The Comet is Coming | The Afterlife

É impossível olhar para a capa de The Afterlife, o mais recente trabalho dos The Comet is Coming, e não estabelecer uma ligação directa com o arranque de 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Uma das primeiras cenas do clássico de ficção científica mostra uma tribo de homens primitivos a despertar perante um gigantesco monólito negro, objecto que vai influenciando o comportamento daqueles que com ele se cruzam. A capa de The Afterlife parece recuperar essa ideia ao girar em torno de um cubo que paira sobre a superfície de um planeta não identificado, garantia que este EP está inevitavelmente conectado ao cosmos – a imagem, aliás, não difere muito da utilizada em Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery, registo de longa-duração lançado no início do ano que poderá ser considerado a nave-mãe deste mini-álbum

Em The Afterlife, King Shabaka (Shabaka Hutchings), Danalogue (Dan Leavers) e Betamax (Max Hallett) voltam a assumir os comandos dos seus instrumentos – saxofone, teclado e bateria, respectivamente – para um mergulho no espaço sideral qual asteróide feito de partículas de jazz, música electrónica e psicadelismo, recuperando também o imaginário apocalíptico que se tornou numa assinatura do colectivo. “All That Matters is The Moments”, canção de abertura, traz Joshua Idehen novamente para a linha da frente – o músico e poeta já havia marcado presença em Channel the Spirits, disco de 2016. Entre frases em toada de despedida e avisos como “o cometa está a aproximar-se” e “a nossa hora chegou”, Idehen solta versos como um apóstolo a passar a sua vida em revista, derradeiro suspiro de alguém que há muito se inteirou do seu destino.

De tão ricas que são as metáforas exercitadas pelos The Comet is Coming, igualmente férteis se tornam as interpretações em torno da sua obra. Em “All That Matters is the Moments”, as palavras “arde babilónia” conjugadas com as referências a Londres nos dizeres de Idehen são facilmente relacionáveis com a actualidade britânica do Brexit que tanta repulsa continua a causar na mente daqueles que sonham com um mundo livre e policromático. Atente-se na hipnotizante cama de sintetizadores e saxofone (melodias que se colam irremediavelmente ao ouvido) e nos ritmados apontamentos de percussão. Não poderá este tema ser interpretado enquanto marcha fúnebre de uma sociedade ou de um conjunto de ideologias? Deixe-se a mente refletir sobre o assunto.

Depois da destruição, a reconstrução – ou depois da morte, a vida. “The Afterlife”, canção-título suficientemente sugestiva, relança o trio em nova epopeia interstelar. Danalogue dá o tiro de partida nos sintetizadores, prontamente acompanhado pela bateria de Betamax e pelo saxofone do “rei” Shabaka. Os três instrumentos conjugam-se na perfeição, criando a banda sonora de um casamento espaço-tempo indefinido, incerto, apenas descodificado no cérebro destes três exímios criadores de paisagens alienígenas. Isto é ficção científica de primeira linha, quase ao nível da história de Arthur C. Clarke que deu origem ao aclamado clássico cinematográfico de 1968.

Chega o ponto alto de The Afterlife, generosamente dividido em duas partes. Em “Lifeforce Part I” somos invadidos por sonoridades que parecem ter sido retiradas da unidade central de uma nave espacial – espécie de HAL 9000. Os efeitos mantém-se até ao final e testemunham o crescendo de teclas que nada mais faz do que estender uma auto-estrada a “Lifeforce Part II”, single do álbum com saliente frase de bateria e saxofone. O respectivo vídeo parte de uma cama de hospital para uma viagem psicadélica que se cruza com o cubo presente na capa do disco e atravessa, logo de seguida, os mais bizarros quadros cósmicos, entre montanhas, oceanos e buracos negros, desaguando, no final, na imagem de um recém nascido (como nos últimos minutos do já citado filme). A vida depois da morte ou a derradeira viagem da alma na cauda de um cometa? Que cada um tire as suas conclusões.

Os The Comet is Coming sobem hoje ao palco do Lux Frágil, em Lisboa, por volta das 22 horas. Um concerto a não perder.