Quando partilhou os primeiros detalhes sobre o seu novo álbum, em Novembro do ano passado, informando que se tratava de “algo completamente diferente” e que, apesar de tudo, “ainda gostava de jazz”, Moses Boyd estava, no fundo, a facultar-nos uma importantíssima coordenada em termos de conteúdo. Dark Matter, trabalho que viu a luz a 14 de Fevereiro deste ano, dia de São Valentim, é uma alargada bacia onde se depositam partículas de afrobeat, grime, garage, pop e algum rock, cobertos com um negro manto (já lá vamos) e selados com uma incidência na pista de dança. O que o baterista londrino nos quis dizer com tais palavras é que, apesar da elevada concentração de jazz que guarda nos seus sagrados cofres cognitivos e da prática que reuniu ao longo destes anos, este é um disco que extravasa as fronteiras do género e se estende a areias vizinhas.

Em entrevista com a Loud And Quiet, Moses Boyd evoca um conceituado chef de cozinha, proprietário de um restaurante de sushi no Japão com estrela Michelin, que não poupa na altura de confeccionar a iguaria: as facas utilizadas são afiadas nas montanhas por um especialista e o arroz requer uma aprendizagem de 10 anos para alcançar os mínimos pretendidos. Esta metáfora está obviamente relacionada com a aquisição de conhecimentos nos campos do jazz. Segundo Boyd, não basta aprender as notas. “Tens que acompanhar alguém que já o fez anteriormente, tens que falar com eles, tens que aprender a história, tens que dar concertos naqueles sítios estranhos e descobrir como podes preencher duas horas sem música da tua autoria, tens que aprender temas que não são teus, tens que aprender a improvisar em canções que não são tuas, tens que ter um vasto repertório”, enumera.

De facto, se há característica que se destaca em Moses Boyd é a sua capacidade de colecionar experiências. Oriundo de Catford, zona sul de Londres, cresceu no seio de uma família ligada ao gospel, soul, funk, rock e reggae – isto muito antes de completar os estudos no prestigiado conservatório de música e dança Trinity Laban e de arrecadar dois prémios MOBO, em 2015 e 2017. Num dia normal ouvia artistas como Björk, Debussy, Tupac, Nas, Youssou N’Dour e N.E.R.D, sendo a banda de Pharrell Williams, principalmente o álbum Fly or Die, um dos seus principais pontos cardeais. De certa forma, existe um reflexo disso em Dark Matter, não no que diz respeito à textura, como é óbvio, mas pela abordagem artística: Boyd desempenha aqui o papel de instrumentista, compositor e produtor, um pouco à imagem daquilo que os autores de “She Wants To Move” fizeram ao longo da sua carreira.

Comece-se pela capa. Sobre um fundo negro, uma mão transporta uma tocha com aquilo que aparenta ser a bandeira do Reino Unido em chamas, metáfora que se liga inevitavelmente à actualidade do Brexit. “Eu andava a reflectir sobre o que estava a acontecer no país quando escrevi o álbum, calhou na altura da loucura do Brexit e do escândalo Windrush [referente às pessoas que em 2018 foram indevidamente detidas e deportadas do Reino Unido pelo Ministério do Interior]”, afirma o músico para o Bandcamp Daily. “Havia uma constante nuvem em meu redor. Pensei: ‘se podem deportar pessoas como os meus avós, serei eu mesmo britânico? Se Grenfell arde com pessoas lá dentro e o acidente é institucionalmente abafado, teremos mesmo importância?’”, denuncia. Por outro lado, Dark Matter também se une ao universo. “Não podemos explicar a matéria negra, mas está lá. É misterioso mas também nos une, e isso pareceu-me a metáfora perfeita para o que estava a acontecer à minha volta”, diz.

É por isso negro o sentimento que cobre Dark Matter, alastrando-se igualmente ao miolo das músicas. “Dancing in the Dark”, que conta com a participação vocal de Obongjayar, é um excelente exemplo disso. “The world is changing / The rules are not the same / Why my brothers so afraid / Why my brothers full of hate”, deposita o músico nigeriano sobre uma cama de teclas e ambientes, antes da cavalgada da bateria, acrescentando frases como “I look around and I see pain, so much pain” e “Stop pretending that everything is okay”. Não há grande rasgo de luz nesta música, assim como não o há em “Only You”, um dos primeiros singles do disco a ser apresentado ao público. Nesta que é uma espécie de incursão metal (ali pelos campos do industrial…), sente-se o nervosismo da bateria e a robustez da gravalhona parede de sintetizadores, polvilhada aqui e ali por apontamentos mais agudos, e rematada por um fantasmagórico e constante loop de voz. Tudo muito escuro, portanto.

“BTB” e “Y.O.Y.O.”, na sua pulsação afrobeat, resultante da temporada que Boyd passou em África, são duas excepções à matéria negra que tinge o disco, a par de “Shades of You”, onde é possível ver o contributo de Poppy Ajudha num balanço garage, onde os graves são meticulosamente pensados e acomodados para a pista de dança. Contudo, apesar desta aura resplandecente, a própria equalização das músicas parece retirar algum protagonismo aos agudos. O mesmo acontece em “2 Far Gone”, onde o piano de Joe Armon-Jones, membro dos Ezra Collective e elemento central da nova linguagem jazz londrina, assume um papel importante no desenrolar da trama – com direito a solo sensivelmente a meio. O prato de choque rasga a melodia e garante esse brilho mas é no grave que as energias se concentram, à imagem de “Stanger Than Fiction”, o tema de abertura em toada grime que pede emprestada a tuba de Theon Cross.

Dark Matter está longe de ser um álbum tradicional carregado de padrões e improvisação ou sequer um projecto em que se sentam vários músicos numa sala para compor ou trocar ideias. É um trabalho construído de um ponto de vista individual, com o seu autor a assumir as diversas etapas de composição e produção, onde primorosamente se cruzam as facetas acústicas e electrónicas. O resultado final não tem apenas características pessoais e intransmissíveis como também deixa uma fenda para que as suas vivências e ideias se infiltrem, das bases jazz que adquiriu na sua caminhada à forma como olha para as políticas do Reino Unido. À imagem do chef do restaurante de sushi citado na conversa com o Loud And Quiet, também Moses Boyd se muniu da mais importante matéria-prima para esta negra matéria. E que bem sucedido foi.