Thundercat | It Is What It Is

Há episódios da nossa vida que se revelam verdadeiros pontos de viragem na forma como nos comportamos no quotidiano e que servem de incentivo para colocarmos na balança das prioridades o que é essencial e o que é secundário. Foi precisamente isso que aconteceu quando Thundercat soube da notícia da morte do seu amigo chegado Mac Miller, vítima de overdose acidental a 7 de Setembro de 2018. De um momento para o outro, o baixista e compositor abandonou por completo o consumo de álcool e rendeu-se a uma alimentação saudável para preservação de corpo e mente. O malogrado episódio com o rapper com o qual chegou a partilhar palco e estúdio (Thundercat toca e canta em Swimming, álbum de Agosto de 2018) foi uma espécie de chamada de atenção para a vida que levava.

Em Fevereiro de 2017, Thundercat editou Drunk, uma obra prima que invadiu a esmagadora maioria das listas de Melhores do Ano e onde é possível encontrar a participação de notáveis como Pharrell Williams, Wiz Khalifa e Kendrick Lamar. “O álbum é como uma observação”, disse o músico em conversa recente com a Vulture. “Era sobre o que eu sentia relativamente ao álcool, o que significava para mim. Tive os meus altos e baixos, como toda a gente, mas, na maior parte do tempo, o álcool para mim era diversão. Serve esse propósito. Transforma-te numa pessoa diferente”. Há aqui uma faceta de celebração e quase veneração a um hábito, mas igualmente um lado de reflexão, colocando em perspectiva a falsa metamorfose de um ser mergulhado numa substância que altera postura e comportamento – a capa do disco vai precisamente ao encontro desse “afogamento”.

Com os mais recentes acontecimentos na vida de Thundercat, seria de prever que It Is What It Is, o mais recente álbum, encarasse um lado mais introspectivo e de reflexão, colocando as entranhas sobre a mesa. Por um lado, a dor de ter perdido alguém que lhe era muito chegado e com quem partilhou momentos únicos e sagrados – em entrevista para a NPR, Thundercat recorda o episódio em que Mac Miller lhe ligou a pedir encarecidamente que participasse no seu episódio do Tiny Desk Concerts; o baixista, em plena digressão na Europa, cancelou um par de concertos para poder marcar presença num momento tão importante para o amigo. Por outro, toda a espiral depressiva provocada pelo abandono do consumo regular de bebidas alcoólicas. It Is What It Is acaba por abordar todas estas temáticas mas à maneira de Thundercat, de sorriso na cara e deixando o humor tomar conta da situação.

“Black Qualls” é um bom ponto de partida. O single, que pede ajuda a Steve Arrington (lenda viva do funk), Steve Lacey (guitarrista dos The Internet) e Childish Gambino (o alter ego de Donald Glover), versa sobre ultrapassar a paranóia e nunca mais viver com medo. “I just bought a crib on top of the hill/ And I bought a brand new ride, am I keepin’ it real? / There’s nothin’ wrong if you got it / I’m not livin’ in fear, I’m just bein’ honest” canta o músico no primeiro verso numa clara declaração de intenções. Mais à frente, perspectiva a internet não só enquanto altar onde se sacrificam almas mas também enquanto janela escancarada para a nossa própria vida. “Just moved out the hood, doesn’t mean I’m doin’ it good / Wanna post this on the ‘Gram, but don’t think I should / Is it just for me or am I paranoid? / Gotta keep it on the low ‘cause I been robbed before”. As perguntas e respostas aterram-nos no ouvido envoltas em groove e boa disposição.

O mesmo acontece com “Dragonball Durag”, canção onde evoca uma das suas séries televisivas favoritas, o Dragon Ball, e cujo respectivo vídeo mostra o músico a utilizar os seus poderes durag para espalhar charme a Kali Uchis, às irmãs Haim e à comediante Quinta Brunson, sem grande sucesso. Em comunicado aquando do lançamento do single, Stephen Bruner informou: “existem dois tipos de pessoas no mundo, aquelas que têm o durag e aquelas que não sabem o que é o durag. O durag é um superpoder que activa o teu swag. Ele mexe contigo, transforma-te”. Na mesma altura em que perdeu o seu amigo, Thundercat sofreu também um desgosto de amor. “A pessoa que eu amava deixou-me no espaço de meses”, conta ao The Guardian. “Na minha cabeça, estava à beira do casamento. E partiu-me o coração”. “Dragonball Durag” é uma alegre forma de dar a volta por cima.

A esses momentos de sorriso estampado na cara juntam-se outros de maior serenidade, como é o caso de “Fair Chance”, dedicatória a Mac Miller onde participam Ty Dolla $ign e Lil B. Nesta que é uma espécie de balada R&B polvilhada com os versos dos dois rappers, Thundercat canta no refrão as palavras “I’ll keep holdin’ you down / Even though you’re not around” e remata com um doloroso “it is what it is”, frase que dá título ao disco e que nos coloca igualmente perante uma dolorosa realidade: as coisas são como têm que ser, sem volta a dar e sem que possamos mudar o passado. O anfitrião chega a essa conclusão numa canção de balanço lento onde deixa a sua voz em falsete e as notas do baixo entrelaçarem-se num gesto de saudade.

Há também momentos de pura técnica e destreza – quem tenha assistido ao concerto de Thundercat no NOS Primavera Sound, em Junho de 2018, terá certamente a noção do quão veloz e detalhado este consegue ser nas cordas. Em “I Love Louis Cole”, o músico emparelha-se com o baterista Louis Cole (pois claro) para uma vertiginosa corrida rítmica. Junto à linha de partida, uma bateria que não fica nada a dever ao talento de monstros com Joey Jordison ou Dave Lombardo – dois monstros do vigor e rapidez, ambos oriundos de um universo de matéria pesada. Logo ao lado, as notas graves de alguém que já tocou com bandas com os Suicidal Tendencies, onde a velocidade se evidencia também ela importante. O circuito faz-se em perfeita sintonia e secundado por voz e teclas.

São vários os timbres e texturas que Thundercat consegue sacar do seu baixo, concedendo-lhe vida própria. Em “Miguel’s Happy Dance”, dá voz ao instrumento, deixando-o contar a sua própria história. “How Sway”, logo de seguida, soa a fuga desenfreada, como se de uma cena de perseguição policial se tratasse. “Interstellar Love”, onde entram Kamasi Washington e Flying Lotus (o músico e amigo é co-produtor do disco), espalha frequências graves no cosmos; “Funny Thing” apela à dança; “How I Feel” relembra um harpejo de sintetizador; “It Is What It Is”, a derradeira do álbum, pede ao baixo uma carga dramática naquela que não só é a despedida dos 37 minutos de escuta mas um olá a Mac Miller, ouvindo-se a voz do rapper a ecoar sensivelmente a meio. 

Em It Is What It Is, Thundercat mostra-nos que o humor também é uma forma de combatermos as nossas tristezas e incertezas, as dores e desgostos, procurando sempre um rasgo de esperança e luz ao invés do mergulho na escuridão. Há palavras fortes mas há linhas de baixo que falam por dezenas de parágrafos. É o que é. É o que tem de ser.

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