Adeus, lenda

Tinha um concerto marcado com Jeff Mills em Portugal, inserido no cartaz da edição deste ano do Lisb-On Jardim Sonoro, que até indicação em contrário se realizará nos dias 4, 5 e 6 de Setembro, e havia colaborado recentemente com os Carapaus Afrobeat em “Do Allen / Diabo Na Terra”, tema tornado público no final do ano passado e onde entram Boss AC e o igualmente lendário Oghene Kologbo. No início do ano, editara o trabalho Rejoice, em parceria com trompetista sul-africano Hugh Masekela. Tony Allen abandonou-nos numa altura de clara actividade artística, quando o presente ainda era uma certeza e o futuro uma ambição. O baterista nigeriano faleceu em Paris, aos 79 anos, vítima de um aneurisma de aorta abdominal.

Nascido em Lagos em 1940, Tony Allen aprendeu a tocar bateria sozinho aos 18 anos, inspirado pelo trabalho de nomes como Art Blakey e Max Roach, dois monstros do universo jazz. Em meados dos anos 60 conhece Fela Kuti, com o qual edita uma invejável colecção de álbuns – entre eles Zombie, de 1976, e Gentleman, de 1973 – enquanto tripulante da ritmada composição Africa ’70, banda da qual fez parte até 1979, altura em que abandonou o barco por divergências artísticas.

Falecido em 1997, Fela Anikulapo Ransome Kuti é universalmente creditado como o criador do afrobeat, género que combina elementos do fuji e highlife com funk e jazz norte-americano. Contudo, Allen terá desempenhado um papel igualmente importante no desenvolvimento da faceta rítmica, que o diga o próprio Fela Kuti que chegou a afirmar que “sem Tony Allen não teria existido afrobeat”.

O groove era único. Brian Eno disse que este era “provavelmente o melhor baterista de sempre”, e isso não terá somente a ver com aspectos técnicos e a sua capacidade, dizia-se, de tocar quatro batidas diferentes com cada um dos seus membros. Allen tinha uma assinatura própria que viajava da alma até à extremidade dos braços e pernas, atacando o instrumento de percussão com uma personalidade única e uma fluidez quase lírica, ao ponto de as suas frases serem imediatamente reconhecidas pelos nossos ouvidos. Will Ross, antigo correspondente da BBC na Nigéria e aficcionado de afrobeat, partilhou: “há um bounce na bateria de Tony Allen que torna qualquer faixa em que tocou imediatamente reconhecível. Isso não quer dizer que tenha ficado parado. Ele estava sempre a aprender, criando novos relacionamentos musicais e evoluindo o seu som. A combinação de bombo, tarola e prato de choque tem um sabor único, seja na força motriz da banda de Fela Kuti na década de 70, no seu hipnótico álbum de 1999, Black Voices, ou a tocar ao vivo ao lado de Damon Albarn, com The Good, the Bad and the Queen”.

Foram várias as reacções no mundo da música, de Gilles Peterson a Angelique Kidjo, de Femi Kuti a Sean Lennon (filho de John Lennon e Yoko Ono), de Junius Paul aos Nu Guinea (os quais foram convidados a trabalhar em bases do músico nigeriano em Afrobeat Makers, Vol.3), de Femi Koleoso a Yussef Dayes e dos portugueses They Must Be Crazy aos Carapaus Afrobeat. Flea, que chegou a formar com Tony Allen e Damon Albarn o projecto Rocket Juice & The Moon, descreveu o trabalho com o baterista como algo celestial, partilhando que era e continuará a ser o seu herói. O rapper Biz Markie comparou o impacto do baterista na música popular à de Bo Diddley, uma figura importantíssima na transição dos blues para o rock ‘n’ roll. E acrescentou: “a influência de Tony Allen na música popular era anónima e discreta. É difícil encontrar uma banda tão influente como os Talking Heads, cujas melhores músicas envolviam riffs no ritmo de Fela – os quais eram em grande parte impulsionados pela imaginação, poder e capacidade atlética dessa bateria groove“, concluiu.

Connosco deixa um legado imensurável, não só no que diz respeito ao seu trabalho com os Africa ’70, mas também na sua caminhada a solo, que conta com um vasto número de álbuns e colaborações com outros artistas, nos mais variadíssimos quadrantes musicais – tome-se como exemplo o álbum Tomorrow Comes The Harvest, em parceria com Jeff Mills. Hoje, os Gorillaz partilharam “How Far”, um tema que homenageia o falecido baterista, no qual participa também o britânico Skepta. Paz à sua alma.

 

 

 

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