Animais e sintetizadores: um dueto improvável e ao mesmo tempo fascinante

Num dos vídeos vemos uma baleia a mergulhar acompanhada de um conjunto de acordes que evoca um ideal de mistério e aventura, relembrando de certa forma a banda sonora da série Stranger Things. O bloco de som densifica-se ao mesmo tempo que o gigantesco cetáceo desaparece no azul escuro das águas. Logo ao lado, um casal de pandas namora na companhia de uma batida de alegria e esperança. O texto na descrição explica: “agora que o zoo de Hong Kong está fechado, os pandas conseguiram finalmente acasalar, depois de não estarem de grande humor nos últimos 10 anos”.

Mais atrás no tempo, uma cobra esconde-se na areia num vaivém de ondas sonoras moduladas, encaixando na perfeição com o que se vê diante dos olhos. O mesmo acontece com a locomoção da centopeia e a deslocação algo indecisa da aranha. Os sons vão ao encontro das imagens de tal forma que parecem estar intrinsecamente ligados a esta fauna do futuro, quiçá alienígena. No fundo do mar, uma alforreca move-se na cadência do sintetizador. Ainda nas profundezas, um cardume dança num turbilhão que é milimetricamente acompanhado por sonoridades que sugerem uma força giratória, quase centrípeta. Num solo arenoso, um camaleão caminha como se fosse uma sonda à descoberta de um novo planeta.

Tudo isto poderá ser encontrado em Animals and Synthesizers, uma página de Instagram que, como o próprio nome indica, visa cruzar pequenos clipes do reino animal com sons de sintetizadores. O autor é Tomer Baruch, um compositor de bandas sonoras que utiliza o Animals and Synthesizers como projecto secundário. A página conta com mais de 40 mil seguidores e cada publicação faz-se acompanhar de dezenas de milhares de visualizações e uma generosa colecção de gostos e comentários. Acreditem, vale mesmo a pena gastarem um pouco do vosso tempo a explorar este maravilhoso cantinho da internet.

Como grande parte dos projectos deste género, Animals and Synthesizers começou com uma experiência singular. Baruch – que enquanto miúdo fez parte da “demoscene”, uma rede global que cria excertos de vídeo baseados em códigos que incorporam recursos visuais, algoritmos e música – deparou-se com um vídeo da National Geographic que continha uma espécie de lagarta amarela brilhante a rastejar nas costas de um lagarto laranja. “Toda aquela cena pareceu de tal forma surreal e não mundana que eu pensei em pontuá-la para completar a sensação de ficção científica que merecia”, afirma o artista em entrevista para o blogue da Native Instruments. Fê-lo no espaço de horas e publicou na sua conta pessoal. O resultado foi de tal forma bem recebido que originou a criação de mais vídeos dentro do género e, posteriormente, a conta que hoje se conhece.

É através do próprio Instagram que lhe chegam a maioria dos vídeos que utiliza. Baruch segue uma série de contas relacionadas com animais bem como os respectivos hashtags, o que leva a que o conteúdo apareça directamente no seu feed. Há uma parte dos vídeos que encontra através de outras plataformas, tais como o Facebook, e há ainda material que lhe é enviado por outros utilizadores, certamente cientes que esta é a matéria-prima fundamental para o seu trabalho. Os vídeos que considera mais relevantes são descarregados para o disco rígido para serem à posteriori testados no filtro da inspiração. “Eu só começo a trabalhar num vídeo quando tenho a clara noção daquilo que quero fazer”, continua. “Não quer dizer que tenha a exacta sonoridade em mente mas tenho o tema geral, a estrutura ou a relação entre o movimento e o som. E depois jogo em torno disso até que fique certo”.

No processo de criação, Tomer Baruch usa o Reaper como DAW (Digital Audio Workstation) e socorre-se de pequenos sintetizadores analógicos como o Moog Sirin, Korg Monologue, Korg Volca Keys e uma série de teclados da Casio; bem como de sintetizadores em software, como o Massive, Monark, TAL-U-No-LX, Dexed e, em situações mais complexas, o SuperCollider. “Tenho um pequeno estúdio com tudo o que preciso mas tendo a fazer muitos destes vídeos quando estou a viajar e nesse caso tenho apenas o meu computador e os auscultadores, daí os sintetizadores em software serem muito úteis”, informa.

Baruch abre as portas do seu atelier digital num vídeo no Youtube que explica todo o processo de construção do clipe de uma traça a bater as asas, recorrendo ao Massive da Native Instruments. “Tentei criar uma transformação de som interessante que acompanhasse o movimento das asas, algo mais complexo do que um simples abrir e fechar de filtro”, explica. “Para tal, utilizei a opção macro do programa, que permite atribuir um parâmetro para vários atributos do sintetizador, cada qual com um diferente montante e escala e com uma direcção diferente; significa que cada mudança de parâmetro pode afectar a sonoridade do sintetizador de forma contraditória e assim criar um som que não soe familiar ao ouvido”.

Obviamente deslumbrado pelos documentários da BBC, especialmente o Blue Planet II, do qual chegou a extrair um excerto para criar um dos seus clipes, Baruch tem como sonho vir um dia a trabalhar com David Attenborough, nome incontornável da vida animal. Na calha está um EP audiovisual que terá versões alargadas de algumas das publicações da página Animals and Synthesizers. “Está a demorar um pouco mais do que aquilo que estava à espera, mas tenho a esperança que saia este verão”, promete. Não percam a oportunidade de visitar esta página, a sério.

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