Jeff Parker | Suite For Max Brown

Quando se encontrava em pleno processo de construção de The New Breed (International Anthem, 2016), Jeff Parker foi surpreendido com a notícia da morte do seu pai, um triste acontecimento que, além de ter naturalmente abalado o seu equilíbrio emocional, transformou o disco numa espécie de tributo ao ente querido. O título pede emprestado o nome da loja da qual o seu pai era proprietário, em Bridgeport, Connecticut, terra natal onde Parker deu os primeiros passos na música: primeiro, enquanto membro do grupo coral da igreja; segundo, na aprendizagem do piano, antes de ter percebido que os seus dotes estavam guardados para a guitarra, instrumento através do qual se notabilizaria no lendário colectivo de pós-rock Tortoise e em projectos como Isotope 217 e Chicago Underground Quartet.

No seu percurso a solo, Jeff Parker conta com seis títulos de originais: Like-Coping (Delmark, 2003), The Relatives (Thrill Jockey, 2005), Bright Light In Winter (Delmark, 2012), o já referenciado The New Breed (International Anthem, 2016), Slight Freedom (Eremite, 2016) e o recentemente editado Suite For Max Brown (International Anthem/Nonesuch Records, 2020). Além de representar a sua segunda entrada para a International Anthem, importantíssimo selo de Chicago responsável por algumas das mais relevantes edições dos últimos anos nos meandros do jazz, Suite For Max Brown é novamente um álbum em formato tributo, desta vez dedicado à sua ainda viva mãe, cujo nome de solteira é Maxine Brown. “Pensei que seria fixe desta vez dedicar algo à minha mãe enquanto ela ainda é viva para o ver. Quem me dera que o meu pai ainda estivesse por perto para ouvir o tributo que fiz para ele”, revela o músico na sua página de Bandcamp. A capa do disco é uma fotografia de Max Brown com 19 anos – já em The New Breed o músico havia utilizado uma foto antiga do pai em frente à loja que deu nome ao disco.

Suite For Max Brown é por isso um álbum com uma vertente bastante pessoal e familiar. “Build a Nest”, o tema de abertura, espelha bem esse cariz, ao pedir emprestada a voz de Ruby Parker, filha de Jeff Parker, para cantar “everyone moves like they’ve someplace to go, build a nest and watch the world go by slow” sobre batida alegre e jovial. O verso poderá ir ao encontro dessa ideia de construir um lar e cuidar da família, ao mesmo tempo que se testemunha na primeira fila e em lugar privilegiado, nas alturas, o mundo a avançar de forma lenta e compassada. Um bonito ideal de união e protecção. Esta não é, porém, a primeira vez que Ruby entra num álbum do pai. Em The New Breed, a jovem Parker colocou as suas cordas vocais em “Cliché”, a derradeira canção do disco, estabelecendo assim uma correcta e interessante continuidade – o mundo do cinema chamar-lhe-ia raccord – com a referida introdução de Suite For Max Brown.

Há muito jazz em Suite For Max Brown, género que se mantém quase omnipresente no alinhamento de 11 canções, mas há também muito hip hop – ou, pelo menos, muita abordagem ou aproximação à cultura. Numa entrevista de 2017 para o site Observer, o músico de Chicago não escondeu a sua admiração por nomes como Outkast, Organized Noize, Marley Marl, DJ Premier, J Dilla, Pete Rock, MF Doom, De La Soul e, sobretudo, Madlib. “Fiquei estupefacto quando ouvi Yesterdays New Quintet [projecto jazz do produtor californiano] pela primeira vez. Não só me chamou à atenção como me surpreendeu bastante. Eu amei aquele projecto e algumas da músicas presentes são das minhas favoritas de sempre”, confessou. É natural que os trabalhos a solo de Jeff Parker espelhem alguma dessa influência, principalmente quando albergados por uma editora que há anos desafia as fronteiras tradicionais do jazz e o transporta para outras paragens.

“C’mon Now”, o curto tema que se segue, é um claro desaguar destas influências, recorrendo a um loop de voz e metais sobre batida forte e seca. A ideia estende-se de certa forma a “Gnarciss”, interpretação do tema “Black Narcissus” de Joe Henderson, sensivelmente a meio do disco, e, já no final, a “Max Brown”, o primeiro single desta suite a ser apresentado ao público – uma verdadeira odisseia de homenagem à pessoa homónima. Tratam-se de músicas com miolo jazz, edificadas nesse sentido, mas seladas com saliente bateria, onde facilmente se imaginaria uma entrega de rimas em fase menos agitada da instrumentação. É o próprio Jeff Parker que nos leva a conhecer o seu processo em declarações. “Há dez ou quinze anos atrás, fiquei obcecado em fazer música a partir de samples. Dei por mim a construir loops e batidas a partir da minha própria biblioteca de gravações. Era algo que eu fazia sempre que tinha tempo livre, mesmo quando andava em digressão – no autocarro, em aviões, nos ensaios de som. Depois de um tempo, como é fácil imaginar, encontrei-me com horas e horas de samples com os quais não tinha feito ainda nada”.

Esta é uma técnica comum a toda uma nova geração de músicos que não se ficou apenas pelas bases adquiridas em intensa aprendizagem jazz e procurou diluí-la em universos paralelos, como serve de exemplo Makaya McCraven, uma das figuras-chave da International Anthem. Num vídeo publicado pela The Vinyl Factory na plataforma Youtube, o baterista e produtor norte-americano coloca em evidência a vontade de abordar a sua música de uma perspectiva hip hop, ou seja, gravando os instrumentos em estúdio e passando-os, depois, por um processo de corte e costura. “Eu construí o álbum The New Breed baseado nessas velhas composições sampladas e misturei-as com a improvisação”, continua Parker. “Houve muita edição e trabalho de pós-produção. Com Suite For Max Brown [esse processo] evoluiu. Procuro tocar o maior número possível de instrumentos. Projectei a maior parte do álbum em casa ou durante uma residência que tive no Headlands Center [Califórnia]”.

Apesar do solitário processo de composição e estruturação, Suite For Max Brown é plural no capítulo da gravação. Excluindo temas como “C’mon Now” (maravilhosa articulação de samples de Otis Redding), “Fusion Swirl” (magnetizante corrida de bateria, baixo e guitarra) e “Metamorphoses” (a perfeita abertura de noticiário ou de programa especial de debate televisivo), as restantes parcelas da obra contam com o contributo de um conjunto de músicos que Parker baptizou como The New Breed. São eles: Paul Bryan (baixo, vozes), Josh Johnson (piano eléctrico, saxofone alto), Jamire Williams (bateria), Katinka Kleijn (violoncelo), Rob Mazurek (trompete), Makaya McCraven (bateria, sampler), Jay Bellerose (bateria e percussão) e Nate Walcott (trompete). “Gnarciss” e “Max Brown” são, muito possivelmente, os temas onde mais se evidencia essa característica ensemble.

“After the Rain”, onde participam Parker, Johnson, Bryan e Williams, é uma versão de um tema de John Coltrane (presente no álbum Impressions, de 1963), aqui substituindo o instrumento de metal pelas cordas da guitarra. Coltrane foi uma importante bússola no trajecto musical de Jeff Parker (“After the Rain” terá sido a primeira música que o levou a perceber que caminho seguir). Ainda na sua página de artista, o músico recorda a noite em que inadvertidamente encontrou um importante ponto cardeal no seu foco artístico. “Quando morava em Chicago, tinha por hábito passar música enquanto DJ. Isto muito antes do Serato [software de mistura DJ] e das misturas feitas a partir de computador. Tinha dois discos, dois gira-discos e uma mesa de mistura. Estava a passar som numa noite e, durante cerca de 10 minutos, consegui sincronizar de forma perfeita um tema de Nobukazu Takemura e o primeiro movimento do “A Love Supreme” de John Coltrane. O resultado foi uma espécie de free jazz assente numa batida sequenciada. Soou mesmo bem. É o que tento fazer em Suite For Max Brown. Tenho beats sequenciados e há músicos a improvisarem sobre ou sob o padrão rítmico. É isso que procuro. O homem contra a máquina”.

Suite For Max Brown é um trabalho bastante diverso onde tão depressa se podem encontrar canções arrastadas e envolventes como “3 for L” e “Del Rio” como instantaneamente nos cruzamos com a agitação quase desenfreada de “Go Away” e “Fusion Swirl”. Há também o lado dos loops, do hip hop e da experimentação, espelho das intenções artísticas de alguém que, vasculhada a sua bagagem musical, se recusa a ficar preso numa só fórmula ou fechado numa limitada redoma. E existe, também, a questão familiar, o amparo e a valorização daquilo que é mais sagrado no mundo. O ninho perfeito que Ruby canta em “Build a Nest”. Não haverá melhor forma de deixar uma mãe orgulhosa.