Tenesha The Wordsmith | Peacocks & Other Savage Beasts

A actual tensão entre os EUA e o Irão levanta inevitavelmente uma importante questão: em que mundo vivemos nós, afinal? Um mundo onde se ceifam vidas de forma leviana com mísseis comandados à distância e onde se abatem aviões de passageiros de forma acidental e se justificam atitudes com outros erros cometidos no passado? E que América é esta? Uma América liderada por uma mente perversa e populista, sedenta de confrontos e pronta a invadir qualquer que seja o território com base em argumentos que, por diversas vezes, parecem ter sido forjados num péssimo jogo de estratégia para computador?

Estranhos são estes tempos. Continuamos a não saber olhar para o passado de forma a corrigir o presente ou prever o futuro. E por mais que álbuns como Peacocks & Other Savage Beasts, o segundo registo de originais da artista norte-americana Tenesha The Worsmith, procurem espalhar uma mensagem ou simplesmente identificar os tumores da sociedade, o estado clínico parece manter-se idêntico ao de há décadas, quando o racismo reinava sem pudor, de cara destapada e ideais escarrapachados, ou quando o papel da mulher na sociedade se limitava a contornos profissionais meramente secundários ou até terciários e a um enquadramento exclusivamente sexual. Quando pensamos que o passo evolutivo nestes quadrantes está a acontecer, há sempre um ou outro episódio, como a eleição de Donald Trump, que nos leva a colocar tudo em questão.

É por isso fácil descortinar o conteúdo de Peacocks & Other Savage Beasts. Este é um álbum centrado na América acima descrita e, no fundo, na sociedade em geral. Uma sociedade ainda muito machista, misógina, racista, homofóbica, incapaz de respeitar a diferença e apelar à igualdade, ao equilíbrio, à fraternidade e à harmonia – os exemplos de regressão ou até mesmo estagnação somam-se e multiplicam-se, dissipando a pouca esperança que insistentemente se vai colocando na humanidade. O contexto de Peacocks & Other Savage Beasts é local, centrado nas experiências da autora, mas estende-se a todos os cantos deste esquizofrénico mundo.

Oriunda de Oakland, Califórnia, Tenesha Smith encontrou desde muito cedo um refúgio no mundo da palavra. Começou por escrever nas margens dos livros que lhe ofereciam em criança, ainda longe de os conseguir classificar enquanto poemas, altura em que recolheu rasgados elogios de familiares e professores – estes últimos chegaram mesmo a afirmar que Tenesha tinha nas mãos um dom. Abraçou o mundo da spoken word na adolescência e chegou, inclusive, a ficar em segundo lugar de um concurso de poetry slam aos 17 anos, em São Francisco, cidade onde reside actualmente. Esse amor pela palavras estendeu-se também à literatura com o consumo desenfreado de obras de Langston Hughes, Octavia Butler, Lucille Clifton, Piri Thomas e Gwendolyn Brooks, autores que centraram as suas escrituras em questões relacionadas com a desigualdade social e a igualdade de género.

Nas suas preferências encontra-se ainda Toni Morrison, escritora e professora norte-americana, Prémio Nobel da Literatura em 1993 e vencedora de um Pulitzer com o romance Beloved (1987). Falecida no passado dia 5 de Agosto, Morrison é também conhecida por The Bluest Eye (1970) e Songs of Solomon (1977), duas obras que exploram as consequências de uma América racista e xenófoba, centrada num tormentoso e nada longínquo passado de ódio racial, perseguição e morte, cadastro perpétuo que devia ser mais do que suficiente para evitar reaproximações.

É natural que Peacocks & Other Savage Beasts transporte consigo uma elevada carga social e uma mensagem forte e impactante, por vezes metaforizada numa abordagem mais ligada aos contos para crianças (o facto de ser professora de ensino primário ter-lhe-á ajudado a tal aproximação), outras vezes de forma directa e sem filtros de fantasia, como é o caso de “Why White Folks Can’t Call Me Nigga”, canção que gira em torno de um assunto muito debatido no contexto norte-americano: poderá esta palavra de imensurável peso histórico e incontornável conotação ofensiva ser utilizada por indivíduos de pele branca? Smith responde a essa questão em cinco minutos de texto assente em balanço afrohouse, contrabaixo saliente e prato acelerado.

As intenções artísticas de Tenesha são evidentes e não deixam qualquer margem para dúvidas. Se recuarmos no tempo, até Body of Work, o seu título de estreia, editado em 2016, facilmente nos deparamos com temáticas idênticas, sejam elas ligadas à violência doméstica, como em “My Best Friend Has a Secret”, ou relacionadas com o longo e doloroso historial de escravatura norte-americano, como em “Terrible Stories”. E se em Body of Work conta com a ajuda de nomes como Dirty Moses, Emcee Grafitti, Anneice e Stephen Struss, numa textura que vai do beatbox às acappellas e do boom bap à simples cama de djembe, em Peacocks & Other Savage Beasts procura explorar paisagens ligadas ao jazz e à música electrónica, como servem de exemplo “Again” e “Bastard”, respectivamente. Desta vez fá-lo só, sem convidados especiais, secundada apenas pela produção do italiano Khalab.

Apesar de ter nascido – e de residir hoje – na Califórnia, Smith viveu uma boa parte da sua vida em Albany, Nova Iorque, onde editou Body of Work. Não será descabido dizer que este carácter costa-a-costa lhe concede uma visão panorâmica dos Estados Unidos, um país com uma personalidade estranha que tão depressa procura combater o seu mal patológico com a eleição de líderes que defendem uma mudança na forma como o sistema e a própria sociedade se comporta num contexto interno e externo, como rapidamente entrega o poder a alguém que se manifesta publicamente contra esses valores. E isto, veja-se bem, no espaço de poucos anos. Não será nada fácil ser-se mulher negra nesta América de Trump.

Parece inacreditável que em 2019, ano em que Peacocks & Other Savage Beasts chegou aos nossos ouvidos, ainda seja preciso alguém sentar-se de caneta e papel na mão e explicar a terceiros que a mulher existe enquanto ser humano e que isso lhe garante uma série de direitos como qualquer outro ser humano. Um deles é o de usar a roupa que quiser e de articular a sua sensualidade da forma que bem entender sem que isso despolete reacções de grau animalesco no sexo oposto. Um crime de violação nunca poderá ser atenuado com argumento “estava a pedi-las”, em situação alguma, seja qual for o contexto, por menos roupa que traga no corpo ou por mais provocante que a postura e atitude possam ser ou parecer.

Infelizmente, Smith sentiu isso na pele quando a sua mãe foi perseguida, violada e quase assassinada nas imediações do prédio onde moravam na Califórnia. O violador frequentava uma loja de bebidas com a qual a mãe de Tenesha se cruzava nas normais tarefas do quotidiano. Na altura, muitos culparam a vítima por a sua aparência atrair demasiado a atenção, como se a culpa do sucedido partisse também dela, por usar roupas inadequadas ou por um suposto elevado – e pelos vistos criminoso – grau de sensualidade. “Peacocks & Other Savage Beasts”, o tema título, versa sobre esse malogrado e traumatizante episódio, que mudou a vida de Tenesha para sempre, através de uma alegoria que envolve a beleza da cauda de um pavão e o efeito que provoca nesse depravado e criminoso mundo animal. Uma excelente analogia do quotidiano, infelizmente. Em que mundo vivemos nós, afinal?