The Sorcerers | In Search of the Lost City of the Monkey God

Reza a história que Mulatu Astatke, por muitos considerado o pai do ethio-jazz, terá ficado deslumbrado quando se cruzou pela primeira vez com a música dos The Sorcerers, ao ponto de ter pedido de imediato uma cópia do álbum de estreia do colectivo de Leeds para si. Compreende-se o porquê do entusiasmo. É que The Sorcerers, o trabalho homónimo em questão, não só encontra fundações no género desenvolvido pelo músico etíope como mistura esse ADN jazzístico com toda uma acentuada vertente cinematográfica, envolvendo o ouvinte numa densa atmosfera digna de grande tela. Como não ficar rendido.

Editado em 2015 pela ATA Records, The Sorcerers inspira-se nas melodias e harmonias do ethio-jazz e cruza-as com as bandas sonoras dos filmes europeus dos anos 60 e 70, procurando um resultado coeso e incorporando um vasto leque de instrumentos ao longo de oito faixas, sendo uma delas a inebriante “Cave of Brahma”, que poderá ainda ser encontrada em Funk, Soul & Afro rarities: An Introduction to ATA Records, uma compilação lançada em 2014 pela Here & Now. Os The Sorcerers são: Pete Williams (flauta, clarinete baixo, percussão e xilofone), Neil Innes (baixo e guitarra), Joost Hendrickx (bateria) e Richard Ormrod (clarinete baixo, vibrafone).

Cinco anos depois de terem impressionado o professor Astatke, os The Sorcerers editam o seu segundo registo de longa-duração, intitulado In Search Of The Lost City Of The Monkey God, novamente com o selo da ATA Records. Nesta nova aventura, o colectivo não se afasta muito da receita inicial, aprimorando algumas técnicas e refinando a mistura. O baixo, por exemplo, surge mais saliente, garantindo um incremento no groove e uma melhor pancada rítmica em combinação com a bateria, que se mantém seca e compassada, à imagem do episódio anterior. O clarinete baixo, por sua vez, evidencia-se novamente recortado e preparado para traçar as habituais e magnetizantes melodias em formato storytelling.

“Opening Titles”, o tema de abertura, facilmente assume os contornos do arranque de um thriller cinematográfico, libertando espaço para a nossa mente idealizar o normal desfilar das estrelas que compõem a constelação da película, entre realizadores, produtores e actores. “Treasure Sacrament” e “Overgrown Icons” encontram nas linhas graves o impulso certo para o bater de bombo e tarola, complementado, mais à frente, pelos omnipresentes instrumentos de sopro e, durante toda a viagem, acompanhados de alguns efeitos especiais que nos levam para um imaginário algures entre a floresta e o deserto, como se de a banda sonora de uma aventura de Indiana Jones à procura da cidade perdida do Deus Macaco – alusão ao título do disco – se tratasse.

Em 2017, Douglas Preston publicou o livro The Lost City of the Monkey God: A True Story, uma não-ficção sobre um projecto liderado pelo realizador de documentários Steve Elkins, que procurou lugares de interesse arqueológico na Reserva da Biosfera de Río Plátano, nas Honduras. Não se sabe se terá sido esta a grande fonte de inspiração do colectivo britânico, apenas que o disco foi baptizado e conceptualizado a partir do título de um artigo da National Geographic lido pelo baixista Neil Innes – provavelmente até se tratará de uma peça sobre a obra literária do escritor belga.

Independentemente disso, não se pode dizer que In Search Of The Lost City Of The Monkey God explore uma textura próxima da América Central – isto no caso de estar certa a conexão com The Lost City of the Monkey God: A True Story. Não só os instrumentos utilizados mas a própria construção rítmica e melódica evocam um lugar inserido nas fronteiras do continente africano, onde surge como primeira sugestão mental a Etiópia, pelas razões mais óbvias. Contudo, esta não deixa de ser uma banda sonora imaginada, pelo que poderá beber às mais variadas fontes. Uma delas, claro, a aventura de uma expedição ao coração de uma sinistra e perigosa floresta.

Ao longo da audição, os títulos das canções tratam de informar em que fase do enredo nos encontramos e qual será o próximo cenário a encarar. “Downriver” sugere a descida das águas de um ameaçador rio com todo o suspense inerente; “Crossing the Rope-Bridge” retrata a travessia de uma ponte de cordas e o perigo de uma queda eminente; “The People of the Forest” simula o primeiro contacto com os seres nativos da floresta. A cadência dos temas altera consoante o ponto da trama, oscilando igualmente com o estado de espírito do ouvinte. “The People of the Forest”, novamente, recorre a uma alegre e ovante melodia de flauta escoltada por uma linha de baixo também ela harmoniosa; “Beneath the City of the Monkey God” mergulha a aventura num arrastado suspense, para, logo de seguida, “Escape from the Catacombs” lhe injectar a adrenalina da fuga desenfreada.

Mais à frente, “Who Is the Hunter, Who Is the Prey?”, que conta com o auxílio da flauta de Chip Wickham, nome emergente do jazz britânico, propõe uma cena de predador e presa coadjuvada pelos breaks de bateria e as nervosas frases de sopro, desembocando em “Summoning the Monkey God”, onde tudo se revela e se dá o desenlace final, seguido de “End Credits” e nova participação de Chip Wickham. Maravilhoso filme.