The Comet is Coming no Lux Frágil: O tempo é de facto relativo

A estrutura física de um cometa divide-se em três partes: núcleo, cabeleira e cauda. No contexto dos The Comet is Coming é possível afirmar que Danalogue é o núcleo (sintetizadores densos e musculados que concentram em si a energia necessária para a deslocação do corpo luminoso), Betamax a cabeleira (bateria que envolve tudo e dá a direcção certa ao temas, por vezes em suaves apontamentos de percussão, outras em complexas polirritmias) e King Shabaka a cauda (saxofone belo e hipnotizante que por diversas vezes incandesce em melodias cósmicas e viagens psicadélicas). Tudo isto fez sentido no concerto de ontem no Lux Frágil, em Lisboa.

Em “Summon The Fire”, uma das primeiras a ser servida, com direito a longa introdução, é possível testemunhar a coesão entre as partes constituintes. Danalogue, o nosso astronauta de serviço, com direito a fatiota alusiva às tripulações das naves espaciais, dá arranque ao tema com sintetizadores gordos e salientes, disparados do seu cockpit Roland-Juno. Shabaka, de fita na cabeça e pés descalços, como quem faz questão de estabelecer uma ligação directa entre o corpo e o chão que pisa, segue-lhe as pisadas com a contagiante melodia que nos transporta de imediato para o vibrante vídeo da música. Betamax, o derradeiro elemento a embarcar no tema, rigoroso como um afinadíssimo metrónomo, concede-lhe o ritmo essencial para colocar os corpos presentes em movimento. Perfeita sintonia.

É de louvar o carácter todo-o-terreno dos The Comet is Coming. Se há canções de toada mais electrónica e psicadélica, como a nervosa “Super Zodiac”, também existem temas com um ADN rock, como o compassado “Blood of the Past”, ambos retirados do muito aplaudido álbum Trust In The Lifeforce Of The Deep Mystery, lançado no início do ano. E há também músicas com alma rave que encaixam que nem uma luva em contexto de clubbing, o que comprova que os The Comet is Coming servem tão bem as vontades de quem frequenta espaços como o Lux Frágil assim como as de quem prefere o ambiente de festival, como o Glastonbury, no Reino Unido – se tiverem disponibilidade, entrem no Youtube e passem os olhos pela interpretação de “Summon the Fire”, perante uma mar de gente, na edição deste ano do certame britânico.

Um dos grandes destaques da actuação de ontem vai para a incrível “Space Carnival”, presente em Channel the Spirits, a estreia do grupo em formato longa-duração. Esta é uma canção que só por si, em contexto de álbum, nos coloca no espaço sideral em rota de colisão com os demais astros que habitam o universo. Servida ao vivo, a música ganha contornos intergalácticos, festivos, roubando-nos a noção temporal e garantido que tudo é relativo. O tempo não é igual para todos, diz-nos uma das mais famosas teorias de sempre, e pode variar consoante a velocidade a que um corpo se desloca. Ouvir esta conjugação de saxofone, sintetizadores e bateria, leva-nos a acrescentar mais uma variável. O tempo varia conforme o magnetismo das músicas que ouvimos, principalmente quando bandas como os The Comet is Coming nos conseguem envolver de tal forma que nem damos por ele a escapar-nos por entre os dedos. Os minutos sucedem-se em catadupa sem que nos inteiremos disso.

Reza a lenda que a ideia de formar os The Comet is Coming surgiu depois de Shabaka Hutchings ter sugerido tocar saxofone num dos concertos dos Soccer96 (projecto de Danalogue e Betamax) em que marcou presença enquanto espectador, pedido prontamente aceite pela dupla. Fez-se magia e, poucas semanas depois de se terem juntado em palco, o trio fechou-se durante três dias nos estúdios do mítico Total Refreshment Centre para ciar – saíram de lá com horas de música gravada. Terminado o estrondoso concerto no Lux e perante uma plateia completamente rendida (a dada altura Danalogue centra a sua atenção nos gigantescos “olhos” luminosos que ladeiam a sala e pede para que “olhemos uns pelos outros”) é caso para dizer: bendita a hora em que estes astros se alinharam.

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