Kassa Overall | I Think I’m Good

A música sempre foi — e continuará a ser — uma importante âncora para os tempos difíceis, sejam eles de crise pandémica e distanciamento social como o que estamos a viver agora, estejam eles ligados aos problemas que em situações normais nos atormentam o dia-a-dia, dos dramas familiares aos desentendimentos profissionais e da perversa dinâmica da sociedade aos fantasmas que aterrorizam o pensamento. Em qualquer que seja o caso, a música tende a ter funções terapêuticas, equilibrando o nosso estado de espírito ou servindo simplesmente de fiel companheira. I Think I’m Good, o segundo registo de longa-duração de Kassa Overall, editado pela Brownswood Recordings, é um excelente exemplo de como esta arte consegue ser ao mesmo tempo medicinal e apaziguadora.

Oriundo de Brooklyn, Kassa Overall é um baterista jazz e produtor que concluiu os estudos no Oberlin Conservatory of Music, em 2006. Foi nesse estabelecimento de ensino que sofreu severos episódios maníacos, que o levaram a ser hospitalizado e submetido a tratamentos médicos. Desde então, tem monitorizado os seus altos e baixos. Na música, mais concretamente na composição, encontrou um escape, não só para si, como forma de compreender a sua mente e atenuar essas manifestações, mas também para falar abertamente disso ao mundo e enfrentar o preconceito e a incompreensão que se gera sempre que o tópico é trazido socialmente à baila. “Instabilidade mental e hiper-sensibilidade era para mim um assunto tabu”, relembra o músico na sua página de Bandcamp. “Quero mostrar ao mundo que as pessoas mentalmente sensíveis são inovadoras na nossa sociedade e estabelecer um novo padrão que inclua um estilo de vida saudável e que abrace a nossa perspectiva única da realidade”.

I Think I’m Good, que sucede a Go Get Ice Cream and Listen to Jazz, editado em 2019, tem naturalmente essa temática como epicentro. E mesmo quando temas como a radioheadesca “Show Me a Prison” se debruçam sobre o sistema prisional norte-americano, fica sempre no ar a ideia de que o encarceramento do qual está a falar é, no fundo, o seu, aquele em que vive desde que foi identificada a sua patologia, esteja este acorrentar ligado aos sucessivos tratamentos ou às deslocações às instituições especializadas – “durante dez dias, ia duas vezes por dia ao hospital”, revela em conversa com o site American Songwriter. “Eu sei que não é como ir para a cadeia, por assim dizer, mas também sinto que estou preso neste lugar, que não posso sair e não tenho poder. Eu acho que essa experiência me conecta a quem lida com essa situação”.

Outro exemplo é o de “Visible Walls”, canção que faz, numa suave cama de teclas (Courtney Bryan), harpa (Brandee Younger) e flauta (Jay Gandhi), a abertura do disco. A temática volta a centrar-se nas prisões (“I hope they let me go tonight, I wait awake / I hope that you can sleep tonight, another day”, canta Overall ao longo dos três hipnóticos minutos), mas leva-nos involuntariamente até ao interior de outras grades, criadas pela própria mente, num igual sentimento de claustrofobia. Na mesma linha de pensamento está “Darkness in Mind”, uma releitura de “Prelude No. 4” de Chopin que arranca precisamente com o refrão “The wise man and the fool / Side by side, which one is you? / The fool I played once before / That was then and this is new“. Com Sullivan Fortner no piano, Overall percorre os labirintos da sua complexa mente, levantando e respondendo a pertinentes questões. 

Estamos perante um álbum que viaja até ao âmago do autor, expondo as suas fraquezas e ao mesmo tempo a solidez com a qual encara a realidade, como Soprano fez no seu incrível Puisquil Faut Vivre ou como Dave propôs, num conceito algo semelhante, em PSYCHODRAMA. São contextos pessoais que salpicam aqui e ali temáticas de carácter geral, com especial incidência no sistema prisional norte-americano. “Show Me A Prison”, voltamos a ela novamente, é uma reimaginação de “There But for Fortune”, uma canção de protesto popularizada por Joan Baez. No final da música é possível encontrar ainda a voz da activista pelos direitos civis Angela Davis. “Hey Kassa, Angela here. You good? I just wanted you to know that we are totally supporting you. Stay strong, my brother”, reconforta numa comunicação que simula uma chamada em contexto prisional.

Em I Think I’m Good, o artista nova-iorquino divide tarefas entre a instrumentação (a bateria, na qual se especializou), produção (uma fusão entre jazz e hip hop) e vocalização (por vezes em registo spoken word, outras vezes cantadas com recurso a auto-tune). No que toca à construção musical, Kassa considera-se um backpack jazz producer, ou seja, o tipo de artista que leva o equipamento para onde quer que vá, despegando-se do conceito de estúdio fixo construído em grandes salas insonorizadas ou até em setup caseiro. Num vídeo publicado pela estação de rádio e televisão OPB, no passado dia 27 de Março, é possível ver Kassa Overall a desempacotar uma série de máquinas (computador, placa de som, pads e controladores midi) numa carruagem que rasga quilómetros de paisagem. “Para mim, é uma forma nómada de fazer música”, explica. Mais do que um método, este parece ser mesmo um estilo de vida para o produtor. Sair de casa, visitar companheiros de profissão e gravar canções, numa perspectiva de partilha e interajuda, recolhendo informação aqui e ali para trabalhar à posteriori com recurso ao sampling.

O álbum é por isso uma cuidada e assumida manta de retalhos onde tão depressa se vislumbram recortes pessoais como rapidamente interceptamos estas colaborações que garantem ao produto final uma dimensão, digamos, de banda – apesar de não o ser, claro. Em “I Know You See Me”, coadjuvado por J. Hoard e Melanie Charles, o músico arruma o material de forma exemplar e garante-lhe um balanço trip hop, evocando o trabalho de nomes como Massive Attack ou Tricky. Mais à frente, em “Landline”, que pede emprestado o saxofone do seu irmão Carlos numa epopeia free jazz, o produtor regressa ao passado e descreve os desenhos animados que viam juntos enquanto comiam ovos fritos com mel. A letra, contudo, mistura-se rapidamente com os estranhos sonhos que Overall teve na adolescência. Um cruzamento de boas memórias com outras com as quais ainda hoje se deverá sentir assombrado. I Think I’m Good é um álbum intenso e muito bem executado, um dos melhores deste primeiro trimestre de 2020.

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