Por vezes, para que nos seja possível perseguir os nossos sonhos musicais, é necessário derrubar algumas barreiras sociais e mentais, erguidas pelo preconceito relativamente a outros povos e culturas. Tenderlonious experienciou isso na pele quando decidiu fazer as malas e viajar para o Paquistão como forma de se conectar artisticamente com os Jaubi, banda sediada na cidade de Lahore. No exacto momento em que chegou a casa e partilhou a ideia com o seu seio familiar, depois de uma noite de copos que terá acendido o interruptor certo nesse sentido, foi imediatamente alertado para os perigos do terrorismo, raptos e doenças tropicais daquele país.

Ed Cawthorne alimentava esta vontade há algum tempo, impulsionado pelos trabalhos de John Coltrane e Yusef Lateef, os quais se inspiraram no espiritualismo oriental e na profunda tradição da música tradicional indiana. O músico londrino, membro dos Ruby Rushton, encontrou na flauta e no saxofone soprano um lugar de paz e harmonia, articulando livremente os dois instrumentos nos compromissos a solo ou com banda. Travou os primeiros contactos com a cultura oriental através do seu pai, destacado como oficial Gurkha (soldados nepaleses recrutados pelo exército britânico), porém, o principal estímulo aconteceu quando ouviu pela primeira vez o tema “Raga Mangal Bhairav” do artista indiano Ronu Majumdar. Soube que esta seria uma estrada a explorar.

 

Não obstante os avisos por parte da família, Tenderlonious deu seguimento aos seus planos e entrou em contacto com a embaixada paquistanesa que lhe rejeitou o visa duas vezes. O projecto esteve em vias de não se realizar, mas, como nos diz “Pedra Filosofal”, fantástico poema de António Gedeão transformado em canção por Manuel Freire, “o sonho comanda a vida”. No dia 9 de Abril de 2019, o músico aterrava em Lahore para se encontrar com o colectivo paquistanês. Aquilo que começou como uma aventura musical, ganhou rapidamente os contornos de batalha pelo desmembramento de conceitos culturais errados.

“Lahore tem algo de especial”, partilha o músico em comunicado. “Cheia de positivismo, cuidado e esperança. Contrastou, felizmente, com a negatividade que ouvi sobre o Paquistão antes de chegar. Não demorou muito para começarmos a primeira sessão de estúdio e percebemos que essa viagem seria um verdadeiro despertar. Não anotámos nada durante as sessões de gravação – nem partituras, nem títulos de músicas. Foi sincero. Todos os egos foram deixados para trás e derramámos os nossos corações e almas na música”, recorda.

tender in lahore

“Impressions” é o primeiro tema do trabalho a ser revelado e assemelha-se à canção de Ronu Majumbar que incitou Tenderlonious. “A escala torna-se no quadro musical para improvisações ricas”, continua o comunicado. Acompanham-o Zohaib Hassan Khan, tocador de um instrumento de cordas chamado sarangi (o músico é um maestro de sétima geração e um dos únicos 5 instrumentistas profissionais de sarangi que restam no Paquistão), e Kashif Ali Dhani, que providencia um cenário deslumbrante na tabla (instrumento de percussão), movendo-se dentro e fora de complexos padrões rítmicos. “Kirwani” e “Shalamar Gardens” são as duas músicas que faltam conhecer desta amostra que serve de pequeno aperitivo das sessões gravadas nos Riot Studios, em Lahore. Os verdadeiros frutos da conexão serão revelados num novo álbum dos Jaubi intitulado Nafs At Peace, que será editado no final deste ano pela Astigmatic Records.