Está a ser um ano forte para os Blue Lab Beats. Além de terem editado em Junho o EP Vibe Central, primeira residência do single “Hi There”, o duo londrino lançou também Voyage, o segundo registo de longa-duração que sucede a Xover, a muito aplaudida estreia de 2018. Mas há mais. Mr DM e NK-OK reclamam ainda créditos de produção no álbum de estreia de Sampa the Great, The Return, com o tema “Made Us Better”, prova que a excelência no campo produtivo não se limita ao trabalho em benefício próprio e estende-se também a campanhas no “exterior”, como poderão servir de exemplo as releituras realizadas aos temas “Calling Mr Wolf”, dos Citrus Sun, “Zero Movement”, de Hume, e “Get It Together”, de Yu Sakai – não esquecer também as remisturas dos temas de Dua Lipa e Rag’n’Bone Man que deram o primeiro empurrão para a promissora caminhada do colectivo.

No que diz respeito a referências, Voyage tão depressa mergulha nas águas mexidas do nu-disco (“Hi There”, o tema presente em Vibe Central, serve também de arranque a Voyage) como se estende horizontalmente nas areias quentes do afrobeat (“Stand Up”, um dos singles apresentados, traz temperaturas elevadas e ritmos contagiantes). Há também a faceta hip hop (“Next Wake Up” pede nova conexão com Sampa the Great, com a rapper de origem zambiana a sacar versos como “me without the mic is like a beat without the snare”, ao mesmo tempo que “What R U Here 4?” convida James Alexander, Nice the Guy e Jaz Karis para um perfeito cruzamento entre rima e canto), o lado soul (“On & On”, outro dos singles, cola a voz de Saffron Grace a um dos grooves mais contagiantes do disco, antes de “Umoya” estabelecer uma ligação directa à “alma” de DemiMa) e as vibrações funk (“Galactic Funk” transporta os versos de KinKai para um imaginário cósmico; “Galacto Inferno” mune-se de uma voz computadorizada em paisagem p-funk).

Segurar o sucesso de um primeiro álbum não é tarefa fácil, principalmente quando o objecto em questão coleccionou um considerável número de elogios. Aumenta-se o grau de exigência, multiplicam-se as expectativas. É quase como se a responsabilidade repousasse sobre os ombros do artista como uma carapaça indissociável da estrutura óssea, impossível de retirar ou sacudir. No caso dos Blue Lab Beats, essa missão parece ter sido superada. Além de ser um disco à altura de Xover, Voyage reponde também à questão que se levantou aquando da edição de Vibe Central: seria este EP de vibração nu-disco e foco na pista de dança uma experiência isolada ou uma mudança nas intenções artísticas do colectivo? A chegada de Voyage reconforta o espírito nesse sentido (apesar do duo o ter deixado claro em várias entrevistas): o sentimento mantém-se.

Quando se conheceram em 2013, na Weekend Arts College (Wac Arts), escola localizada em Belsize Park, em Londres, David Mrakpor (Mr DM) e Namali Kwaten (NK-OK) não pestanejaram no momento de fundir as suas experiências e conhecimentos musicais. Kwaten, mais ligado à electrónica e à programação de máquinas, num imaginário muito próximo do hip hop, lançou o repto a Mrakpor, multi-instrumentista com fortes ligações ao universo do jazz, para criarem uma série de instrumentais e convidar alguns vocalistas para cantar sobre eles. Desse primeiro estímulo nasceram dois EPs (Blue Skies e Freedom, de 2016 e 2017, respectivamente), uma série de canções soltas (remisturas incluídas) e Xover, álbum que se ergue como uma espécie de livro de estilo dos Blue Lab Beats e de onde podem ser retiradas canções como “Say Yes”, com Ashley Henry e Ruby Francis, “Pina Colada”, com Nubya Garcia e Richie Seivwright, “Sam Cooke & Marvin Gaye”, com Kojey Radical e Tiana Major9, e o majestoso single “Pineapple”, que lança o convite ao baterista Moses Boyd, figura incontornável do novo jazz londrino, e às NÉRIJA, colectivo feminino que no presente ano assina um dos melhores trabalhos de longa-duração nos meandros do jazz.

Voyage não perde essa dinâmica de partilha e contributo. Num total de 16 temas, os Blue Lab Beats recebem 15 convidados especiais, na sua esmagadora maioria vocalistas, percorrendo uma extensa lista de géneros, influências e texturas, confirmando-se não só o carácter todo-o-terreno do colectivo (ao géneros destacados nos primeiros parágrafos deste texto somam-se ainda o drum & bass da canção-título e os ritmos latinos de “Cuba Livre”) mas também a vontade de se rodearem de outros músicos na hora de erguerem as suas obras.