A primeira pergunta que se coloca é a mais óbvia de todas. Quem é Jake Milliner?

Oriundo da zona sul de Londres e ligado à era dourada do hip hop desde novo (os muito aplaudidos e por vezes saudosamente recordados finais dos anos 80 e início dos 90), Jake Milliner é um produtor que colecciona trabalhos com artistas como Barney Artist, Hawk House, Lord Apex, Musiq Soulchild e T3, dos Slum Village, colectivo de Detroit que teve na sua constituição o gigantesco J Dilla, falecido em 2006. No passado dia 11 de Outubro, Milliner saltou dos bastidores – ou da lista de créditos, como preferirem – para o centro da acção ao editar o seu primeiro álbum em nome próprio, Bernie Says, uma obra maioritariamente instrumental que usufrui de uma sublinhada assinatura orgânica, onde é possível encontrar os contributos de Joe Armon-Jones e Eun, entre outros.

Os primeiros segundos de escuta aterram em “Where’s Jozz” e “Masterlizer”, duas canções de carácter sonhador que repousam sobre agradáveis camas de piano e sintetizador, por vezes aéreos, a rasgar as nuvens. Logo de seguida há “Reminisce”, o primeiro single a ser apresentado, com a participação de Alfa Mist, nas teclas, e Marcus Tenney, no trompete. É nesta canção de toada jazz que se sente pela primeira vez a faceta orgânica de Bernie Says, com a intervenção humana a manter longe a ideia de sequenciação e programação que muitas vezes impera em álbuns instrumentais. A mesma sensação repete-se em “Love Child No.3”, segundo single do disco. Sente-se o respirar da música, o sangue a correr nas artérias, a mão de Howard McNair, músico convidado, a atacar as teclas do piano. É um corpo vivo, com personalidade.

Em Bernie Says o recurso a vozes é a excepção à regra, apostando numa inversão do guião tradicional da maioria dos álbuns – neste caso são os temas vocais que fazem o interlúdio aos instrumentais e não o contrário. “Jack Jones”, na primeira metade do percurso, convida Bubblerap para um percurso nos meandros da soul, enquanto “Chauffeur for Some Killers”, próxima do final, pede boleia a FUTAGO para uma caminhada rap que – dado o timbre e flow – nos traz à memória o acervo de Guru, ilustre figura do hip hop que se despediu deste mundo em 2010. O instrumental, em ambas as canções, procura não ser apenas um acompanhamento mas sim uma composição de primeiro plano. E assim continua nos restantes temas, sejam eles mais soul, jazz, funky, de batida alinhada ou propositadamente manca como em “Last Place” ou “Mr. Foreplay”.