Se no próximo sábado à noite passarem pela entrada do Tokyo e forem repentinamente abordados por melodias e ritmos resgatados do coração de África, não se assustem. Serão certamente os Afro Groove Collective a protagonizar mais uma noite da sua residência na histórica discoteca lisboeta. Criados com o intuito de dar uma nova vida à noite da capital – já de si repleta de espaços dedicados ao rock, hip hop e música dos anos 80 e 90 –, os Afro Groove Collective reúnem elementos de bandas-chave da música portuguesa como os Terrakota, Cacique’97, Cool Hipnoise e Mercado Negro. A ideia partiu do próprio proprietário do espaço, que lançou o desafio a Mariana Campo – DJ, entusiasta musical e organizadora das Noites Com Groove – para esta criar um programa para os sábados à noite. “Era preciso criar uma dinâmica para o Tokyo”, explica Mariana. “Na altura, contactei uma banda que infelizmente se mostrou indisponível, o que me levou a formar um projecto de raiz”.

Os Afro Groove Collective são: Marcos Alves na bateria (Luís Represas, Cool Hipnoise, Primitive Reason e Cacique’97, entre outros), Nuno Reis no trompete (Cool Hipnoise, Mercado Negro e Farra Fanfarra), Alex Louza na guitarra (Blasted Mechanism, Djamboonda, Batoto Yetu e Terrakota), José Lencastre no Saxofone (Cacique’97, Tsuki, Orquestra Arte & Manha e Social Smokers), Renato Almeida no baixo (Philarmonic Weed, Cacique’97, Mercado Negro e Kussondulola), Tiago Romão na percussão (Philharmonic Weed e Cacique’97) e Orlanda Guillande na voz (The Black Mamba, Rui Veloso, Shout!, Sara Tavares e Gospel Collective, entre outros). “À excepção do trompetista, já conhecia uma boa parte dos elementos, como o Renato, o Tiago e o Alex”, continua Mariana. “São referências que já tenho há algum tempo. A ideia foi juntar bons músicos, bons projectos, boas influências”.

A Ritmoterapia marcou presença na segunda noite da residência no Tokyo, no passado dia 19 de Outubro, e esteve à conversa com Tiago Romão e Alex Louza (neste concerto em específico, Rui Machado, dos They Must Be Crazy, substituiu José Lencastre no saxofone).

Como é que se começa um projecto destes? Qual o primeiro passo a dar?

Alex: O primeiro passo é reunir, ainda que esse processo tenha acontecido via online. Houve uma primeira fase de sugestões, filtrámos aqui e ali, e chegámos a um conjunto de músicas que acabaram por sofrer novo filtro já no período de ensaios.

E dessa selecção nasceu o vosso repertório?

A: No fundo, esse repertório já existia, dado o facto de quase todos termos tocarmos afrobeat em contextos diferentes, como servem de exemplo os Kota Cool Afro Beat Sessions, projecto que juntava elementos dos Cacique’97, Terrakota e Cool Hipnoise. É por isso normal que o espólio de Fela e Femi Kuti já saia com alguma facilidade. Contudo, tentámos não ir buscar afrobeat óbvio, divergindo um pouco sem fugir muito, e com um especial foco no afrofunk e em todas as formas de música africana ou caribenha que encaixem neste contexto.

Tiago: É um projecto muito recente, nascido quase por encomenda, ainda estamos a encontrar o caminho certo. O nosso objectivo inicial era encontrar um repertório animado, dançável, festivo. E essa tarefa tornou-se mais fácil porque eu, o Renato Almeida, o Marcos Alves e o José Lencastre já tocamos juntos em Cacique’97. Alguns de nós já tinham tocado com o Alex, fruto do projecto que ele falou há pouco, por isso não foi totalmente novo para nós. Eu também já conhecia o Nuno Reis, o trompetista. Já todos tocámos com ele não no contexto do afrobeat em específico mas neste universo da música afro, seja ela afro de África ou dos Estados Unidos.

Podem dar alguns exemplos das músicas escolhidas?

A: De momento ainda estamos a tocar repertório de outros músicos mas, por serem cenas mesmo rasteiras, bastante desconhecidas, vai quase parecer que estamos a tocar originais nossos. Tocamos uma música dos Arat Kilo, uma banda da Etiópia que anda entre o jazz e o afrobeat, muito interessante. Ainda na Etiópia, visitamos os Dub Colossus, um projecto mais dub que casa na perfeição com este projecto. Temos uma de uma banda nigeriana chamada Sahara All Stars of Jos, um funk africano, interpretamos uma de Maceo Parker, que parece ter vindo directamente da montanha do Kilimanjaro (risos), e ainda uma da artista brasileira Céu, que é afrobeat – lá está, como dizíamos há pouco, o tal interesse em ir buscar afrobeat menos óbvio, de fusão, que já esteja a caminhar noutras direcções.

Optaram mesmo por não escolher o mais óbvio…

A: Sim, porque não vais acrescentar nada se te limitares a tocar os melhores temas de afrobeat, nunca vais superar o original. O que é interessante é usar o género como ponto de partida e seguir outros caminhos. Temos um tema de Antibalas, que é uma versão de Bob Marley. Temos também um reggae de Manjul e Amadou & Mariam, uma cena completamente fora. Confesso que agora, ao falarmos disto, deu-me vontade de meter uma de highlife e ir à procura desse universo da discoteca africana nos anos 70 e 80.

O tal repertório festivo que o Tiago falava há pouco?

A: O afrobeat é um pouco cerimonial, depois também há o lado de festa. Se o teu ponto de chegada final for a festa, convém largar um pouco o afrobeat, subir o lume, e acelerar um pouco o BPM. Muitas vezes estás lá na mesma, nunca acabas verdadeiramente por sair, brincas e jogas com os estilos, e isso é fixe. Falo por mim porque em Terrakota fazíamos isso de forma extrema. Aqui é um pouco o inverso. Encostas-te aqui e ali mas sempre com aquele centro. Até porque a formação da banda não dá para grande elasticidade. Não temos muitos elementos.

T: Sim, o número de elementos é uma limitante na escolha do repertório, ou pelo menos na forma como o tocamos. Com sete pessoas é muito difícil, falta muita coisa para chegares a uma orquestra de afrobeat, tipicamente composta por mais de uma dezena de músicos.

Tive a oportunidade de ver uns vídeos da vossa estreia no Tokyo, no dia 12 de Outubro. Gostei bastante da forma como alternam entre o groove forte e o lado mais dub…

A: Estamos muito virados para essas duas coisas. Aquele groove tramado em que é impossível ficar quieto, e depois a vontade de dubar. Tocamos música africana mas nunca deixámos de ser fanáticos de reggae. Eu pessoalmente ando há anos com esta mania de dubar outras coisas que não sejam reggae. Porque o conceito de dub é tirar e pôr a secção rítmica, brincar com delays, silenciar muita coisa, jogar com os elementos deforma isolada, e isso pode ser feito com qualquer tipo de música. Aliás, se ouvires os álbuns do Prince vais encontrar muito dub.

E como é que correu a vossa estreia? Sei que não conseguiram ter tempo para fazer soundcheck…

A: Sim, atrasámo-nos por causa da questão do estacionamento no Cais do Sodré. Mas acho que correu bem. O projecto está um pouco verdinho ainda, as coisas ainda não estão na batata, até porque o repertório não é fácil…

T: O feeling que eu tenho é que foi muito positivo. Daqui para a frente, as coisas vão acontecer de forma natural, pois, quanto mais tocarmos juntos, mais os grooves se vão colar e mais espaço haverá para incluir novas músicas.

Eu sei que o projecto ainda é muito recente e que ainda estão a acertar as agulhas, mas já pensam em escrever originais?

T: Neste momento ainda não é uma prioridade. Há que olear a máquina primeiro, até porque todos nós temos outros projectos, outras actividades, e este em particular tem características específicas: é para ser tocado aqui, nestes dias, etc. É natural que isso possa vir a acontecer, mas exige que as pessoas tenham tempo para estar juntas. Também pode haver outra forma de trabalhar que é um de nós escrever o tema em casa e trazer para os outros tocarem. Contudo, aquela ideia de groovar, do processo criativo, exige que a malta esteja junta e que ensaie. Exige esse tempo que agora não temos.

A: A prioridade é tocar isto bem, desfrutar o momento. Se as coisas correrem bem, cria-se uma dinâmica. E é essa dinâmica que faz isso acontecer naturalmente, até porque sabemos que nunca vamos conseguir tocar o nosso repertório actual melhor do que quem o criou. Às tantas, começas a sentir a necessidade de fazer uma coisa mais tua. Mas cada coisa a seu tempo, agora estamos mais focados em interpretar isto bem.

Centrar as energias nestas noites do Tokyo…

T: Sim, criar uma noite ao sábado que seja apelativa, para a malta poder dançar. Há muitas alternativas no Cais do Sodré, felizmente. A malta que gosta mais de rock tem opções, o Musicbox também tem sempre concertos de variadíssimos géneros. Esta noite ao sábado é uma alternativa para quem quer dançar um pouco e descontrair. O horário é propício a isso. E o nosso repertório, tenha dub ou não, mantém a matriz de música de dança, é uma coisa comum a todos estes géneros com ligação directa ou indirecta a África: todos eles são para abanar, não é para ficar sentado a ouvir.

E se eventualmente receberem um convite para tocar noutro sítio que não o Tokyo? Num festival, por exemplo.

T: Pode acontecer. É claro que um convite desses seria para analisar, nenhum de nós diria que não logo à primeira, mas acho que não pensamos muito nisso. Lá está, isto são coisas que acontecem naturalmente. Por acaso estou-me a lembrar dos Cais Sodré Funk Connection. Tudo começou com uma proposta para uma residência no Musicbox; actualmente, são uma banda de originais inserida no circuito normal de concertos.

As vossas residências acontecem na discoteca Tokyo, em pleno coração do Cais do Sodré, na capital. Como é que acham que Lisboa reage à música de inspiração negra?

T: Lisboa é das capitais europeias que tem mais música africana, uma cultura bastante diferente de Paris ou Londres, derivada da relação com Angola, Cabo verde e Moçambique. Eu por acaso acho que já houve mais grupos de música africana em Lisboa, o que existe muito nos dias que correm é músicos africanos ligados ao mainstream.

A: A música negra em Portugal quando não se americaniza tende a ser chutada para canto. É como a música dos PALOPS. Se reparares, os artistas dos PALOPS têm que se apopalhar ou americanizar um pouco para conseguirem um pouco de ar. Estou só a chamar à atenção para um problema, não é nenhum drama. Existe alguma resistência. Não é como tocar fado ou qualquer outro estilo que a rádio reconheça logo como música portuguesa. É algo que às vezes tende a ser colocado de parte. Nas entrevistas que dei com os Terrakota lá fora, perguntavam-me sempre: “como é que é possível os Terrakota serem de Lisboa quando Lisboa é a cidade do fado?”. Lisboa não é a cidade do fado. É também, mas tem também um lado africano muito verdadeiro. Existe uma ideia latente de que a música feita em Portugal não pode ser assim tão alegre. Tem que ter a tristeza, a dor.

Não sei se concordam comigo, mas nestes últimos anos parece ter havido um boom no que diz respeito ao afrobeat. Qual a vossa opinião?

T: Não acho que haja um boom neste momento. Há mais gente a fazer música e a querer investir na carreira de músico, isso é indiscutível. O mercado está mais abrangente. Actualmente, anda tudo à procura de coisas novas, diferentes. Muitas vezes nem é o que é novo, porque não há nada de novo, é o que diferente. Foi assim no reggae. Muitas pessoas entraram e saíram. E depois houve aqueles que ficaram desde o primeiro dia porque se identificam com aquilo, com a mensagem, com todo o universo do reggae. Há muitos que vão atrás das modas. Hoje estão neste sítio, amanhã noutro. É como o baile funk. Hoje em dia toda a gente ouve baile funk mas poucos sabem quem foi o DJ Marlboro , o gajo que criou a cena, apesar de ter 56 anos e continuar a tocar. Ninguém fala dele. Mas toda a gente conhece a Anitta…

Todas estas coisas acabam por ser cíclicas, não?

T: Claro. O próprio Fela foi influenciado pelo James Brown, uma pessoa que nada tem a ver com o meio. E isso aconteceu um pouco com tudo. Com o reggae, com o afrobeat. O Fela, quando voltou do exílio, começou a fazer as suas doidices no Shrine, em Lagos, e toda a gente quis ir lá para ver. O Paul McCartney foi; todos quiseram testemunhar com os seus próprios olhos. Os Beatles, que fizeram cada álbum a desconstruir o anterior, iam à Índia para absorver coisas novas, porque havia esse interesse. É cíclico.

Um vaivém de influências…

A: Se estudares um pouco os ritmos, do Togo, do Gana, da Nigéria, vais perceber que o groove que eles escolheram quando chegaram os instrumentos eléctricos, as guitarras, os baixos, os teclados, é muito específico, por isso é que o highlife é diferente do afrobeat. Está enraizado na cultura. O afrobeat obedece a uma clave muito específica, o highlife idem, e não sai dali. Aquela clave é uma religião para eles, tem um lado tradicional muito forte. E depois o mais giro é ver esse lado tradicional saltar de um continente para o outro por causa da escravatura, como serve de exemplo o merengue, um género que já foi e veio.

Os Afro Groove Collective actuam todos os sábados na discoteca Tokyo, Cais do Sodré.

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