Rosie Lowe | YU

Quem chegue a Rosie Lowe através de YU, o seu mais recente registo de longa-duração, não dirá que esta teve, num passado muito recente, uma visão negativa relativamente ao amor e às relações amorosas. Uma análise a “Birdsong”, single onde canta o verso “it’s in the morning that i need your love / and in the evening when the sun goes down”, ou até “ITILY”, acrónimo de “I Think I Love You”, mostra-nos exactamente o contrário. Trata-se de um álbum leve, apaixonado, esperançoso, luzidio, à boleia do qual a artista R&B se entrega incondicionalmente à sua cara-metade, sem receios, meias medidas ou desconfiança. 

 

Mas nem sempre as coisas foram assim para a cantora e compositora.

 

 

Lowe é oriunda de Devonshire, um condado britânico, localizado a sul de Bristol. É filha de pais divorciados e cresceu a vida toda sem casos próximos de sucesso conjugal. “Todos os meus amigos vivem com pais separados”, afirma a artista numa recente entrevista para o The Line of Best Fit. “Não acho que tenha muitas histórias positivas em meu redor, não fui criada num mundo Disney”, acrescenta.

 

Rosie iniciou-se na música em tenra idade, concluindo os seus exames na matéria com apenas 13 anos. No âmbito escolar, escreveu vários temas originais que acabaram por aterrar nas mãos de um manager que, por sua vez, contribuiu para que a artista levantasse voo até aos Estados Unidos para participar em sessões de composição. Terá sido este o ponto zero da sua carreira.

 

Em 2016, edita Control, um trabalho que espelha uma vontade de estar só em todo o processo criativo, reflexo condicionado pelas relações interpessoais que testemunhara até à data. “Orgulho-me mesmo muito do meu primeiro álbum”, ressalva na mesma conversa, “mas surgiu numa numa altura muito particular da minha vida. Era a minha estreia, quis fazer tudo sozinha, mesmo sabendo que tinha uma rede incrível de pessoas a rodear-me. Havia algo nas minhas entranhas que me dizia que tinha que ser assim”.

 

 

Como resultado, Control é um álbum obscuro, trancado, com uma textura também ela pouco expansiva, do processo de edificação à capa (uma fotografia em perfil da artista sobre fundo negro), passando pelos títulos das canções (“Run Run Run”, “Who’s That Girl” e “I’ll Be Gone”) e acabando no próprio conteúdo.

 

 

O ponto de viragem para Rosie dá-se ainda na adolescência, quando esta decide iniciar-se nos estudos de psicoterapia, como forma de desenvolver conhecimentos sobre mente e emoções, mas é no aconselhamento conjugal, mais tarde, algures entre Control e You, que encontra a melhor forma de fintar o seu trauma de infância. Comecei a frequentar terapia de casal com o meu companheiro”, partilha. “Foi muito revelador e mudou muita coisa em mim. As coisas às vezes podem correr mal e não é fácil serem resolvidas no contexto de um relacionamento, mas se passares por esse processo torna-se tudo mais simples”. 

 

Rosie chega a YU (poderá ler-se “you” ou “why you”) com um novo estado de espírito. Neste que é o seu segundo álbum, conta com a ajuda de nomes como Jamie Woon, Jamie Lidell, Jordan Rakei, Kwabs e Jay Electronica. Contudo, é o contributo de Dave Okumu o mais importante e o que se faz mais notar. Além de assumir o papel de produtor, o líder dos The Invisible ainda desempenha um papel fulcral no processo criativo do álbum, dividido a meias com Lowe. “Concordámos fazer este álbum em conjunto, independentemente do que pudesse vir a acontecer ou das pessoas envolvidas”, sublinha. “Comprometemo-nos desta forma, e é por isso normal que inclua também o lado a composição. Foi realmente muito assustador embarcar nesse processo e colaborar com ele dessa forma. Felizmente funcionou e ficou maravilhoso”, conclui.

 

 

No que diz respeito a textura e sentimento, a distância entre Control e YU é grande, apesar da curta separação cronológica. Este é um álbum de compromisso, confiança e bonança. É sobretudo um álbum de partilha, através do qual a artista liberta espaço no seu coração mas também no próprio projecto de construção da obra, repartindo responsabilidades e delegando tarefas, num verdadeiro grito contra a solidão.

 

 

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