Um ouvido no tradicional, outro no contemporâneo: é assim o modus operandi do “caçador” Ashley Henry

De certa forma, todo o ser humano gosta de desafios, venham eles a nível pessoal ou profissional ou até no âmbito do entretenimento, como por exemplo em videojogos, livros, discos ou filmes. Por mais confortáveis que possamos estar com algum assunto ou situação, sabe sempre bem abandonar essa aconchegada almofada, nem que seja por minutos, segundos ou ínfimas e quase imensuráveis fracções de tempo.

Para um mestre do piano como Ashley Henry, com anos de experiência na área e outros tantos de aprendizagem em clausura de conservatório, talvez um dos grandes desafios seja, no fundo, simplificar-se. Em conversa recente com o site I Am Hip Hop, o músico de 26 anos, que integrou no presente ano a formação de digressão de Christine and the Queens, admite que esta experiência lhe abriu novas portas. “Tratando-se de uma música mais minimal, tens que ter a disciplina necessária para tocar só aquilo que é necessário e cingires-te ao ritmo, algo que muitos músicos surpreendentemente acham difícil. Quando comecei a tocar as minhas músicas ao vivo nos intervalos da digressão com a Christine, senti que estava a fazê-lo com novos ouvidos”.

Nascido e criado na zona sul de Londres, Ashley Henry cruzou-me muito cedo com o mundo da música. “O meu pai é pianista, assim como o meu avô”, afirma ainda na mesma entrevista. “Eu lembro-me de ter um piano em casa e de ver o meu pai sentar-se a tocar composições de piano clássico. Eu era muito novo e na altura tentei copiar o que ele estava a fazer com apenas dois dedos”, recorda. É o próprio pai que, depois desse dia, decide inscrever Henry, de 6 anos apenas, em aulas de piano clássico. “Eu só me aproximei do jazz no final da minha adolescência. Tive uma sólida formação clássica ao mesmo tempo que tentava apanhar muitos discos de ouvido. Quando comecei a estudar jazz, senti que uma parte de mim já percebia a linguagem, o que me ajudou a compreendê-la facilmente”.

Em 2011, fora-lhe oferecida uma vaga na Leeds College of Music, escola que sempre sonhou frequentar e onde teve oportunidade de aprender com Les Chisnall, artista que já trabalhou com nomes como Kenny Wheeler, John Taylor, Mike Walker e Andy Schofield. Depois de concluídos os estudos em Leeds, Henry mudou-se novamente para Londres e entrou para a Royal Academy of Music, graduando-se em 2016, ano em que teve e oportunidade de tocar com Jason Marsalis (filho de Ellis Marsalis e irmão de Wynton Marsalis) e colaborar com os ilustres Terence Blanchard (trompetista) e Jean Toussaint (saxofonista).

Blanchard foi uma grande inspiração para Ashley Henry. “Andei em digressão com ele no mesmo ano em que conclui os estudos na Royal Academy of Music”, explica para o site da Kite Eyewear. “Poder tocar com ele todos os dias e mergulhar a sério nas suas composições e arranjos abriu-me várias portas a nível musical”, sublinha. Nada se compara, no entanto, ao impacto causado por Jason Rebello. “A minha decisão de abraçar o mundo do jazz aconteceu depois de ter ouvido o álbum Make it Real pela primeira vez. O Jason é um músico de classe mundial e ensinou-me muito sobre a conexão com o instrumento”.

No passado dia 6 de Setembro, Ashley Henry editou Beautiful Vinyl Hunter, registo de longa-duração que sucede ao EP Easter, de 2018. Além de ser o culminar das suas variadas influências, que vão do já citado Terence Blanchard a Sinéad Harnett e dos Digital Undeground a Era Istrefi, é ao mesmo tempo uma obra contemporânea com sólidas fundações no passado. “Se não estudares a história, em qualquer que seja a forma de arte, não vais conseguir entender o que estás a fazer”, reflete. “Especialmente no jazz; há tanta coisa que tem vindo a ser desenvolvida e reciclada desde os anos 30 a nível de ritmo, melodia, harmonia e interacção… Ainda que a minha música seja moderna e espelhe aquilo que acontece neste momento, soaria a vazia se eu não tivesse estudado a tradição jazz”, conclui.

Em Beautiful Vinyl Hunter tão depressa nos cruzamos com uma “STAR CHILD” – canção de abertura em toada de “café-concerto”, na qual é possível imaginar Henry sentado ao piano no fundo do palco, enquanto, na linha da frente, Judi Jackson canta ao microfone – como nos deixamos envolver na vibração urbana do single “Between the Lines”, onde as rimas de Sparkz se misturam com as melodias do trompetista Keyon Harrold (JAY-Z, Beyoncé, Gregory Porter, Nas, Common, Mac Miller e Mary J. Blige). Para Henry é tudo uma questão de não ficar preso numa ideia apenas. “Quando estou a compor, inspiro-me em alguns dos meus artistas favoritos dos anos 40, 50 e 60, como Thelonious Monk, Duke Ellington e Wayne Shorter – eles estavam muito à frente para o seu tempo – e gosto de misturar isso tudo com a actualidade em que me encontro inserido”.

Para a gravação do disco, o artista fechou-se no estúdio durante cerca de uma semana e fez dele um local de passagem para todo o elenco envolvido. “Foi uma gigantesca aprendizagem para mim”, confessa na conversa com a I Am Hip Hop mencionada no início deste texto. “Sempre confiei no meu instinto para escolher os artistas certos para as músicas, e como queria que soasse a orgânico, não ensaiei grande parte do material”. De facto, não haverá neste álbum nada mais “humanizado” do que “Cranes (In the Sky)”, de acordes de piano cheios e cativantes melodias, “Realisations”, odisseia repleta de deliciosos solos de metais, e “Sunrise”, onde é possível ver bateria, contrabaixo e teclas de mãos dadas numa alvorada instrumental.

Numa altura em que os britânicos discutem de forma intensa as questões relacionadas com o Brexit, Beautiful Vinyl Hunter ergue-se como um simbólico caldeirão de diversidade. “Enquanto afro-caribenho que cresceu no sul de Londres, sou musicalmente influenciado pela cultura do sound system (grime, hip hop, garage, broken beat, etc)”, realça, como forma de sublinhar uma clara ausência de fronteiras estilísticas. “Quis também celebrar o quão embebida a cultura caribenha está na sociedade britânica, especialmente em Londres. A minha música procura contar essa história”, remata.

Beautiful Vinyl Hunter vive entre as linhas do tradicional e contemporâneo mas também do simples e complexo. “Between the Lines” (muita atenção ao solo de trompete), “COLORS” e “Lullaby (Rise & Shine)” (nova investida vocal de Judi Jackson) atiram o piano de Henry quase para segundo plano, muitas vezes em mero acompanhamento harmónico, enquanto “Ahmed”, “Pressure” e “Cranes (In the Sky)” tratam de devolver o protagonismo ao majestoso instrumento de teclas. E ainda há os casos isolados de “Dark Honey (4TheStorm)”, “Battle” (vale a pena fixar os ouvidos na secção rítmica de Moses Boyd) e “THE MIGHTY”, canções equilibradas do ponto de vista instrumental e, em alguns dos casos, repletas de inspirados solos.

Não estamos perante um álbum linear, de pavimento liso e trajecto recto, mas sim de uma obra acidentada no que diz respeito à textura. São estes os vales e montanhas por onde Ashley Henry “caçou” na sua adolescência, sacando, por um lado, músicas de ouvido, e reunindo, por outro, as armas necessárias para vingar no meio. Se pensarmos no tipo de artista de Ashley Henry é, de um ponto de vista plural e abrangente, com todas as vivências e influências bem assimiladas, é legítimo dizer que este é um álbum fabricado à sua medida. E assenta-lhe que nem uma luva.

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