Está a ser um início de ano bastante movimentado para a EA Wave. Além de terem editado em conjunto o single “See the Sun”, uma homenagem ao astro-rei com o contributo do artista de synth pop sueco Pikes, o colectivo queniano conta já com vários lançamentos a nível individual. Jinku, um dos elementos mais activos, arrancou o ano com “The Enchanter” e mostra agora “Little Wing”, canção na qual se emparelha com Sera.fina & The Paper Dolls, o alter ego de Geraldine Hepp, artista folk e facilitadadora cultural alemã.

Em conversa com a Ritmoterapia, Jinku explica como surgiu esta conexão. “Geraldine Hepp é uma amiga muito próxima, apoiou-me no arranque da minha jornada musical, marcando-me os primeiros concertos e proporcionando-me várias oportunidades. Sempre soubemos que éramos ambos bastante musicais, mas havíamos separado as nossas intenções artísticas. Ela deu um concerto fantástico num espaço chamado Dagoz, onde serviu incríveis versões de Bob Dylan. O que eu vi foi alguém a incorporar as histórias de outra pessoa com enorme veneração. Queria ouvi-la a cantar da mesma forma mas com as suas próprias histórias. Foi assim que tudo começou”, explica.

O tema cruza elementos de electrónica fragmentada com a faceta acústica da voz de Sera.fina, concedendo-lhe por vezes um lado introspectivo e meditativo. “Eu sempre fui um fã de downtempo”, confessa. “Acho que agora ainda mais, pois sinto que estou mais confiante em lidar com o conteúdo emocional mais profundo”. Além do downtempo, Jinku explora ainda os universos afrohouse, 808 (alcançado com recurso a bombos secos e possantes) e tribal, através da injecção de apontamentos de percussão tradicional africana. “Eles todos integram o mesmo universo, da mesma forma que existem muitas culturas no mundo, a viver num só planeta. Eu vejo a música como um organismo que partilha a mesma vida que o nosso planeta. Como a cultura, também os géneros musicais se conseguem influenciar uns aos outros”. No seu processo de criação, alterna entre a instrumentação real e o uso de samples. “Intercalo tudo de forma a criar um híbrido”, diz.

Em 2015, Jinku editou Amadeyo EP, um mergulho no potencial da África Oriental que lançou o convite a nomes como Charles Bodo, Valentine Ziki, Joseph Kiwango e Checkmate Mido, bem como ao seu companheiro da EA Wave, Nu Fvnk. O título do álbum é uma adaptação do segundo nome do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart e representa a vontade de Jinku fazer em África aquilo que o homem de “Don Giovanni” fez na Europa e no mundo, salvaguardadas as devidas distâncias. Em 2018, revelou State of Emergency, um belíssimo EP dividido a meias com NAMVULA, artista que reparte as suas origens entre a Escócia e a Zâmbia, com a qual Jinku promete voltar a trabalhar no futuro. “Já a coloquei em mente para o meu álbum, pois terá uma sonoridade que lhe vai encaixar que nem uma luva”, revela. Quando ao novo disco, a única coisa que adianta é que já existe uma ideia e um conceito. “Embora a jornada para chegar lá seja o que eu estou a abraçar a nível sónico, há vários projectos e lançamentos que manterão as pessoas empolgadas com a jornada e não com o destino”, acrescenta.

No que toca particularmente à EA Wave, Jinku garante: “vai ser um ano com muita coisa a acontecer, temos singles fortes alinhados, EPs em colaboração com outros artistas e álbuns a solo dos demais membros do grupo. Vai ser incrível”, certifica, indicando que está nos planos do colectivo uma digressão além fronteiras e que Portugal estará obrigatoriamente nessa rota.

A COVID-19 espalhou-se pelo mundo e África não é obviamente excepção à regra. “Estamos definitivamente nisto juntos”, sublinha o músico. “A vida nocturna chegou a um ponto estridente, há por isso uma série de freelancers e outras pessoas ligadas à noite a sofrer com a crise. Há muita gente em isolamento, acho que mais do que nunca o conteúdo online vai ganhar especial importância”, remata.