao final há tempo para ouvir uma versão, em jeito de homenagem, do tema “Thanks For Chicago Mr. James” de Scott Walker, músico falecido no mês passado, e, mesmo ao cair do pano, uma verdadeira reunião de gerações em palco, com Leyton (o nome resulta de uma metamorfose do apelido Leitão, dado o músico ter vivido uma boa parte da sua vida no Canadá) a convidar pai e filha para darem voz a “Blossom”. Bonito.

Fotos: Nuno Cruz