Uma Família Muito Moderna

Londres foi o epicentro de um sismo que se alastrou a todo o mundo, com importante incidência em Melbourne, na Austrália, mas com pequenas réplicas em outras cidades. A compilação We Out Here, que reúne alguns dos nomes mais importantes da nova cena jazz britânica, entre eles Ezra Collective, Moses Boyd, Shabaka Hutchings, KOKOROKO e Theon Cross, foi o rastilho para a criação do australiano Sunny Side Up, um trabalho que junta na mesma rodela artistas como Kuzich, Zeitgeist Freedom Energy Exchange, Silentjay, Horatio Luna e Allysha Joy. O selo é o da Browswood Recordings, de Gilles Petterson, mas o compromisso e partilha universal, capaz de encurtar distância entre estes dois pontos interligados por uma efervescente vontade de gritar “nós existimos!”.

Quando se fala em novo jazz fala-se da nova abordagem que o género está a recolher, numa espécie de descodificação dos cânones tradicionais com vista a uma simplificação, por assim dizer, da linguagem articulada para que esta seja interpretada pelo comum mortal sem formação na área e a milhas da terminologia ou dos aspectos técnicos dos padrões das grandes obras e dos magnos autores de outras eras. Mas não só. As novas expressões jazz transportam na sua génese a particularidade de não se fecharem dentro da sua redoma, por diversas vezes construída e protegida, qual escudo impenetrável, pelos seus próprios articuladores. No caso dos artistas que lideram o pelotão desta lufada de oxigénio, dá-se precisamente o inverso: o jazz abre as suas portas a novos géneros e deixa-se moldar consoante os diferentes inputs.

É tudo uma questão de raízes e intenções artísticas. Muitos destes músicos tomam o jazz e as suas aprendizagens na área como ponto de partida mas procuram novas estradas baseadas nas suas vivências, sejam elas fundadas nas suas origens (uma boa parte dos protagonistas tem ascendência africana ou latina ou árabe) ou nas evolução cognitiva gerada pelo quotidiano da cidade onde vivem (grime, clubbing, hip hop e drum & bass no caso de Londres; house, funk e uma faceta mais tribal ligada às tribos aborígenes, no caso de Melbourne). E depois há simplesmente aquela vontade de desbravar caminho em várias direcções como é o caso dos projectos em que se envolve Shabaka Hutchings: The Comet is Coming, Sons of Kemet e Shabaka and the Ancestors. Todos eles diferentes e a varrer uma imensidão de linguagens.

O terramoto chegou também a Amesterdão, com menor intensidade mas ainda assim relevante. Super-Sonic Family, a compilação editada no dia 16 de Dezembro de 2019, através da Super-Sonic Jazz Records (editora que pede emprestado o título de uma das grandes obras de Sun Ra), visa condensar os nomes emergentes da cena jazz holandesa ao longo de 13 temas onde o género basilar se mistura com outros universos musicais. “Nothing Lasts” inaugura, com electrónica sonhadora e cadência chillout, um percurso que várias vezes se pavimenta de sintetizadores, como é o caso de “Visions”, “2077” e ”Aart7”, três temas com miolo cósmico e fina carapaça psicadélica. Há também funk, garantido pelo groove das estruturas rítmicas de “Amazone” e “Before the Fight”, mesmo que as melodias possam procurar aqui e ali outros horizontes. Pelo caminho, “Nature Boy” exibe uma seca e vigorosa indumentária hip hop, assente num leito de cordas e alguns efeitos especiais. “Evolution of the New Spirit”, mais à frente, revela um certo ADN rock, também ele envolto em sintetizadores. Tudo muito electrónico, portanto. Tudo muito supersónico.

Vale a pena conhecer alguns dos membros desta moderna família.

 

Planty Herbs

Nascidos Bobby Van Putten e Robbert van der Bild, Planty Herbs é um projecto, oriundo de Haia, que explora sonoridades orgânicas pensadas para “inibir o stress” e atrair os “cromossomas relaxantes”, daí “Nothing Lasts”, o tema de abertura, contar com uma assumida cadência chillout, encharcada de electrónica e apontamentos jazz. Em 2018, lançaram Come into Knowledge, um álbum funky e carregado de emoção, do qual “Nothing Lasts” faz parte. O single “Music is the Word / Disco 2080” , de 2010, chegou a coleccionar elogios de artistas como Daddy G (Massive Attack) ou Stereo MC’s.

 

Dominic J Marshall

“Não se trata apenas de um virtuoso do piano mas também de uma pessoa com um exímio sentido de tempo, melodia e musicalidade”, partilha Luc van Gaans para o site HiFi. Teclista de digressão da Cinematic Orchestra, Dominic J Marshall já tocou com músicos como Miguel Atwood-Ferguson, Benjamin Herman, Deva Mahal e Tawiah, entre outros. A sua receita mistura electrónica, soul cósmica e dub, recorrendo a diversas inspirações. Nomad’s Land, álbum com edição marcada para Março de 2020, é um honesto reflexo das suas relações com outras pessoas, experiências psicadélicas e meditação sobre existência humana. O álbum representa também a primeira investida de Dominic como vocalista, oscilando entre o lado mais soul, a spoken word e o rap – um pouco como acontece em “Town”, a canção presente na compilação.

 

Greyheads

Oriundos de um dos mais famosos portos do mundo, Roterdão, uma verdadeira bacia multicultural, este sexteto espelha o dia-a-dia desta muito concorrida cidade. A aproximação jazz parte do hip hop (ou vice versa), doseando a suas influências com conta, peso e medida – de Miles Davis a J Dilla e de Herbie Hancock a Robert Glasper. Depois de terem editado o EP de estreia Greyheads X Kytopia em 2017, o colectivo colocou na rua o primeiro registo de longa-duração, Homes, em Setembro do ano passado. Formados em 2016 e chefiados pelo baterista Nello Biasini, esta banda tem desde então criado um som particular e refrescante, aplicado em contexto de festival ou dentro das quatro paredes de um club. A finalidade é criar um groove baseado em electrónica, drum & bass, funk, jazz e hip hop.

 

Ranie Ribeiro

Previamente conhecido como D-Ribeiro, Ranie Ribeiro é um compositor, DJ e coleccionador de instrumentos de percussão sediado em Roterdão. Em Abril do ano passado, lançou Invividuality, um EP de cinco temas numa perspectiva muito ligada ao formato live, por vezes inspirado pelos trabalhos dos Daft Punk, Kerri Chandler e St. Germain. Em Super-Sonic Family assina “Nature Boy”, um tema conectado ao hip hop com um sólido loop de bombo e tarola e uma cama instrumental que facilmente traz à memória a textura e Elder Mantis, registo do norte-americano Black Taffy tornado público em Fevereiro de 2019.

 

Son Swagga

Conduzidos pela luz da imaginação, os Son Swagga criam um reino musical de magia e fantasia. Este animal de nove cabeças conta a história de tribos combatentes, forças da natureza e feitiçaria cósmica. O imaginário de Felix Back, o líder do colectivo, tão depressa se centra no jazz espiritual e no funk como abraça o universo da música de videojogos. Secundado por uma concisa e energética secção rítmica e comandado por um poderoso naipe de metais, Son Swagga orquestra a chegada de uma nova era rítmica. Estrearam-se em 2017 com o álbum Fires of Quidel e lançaram, em Maio do ano passado, o segundo trabalho, intitulado Dark Magic, pela Super-Sonic Jazz Records

 

Reinier Baas, Ben Van Gelder

Reinier Baas é uma figura proeminente na cena contemporânea de jazz europeu, tendo o seu segundo álbum, Mostly Improvised Instrumental Indie Music, recebido o prestigiado Edison Award, em 2013. Guitarrista graduado no Conservatório de Amesterdão, tocou com a Metropole Orkest, Jazz Orchestra of the Concertgebouw e a New Rotterdam Jazz Orchestra. Em 2016, lançou o seu quarto álbum de estúdio, Reinier Bass vs. Princess Discombobulatrix, uma (quase) ópera instrumental. No ano passado, soltou Mokum in Hi-Fi, em parceria com Ben Van Gelder.

Ben van Gelder é reconhecido internacionalmente como uma autoridade no saxofone alto. Os seus pares e a crítica elogiam-no pelo seu virtuosismo e sentido lírico. Van Gelder mudou-se para Nova Iorque quando tinha 17 anos e passou quase uma década a colaborar e a estudar com alguns dos mais progressistas artistas do mundo, como Mark Turner, David Binney, Nasheet Waits e Ambrose Akinmusire. Formou um quinteto de mentes vanguardistas e gravou três muito aplaudidos trabalhos com a sua assinatura. Among Verticals, álbum de 2016, inspirado numa pintura de Frantisek Kupka, recebeu críticas de cinco estrelas em várias publicações a nível mundial.

 

Yannick Hiwat

Nasceu no dia 7 de Novembro de 1988 na Holanda e começou a tocar violino com apenas seis anos. Yannick Hiwat é um ser em constante evolução enquanto músico e compositor, traçando uma linha da tradição jazz ao movimento hip hop e neo-soul. Já trabalhou com Snarky Puppy, Akua Naru, Sandra St. Victor, Sherry Dyanne, Ronan Keating, Sabrina Starke, La Rouge, Renee Flemming, Pete Philly, Zap Mama, Renee Neufville, Tasha’s World, Karsu Donmez e City Safari Blue, entre muitos outros. O seu amplo conhecimento em vários géneros já o levou a grandes salas de concerto na Holanda, Bélgica, Moçambique, Suriname, África do Sul, Ucrânia, Polónia, Alemanha, Espanha, Itália, Noruega, Suécia e Finlândia.