Môrus: “Estamos a dar tempo para que as coisas aconteçam, queremos gostar daquilo que fazemos”

Entrevista: Manuel Rodrigues | Fotografias: Ana Viotti

Lisboa, 26 de Outubro de 2019. A noite é de Altin Gün na capital portuguesa e a gigantesca e demorada fila à porta do Musicbox, Cais do Sodré, é a prova física de algo que há muito se sabe: a lotação deste que é um concerto inserido no evento Jameson Urban Routes está esgotadíssima. A banda de Merve Dasdemir e Erdinc Ecevit Yildiz serviria um concerto enérgico recheado de alguns do temas que pautam a sua ainda curta carreira, retirados de On e Gece, os dois álbuns até à data editados – entre outros, ouviram-se “Tatli Dile Guler Yuze”, “Leyla”, “Gelin Halayi”, “Goca Dünya” e “Süpürgesi Yoncadan”. O público não poupou na hora de aplaudir a performance e deixou clara a vontade de voltar a receber o colectivo holandês em Portugal, nesta que foi a sua estreia em território continental (a banda já havia actuado nos Açores).

Os Altin Gün não foram, todavia, os únicos anfitriões da noite. Momentos antes, no mesmo palco, os Môrus serviram um concerto intenso e hipnótico que deixou boa parte da plateia boquiaberta. “Menino do Bairro Negro”, uma versão a cappella para o original de José Afonso, foi a primeira a aterrar no coração da plateia, recheada de vibratos e com uma veemência digna de vénia. Seguir-se-ia uma selecção de músicas inseridas num magnetizante carrocel dinâmico, oscilando entre a simplicidade de uma voz desnuda e a avalanche instrumental de guitarra e timbalões, capazes de fazer tremer as paredes do Musicbox. É algures entre a beleza do registo de cantautoria e a força do prog rock que o código genético dos Môrus se situa, proporcionando suaves momentos e introspecção ao mesmo tempo que os potencializam com robustas paredes de decibéis.

Os Môrus são Jorge Barata e Alexandre Moniz. Conheceram-se no Miradouro da Graça, algures em 2017, e desde então que têm colaborado no sentido de edificar o seu projecto musical – “uma banda que navegou e navega paralela à amizade”, como se pode ler na página oficial de Bandcamp. Tudo começou quando Alexandre foi convidado a participar num concerto do projecto a solo de Jorge Barata, no Cais do Pirata, ainda a léguas de entrarem para estúdio para gravarem aquele que seria o EP de estreia de título homónimo. O entendimento foi imediato – “a nossa química é boa e despoleta estas decisões de experimentar coisas”, garante-nos Moniz – e, depois de serem incentivados pelos amigos que perceberam o potencial da conexão, decidiram unir esforços para criar os Môrus, uma bacia onde sedimentam as várias influências do duo. A Ritmoterapia esteve à conversa com Alexandre Moniz e Jorge Barata no espaço Le Chat, na zona de Santos.

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Li algures que a vossa história começa no Miradouro da Graça, em Lisboa. Em que contexto aconteceu?

Alexandre Moniz: Foi no seguimento de uma noite de bastante agitação, em que fomos parar ao Damas. A certa altura o Damas fechou e a malta movimentou-se até ao miradouro da Graça. O [João] Spencer, baixista de Mazarin, nosso colega, saca da guitarra e começa a tocar umas coisas. Nisto, o Jorge pede a guitarra emprestada e começa a tocar a “Irene” do Rodrigo Amarante. Fiquei logo impressionado, do estilo “este gajo deve sacar bué miúdas!” [risos].

Mas já se conheciam de vista ou esse foi mesmo o primeiro contacto?

Jorge Barata: De vista sim, eu vi um concerto dos Galgo, banda da qual o Alexandre faz parte, no Paredes de Coura, em 2016. Lembro-me bem desse concerto, havia lá um gajo com um cinto do John Cena e tudo…

Qual era o teu background musical na altura?

JB: Tive uma banda dos 16 aos 20 anos, uma mistura de malta que tinha formação clássica com um lado punk rock/metal e eu que sou mais do universo da cantautoria. Era uma mistura um pouco estranha. Musicalmente resultava muito bem mas depois fomo-nos separando porque tínhamos interesses divergentes; houve malta que quis seguir outras coisas. Também tinha a minha cena a solo, um projecto de cantautoria, folk portuguesa e alguma bossa nova.

Ou seja, cada um trouxe o seu input para este projecto…

AM: Tínhamos ambos os nossos mundos, onde fazíamos alguma coisa e onde já tínhamos alguma experiência. Como qualquer amante de arte, não nos interessamos apenas por uma coisa. Eu interesso-me bastante por cantautoria, por exemplo.

JB: Nem ele trouxe só a cena prog rock nem eu trouxe apenas a cantautoria. Há muitas outras influências que, ou trouxemos directamente, ou surgiram de forma natural.

AM: Claro. Ambos gostamos das vertentes em que nos especializámos mas cada um de nós não é só isso.

E qual é o momento zero da construção dos Môrus, quando é que as forças começaram a convergir?

AM: Isto tudo começou com um concerto que o Jorge ia dar em nome próprio no Cais do Pirata, no Cais do Sodré. Era um evento das Produções Incêndio, chamado Transe Colectivo. O Jorge convidou-me para ir tocar com ele nessa noite, e na altura era só mesmo isso. Depois é que fomos para a sala de ensaios e tentámos perceber o que é que conseguíamos aproveitar ou compor de raiz.

JB: Houve algumas músicas que surgiram nessa altura em que era suposto ser só um concerto – lembro-me do cartaz ter algo como Jorge Barata convida Alexandre Moniz (Galgo). A “Borba” nasceu aí, por exemplo, mais ou menos em 2017. Esse concerto foi o rastilho. A malta da Produções Incêndio incentivou-nos bastante para fazermos algo juntos.

AM: Para quem não sabe, a Produções Incêndio é uma produtora de eventos e agência de artistas. É uma comunidade de amigos, da qual eu e o Jorge fazemos parte. Têm um evento mensal na casa independente chamado Casa Ardente. É a nossa residência artística. Depois desse concerto, a produtora propôs-nos um espectáculo no Fontória: foi o primeiro já em contexto Môrus.

Esta é a pergunta da praxe mas, ainda assim, inevitável: como se dá a escolha do nome?

AM: Dá-se na marginal a andar de mota, com o material às costas [risos]. Já tinham surgido ideias, já tínhamos falado de nomes, mas ainda não havia nada que soasse certo. Nesse dia, um de nós sugeriu o nome Môrus e foi instantâneo. Eu estava a conduzir a mota, ele estava atrás, parámos a mota num sinal vermelho e apertámos a mão. Arranjámos logo dois ou três argumentos para justificar a escolha.

E que argumentos foram esses?

JB: Primeiro, por ser uma certa homenagem à cultura muçulmana, mourisca, e obviamente a ligação que tem com a cultura portuguesa.

AM: Segundo, pela parte sonora de mouros que é também uma mistura de várias coisas e pelo facto de nós sermos também uma mistura. Na altura eu também tinha mais cabelo e barba, parecíamos mouros os dois [risos].

Quando fui à vossa página de Bandcamp, deparei-me logo com o tema “Borba”, single do EP. O título sugere uma ligação ao Alentejo. Existe aqui algum tipo de raíz pessoal?

JB: Não. Somos os dois de Lisboa. Este tipo de cantautoria tem raízes alentejanas, pelo menos na maneira como se materializa. É por isso normal que se encontrem influências. “Borba” é uma escolha consciente e inconsciente, podia ser outro vinho de outra zona qualquer. Narrativamente faz sentido.

A gravação aconteceu no Haus, certo?

AM: Não. Gravámos a Borba no Estúdio Nascer do Som, pertencente ao Francisco Rebelo e ao Pedro Ferreira, responsável pela produção, gravação e masterização. Só mais tarde gravámos o EP, aí sim no Haus, tendo o tema sido remasterizado em função das restantes músicas.

Abriram o concerto no Musicbox com “Bairro Negro”, de José Afonso, e, mais adiante, interpretaram “Eu Vi Este Povo a Lutar (Confederação)”, de José Mário Branco. De que forma é que este cancioneiro português influencia a vossa música?

JB: Oiço Zeca Afonso, Fausto e José Mário Branco desde pequeno. Foram artistas que me mostraram, não chegaria lá obviamente por iniciativa própria com 4 ou 5 anos. Directamente, não sei de que maneira me influenciaram. Talvez em termos de tópicos ou de sonoridades, mas acho que é tudo um pouco indirecto, inconsciente. As influências já lá estão, na verdade. Talvez nas cadências…

Os autores referidos desempenharam um papel crucial numa época bastante específica da nossa história. Sendo o paradigma obviamente diferente, sentem que têm algo a dizer?

AM: Há tempos, antes de ter falecido, cheguei a ver uma entrevista de José Mario Branco na FCSH em que abordou precisamente essa questão. Para já, como dizes, os problemas são outros. E outra coisa é: o que é que é isso da intervenção? De certa forma, ao falares de um desamor estás a intervir na sociedade de uma outra maneira, talvez não tão politizada mas é um tipo de intervenção. Lembro-me de ele dizer isso e de eu ter ficado a pensar: “o que é um cantor de intervenção?” Todos nós somos cantores de intervenção.

JB: Estruturalmente, há muita coisa que é preciso mudar totalmente ou quase totalmente. Portanto, há sempre coisas para dizer.

AM: Na altura, era uma austeridade diferente. Hoje em dia há coisas que continuam a não funcionar. Na “Pisa Pé” [tema do EP] existe uma certa referência a isso.

JB: Há uma parte que é claramente uma crítica à instituição, ao poder. Eu acho que isso é minimamente claro. Depois tens uma parte que pode ter uma conotação amorosa, conjugal. Na “Fartar Vilanagem Parte I” também tens um lado interventivo, por exemplo.

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No momento em que subiram ao palco do Musicbox, senti na vossa música uma interessante dicotomia entre as partes vocais, mais expostas e desnudas, e o lado da percussão e da guitarra, mais musculado. Achei muito interessante…

AM: A nível estético e de contributo musical de cada um de nós, a nossa música pode ser comparada com a personalidade do cisne. O cisne é um animal muito temperamental, ou seja, tem essa particularidade de ser suave e agressivo. Essa dicotomia e essa sobreposição de coisas antagónicas produz um efeito especial.

Reparei que além dos timbalões, que garantem esse lado robusto, há também uma tarola, tocada pelo Alexandre…

JB: A cena da tarola por acaso não existe assim há muito tempo, até é algo recente. Neste projecto canto e toco timbalões, de grosso modo. De vez em quando toco guitarra mas é um apontamento, estruturalmente não é isso. Pode-se dizer que sou vocalista e percussionista. E ele é guitarrista e vocalista. É curioso porque de nós os dois ele é que é baterista fora do projecto. E isto explica bem a partilha de ideias ou de sugestões. Daí a entrada da tarola.

AM: A nossa química é boa e despoleta estas decisões de experimentar coisas. Isto começou só com guitarra e voz e a certa altura sentimos a necessidade de incorporar ritmo. Foi um pouco inconsciente. Contudo, não fomos para uma bateria convencional, lá está. Preferimos um lado mais tribal. Existe isso em África, no espiritual negro. Tens muita percussão e muita voz, há uma semelhança.

Como é que foi tocar antes dos Altin Gün? Chegaram a ver um pouco do concerto deles?

AM: Ainda chegámos a ver, sim. Deram alto concerto. Nós não conhecíamos a banda aquando da confirmação. O pessoal amigo é que acabou por nos informar que íamos antes deles. Foi aí que fomos ouvir. E o curioso é que o meu pai tinha ido uns dias antes a Istambul e trouxe-me um saz [instrumento de cordas turco]. Quando ele me deu o instrumento pensei logo em utilizá-lo para Môrus e, inclusive, em levá-lo para esse concerto no Musicbox. Depois fui ver cenas de Altin Gün e reparei que o vocalista utiliza o mesmo instrumento. E ele toca mesmo muito bem, pensei logo que era melhor não levar para não fazer más figuras [risos].

Quais os vossos projectos para o futuro? Já estão a preparar o registo de longa-duração?

JB: Temos algumas coisas mais ou menos estruturadas. A ideia é eventualmente tocar e eventualmente gravar.

AM: Infelizmente em Portugal ser artista não é uma profissão. É difícil fazer só isto. É sempre a mesma questão. É difícil viver da música no sentido de projecto e bandas.

JB: No nosso enquadramento ou não tens concertos suficientes e tens que trabalhar noutras áreas ou consegues ter carradas de concertos e entras eventualmente numa depressão por estar sempre a tocar ou a fazer coisas. Às vezes até aprendes a odiar a única coisa que gostas.

AM: Se quiseres fazer isto mesmo a full time não podes parar, tens que desdobrares-te em vários projectos. Porque viver de um projecto apenas é lixado. A não ser que tenhas mil e um projectos, mas isso obriga-te a andar atrás deles e a perder muito da tua vida pessoal.

JB: E depois não é só o tempo que não tens mas também a disponibilidade mental que também não tens. Se tens muitos projectos e trabalhas, dás por ti a andar de um lado para o outro feito louco, acabas de cabeça cheia. Chega a um ponto em que nem é saudável em termos artísticos. Há pouco falávamos de intervenção, eis um bom tema para ser interventivo [risos].

AM: Estamos a dar tempo para que as coisas aconteçam, queremos gostar daquilo que fazemos. Não queremos fazer isto por obrigação.

JB: Há no mínimo a certeza de que vai haver um álbum. Quanto ao tempo, nem oito nem oitenta. Nós sabemos que vai acontecer, mas não vale apena estar a apressar o processo.

 

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