Shabaka and the Ancestors | We Are Sent Here by History

Se We Are Sent Here By History tivesse sido escrito no presente ano, dir-se-ia que se trata de uma alegoria à crise pandémica que varre o mundo de ponta-a-ponta. A mensagem em tom de “andámos muitos anos a cometer asneiras e a desrespeitar o que nos rodeia e agora vamos pagar caro a conta do nosso comportamento” encaixaria que nem uma luva na ideia e na teoria – sem fundamento científico, como é óbvio – de que o coronavírus é uma resposta do Planeta Terra ao desrespeito com que tem sido tratado. E isso estender-se-á, naturalmente, à relação que nós, seres humanos, nutrimos uns com os outros. O álbum, editado pela Impulse!, aborda questões como a destruição da espécie e o incendiar de valores como a ignorância, capitalismo e, no final de contas, egoísmo.

Em Janeiro, Shabaka Hutchings recorria às redes sociais para apresentar o disco e informar que este era “uma meditação sobre a aproximação da nossa extinção enquanto espécie. Um reflexo das ruínas, da destruição. Uma interrogação sobre os passos a dar na preparação da nossa transição individual e social para que o fim não seja visto como uma derrota trágica. Pelas vidas perdidas e as culturas desmanteladas por séculos de expansão ocidental, as mentalidades capitalistas e a supremacia branca há muito são anunciadas como uma personificação de um purgatório vivo. Agora que a aniquilação do sistema foi colocada em prática pelo próprio Planeta Terra a questão colocada é o que deve ser colocado no altar sacrificial”.

É um pouco este o sentimento que envolve We Are Sent Here By History, segundo disco do colectivo Shabaka and the Ancestors (a estreia, Wisdom of Elders, saiu em 2016), apesar de não estar evidentemente ligado ao paradigma actual da COVID-19. Terminado em 2019, o álbum convida a uma reflexão sobre o nosso papel enquanto sociedade e a nossa relação com os restantes seres que habitam a biosfera, sejam eles dotados de sapiência ou não. Temáticas como o racismo, colonialismo e misoginia ganham destaque no caderno de abordagens do colectivo, venham elas expressas na voz de Siyabonga Mthembu ou nas linhas de saxofone de Shabaka Hutchings (tenor) e Mthunzi Mvubu (alto). “We Will Work (On Redefining Manhood)”, que ocupa a recta final da escuta, é precisamente uma reflexão sobre as origens do preconceito em relação às mulheres, enquanto “Teach Me How To Be Vulnerable”, a derradeira, soa a libertação de um envelhecido conjunto de dogmas masculinos.

Os Shabaka & the Ancestors, que contam ainda com Tumi Mogorosi (bateria), Gontse Makhene (percussão), Ariel Zamonsky (contrabaixo), exploram a função do griot na cultura ocidental Africana – indivíduo que tem como vocação preservar e transmitir as histórias, conhecimentos, canções e mitos do seu povo. Essa tradição mistura-se com o papel do calipso, um estilo diferente de griot, na cultura afro-caribenha – este tece letras de consciência social em músicas animadas, alcançando mais pessoas devido à sua natureza festiva. Há aqui um carácter transatlântico que pesa bastante no resultado final. Hutchings é de origem britânica mas viveu uma boa parte da sua vida nos Barbados, onde terá assimilado uma boa parte da cultura das Caraíbas; os seus Ancestors enraizam-se na África do Sul, tendo como vivência prévia o trabalho com a banda Amandla Freedom Ensemble.

We Are Sent Here By History, gravado na Cidade do Cabo e Joanesburgo, evoca um imaginário espiritual e pós-apocalíptico, quase como se o futuro entrasse em contacto com o presente para nos deixar uma importante mensagem: agora que se deu o colapso das instituições que julgávamos perenes, chega a hora de pensarmos sobre o que andamos cá a fazer e reconstruir tudo com base nos nossos erros. Esta ideia, cozinhada nos fornos de um país que sofreu indescritíveis horrores no contexto do Apartheid, não esconde uma clara aura de afrofuturismo e interliga-se obviamente com o trabalho de Sun Ra, um dos maiores articuladores de sempre deste movimento multidisciplinar. As percussões e os cânticos em toada de ritual apelam a um cenário ancestral e fundem-se com a energia futurista anti-babilónica. Ou seja, não se trata de regressar ao passado para um mundo sem instituições mas sim viver um futuro sem a presença destas, depois de uma reconstrução – assumindo que não está prevista a extinção da espécie.

Os títulos das músicas soam quase a capítulos de uma série televisiva – Dark é a primeira que assalta o pensamento – onde o passado, presente e futuro se unem num só momentum, com uma sublinhada subordinação entre acção e reacção. “Run, The Darkness Will Pass”, na sua odisseia de clarinete, e “Go My Heart, Go To Heaven”, onde conversam saxofones e voz, são duas dessas sugestões. “’Til The Freedom Comes Home”, que abre com um viciante balanço de contrabaixo, evoca o espírito do imperador etíope Haile Selassie, figura central do movimento rastafári, uma doutrina que defende o regresso à Terra Prometida, África, pregada pelo sindicalista jamaicano Marcus Garvey, com base no Velho Testamento. África volta a desempenhar um papel central na trama, desta feita resguardada por um cenário religioso e profético. “You’ve Been Called”, o segundo tema do disco, depois de uma abertura de 10 minutos ao som da sugestiva “They Who Must Die”, recorre a uma letra, entregue por Mthembu, que muito facilmente seria utilizada em contexto reggae (uma das principais vozes do rastafarianismo): “We are sent here by history/The lighter gave fire, and was present at the burning/The burning of the republic/Burnt the names, burnt the records, burnt the archive, burnt the bills, burnt the mortgage, burnt the student loans, burnt the life insurance/An act of destruction became creation.”

Shabaka Hutchings é uma espécie de saxofinista todo-o-terreno no universo jazz. Com os seus The Comet is Coming, trio que partilha com Danalogue e Betamax, liga-se a um universo electrónico que tão depressa abraça a energia rock como se fecha dentro das quatro paredes de um clube nocturno. Em Sons of Kemet, dividido com Theon Cross, Tom Skinner e Eddie Nick, procura estimular o corpo através de uma forte componente rítmica que por diversas vezes se auxilia das cadências que se podem encontrar do outro lado do Atlântico. Shabaka and the Ancestors é, possivelmente, o único destes três projectos que se centra exclusivamente na reflexão e na introspecção, obrigando-nos a colocar o corpo em stand-by (ainda que os ritmos africanos nos obriguem sempre a mexer a anca) e a libertar espaço para a mente olhar em redor e ponderar sobre as acções do nosso dia-a-dia, como forma de evitar um cenário apocalíptico. Eles tiveram o trabalho de viajar até ao futuro e explicar-nos o que nos espera. Aprendamos com isso.

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