Eles tiraram o gira-discos de contexto e criaram diversas paisagens esculpidas pela mente

Tirar o gira-discos de contexto e utilizá-lo para além dos limites da simples reprodução de acetatos de vinil não é novidade nenhuma, principalmente se tivermos o universo hip hop e a técnica de scratch como ponto imediato de partida para esta análise. Desde os prematuros anos do hip hop, no final dos anos 70, que a turntable se tornou numa importante e versátil arma, quer na criação de loops para garantir a continuidade do break de bateria que injectava energia nos braços e pernas dos B-Boys (recorrendo a dois discos exactamente iguais e alternando cada canal na mesa de mistura depois deste ter sido “rebobinado”), quer na utilização do scratch como um apontamento ou até mesmo um solo por parte do DJ.

Contudo, ainda nos é possível recuar mais no tempo para encontrar momentos em que o aparelho fora utilizado como instrumento. Em 1939, John Cage criou Imaginary Landscape No.1, uma composição escrita para quatro instrumentos: dois gira-discos de velocidade variável, um piano de cauda e um cymbal chinês. O primeiro deck reproduz dois discos: ambos com frequências fixas. O respectivo músico tem a missão de alterar a velocidade do aparelho (entre as 33⅓ RPM e 78 RPM) para alterar a nota e, quando a pauta assim o pede, subir e baixar a agulha para ir ao encontro do padrão rítmico. No segundo deck é colocado um terceiro disco igualmente de frequência fixa. Também aqui o músico tem como responsabilidade de alterar a velocidade do aparelho (entre as 33⅓ RPM e 78 RPM) para alterar a nota. O percussionista toma conta do cymbal chinês, criando a dinâmica da composição. Por fim, o pianista desdobra-se em duas funções: varrer as notas graves com uma baqueta de gongo e colocar uma das mãos nas cordas do instrumento enquanto toca com a outra, numa técnica chamada mute. 

No livro Groove Music: The Art and Culture of the Hip-Hop DJ, Mark Katz conta-nos a história de Christian Marclay, que encontrou acidentalmente o looping enquanto estudante em Boston em 1978, quase em simultâneo com os DJs de hip hop. “Enquanto estava a andar para a escola numa estrada com muito trânsito no quarteirão a seguir ao meu apartamento, encontrei um disco no chão”, começa o autor por citar. “Os carros estavam a passar por cima dele. Era um disco do Batman, uma história para crianças com efeitos sonoros. Pedi emprestado um dos gira-discos da minha escola para ouvir. Estava muito estragado e saltitava, mas, por estar recheado de efeitos, fazia uns interessantes loops e sons. Sentei-me simplesmente a ouvir e fez-se luz naquele momento”. Marclay gostou tanto do que ouvira que passara a colocar adesivos nos seus discos para obrigar a agulha a saltar.

Foi também de forma acidental que Grand Wizard Theodore inventou o scratch. Com apenas 12 anos, o nova-iorquino estava a praticar no gira-discos em casa quando a sua mãe lhe pediu para baixar o volume. Ao invés de reduzir no potenciómetro, o rapaz parou o disco com a sua própria mão e deparou-se com o som que viria a transformar-se numa das principais técnicas dos DJs de hip hop. No dia 18 de Agosto de 1977, fez scratch em público pela primeira vez no clube Sparkle, utilizando uma cópia de “Bongo Rock” dos Incredible Bongo Band.

E com isto tudo chegamos a Imaginary Landscapes: The turntable as instrument, um mini documentário da Vinyl Factory que explora o gira-discos como instrumento. Pedindo emprestado o nome das séries de John Cage  – a par da obra de 1939, o compositor lançou-se a outros capítulos em 1942 (No. 2 e No. 3), 1951 (No. 4) e 1952 (No. 5) – o filme segue o trajecto de vários artistas que estão actualmente a desafiar as fronteiras do instrumento. Dos métodos lúdicos para criar músicas originais em loop para pistas de dança de Haroon Mirza e Graham Dunning, passando pela fusão do clássico e electrónico de Shiva Feshareki, pelo trabalho com múltiplos gira-discos de Janek Schaefer, pela experimentação de Maria Chavez e terminando no fascínio por dubplates de Marina Rosenfeld, todos estes artistas trabalham do sentido de fragmentar, reproduzir com múltiplas agulhas, construir vários “andares” de discos (como se fosse uma espécie torre) e conduzir o resultado final ao longo de processadores de efeito e outras máquina que permitem manipular, cortar e colar o som.

Uma das abordagens mais originais – e ao mesmo tempo bizarra – é a do projecto Vinyl, Terror & Horror, de Camilla Sørensen and Greta Christensen, que, através de esculturas, instalações e performances, evoca sentimentos de medo, fascínio e incerteza. Grande parte do modus operandi passa por fragmentar discos de vinil e colá-los numa peça única para construir paisagens sonoras, que muitas vezes lembram as das películas de filmes de terror. A desconstrução do gira-discos e a reorgonização da informação de todas as formas possíveis é uma parte essencial da sua prática artística. As obras são ao mesmo tempo obscenas e atraentes, muitas vezes assumindo a forma de uma montagem de películas dos anos 60, combinadas com uma dramática iluminação e esculturas construídas com gira-discos, altifalantes e móveis de interior, como armários, cómodas e mesas.

Em comunicado, a dupla informa: “o som é frequentemente o ponto de partida para a experiência. Ele abre o espectáculo e apresenta-nos a narrativa absurda que questiona e distorce a nossa percepção da realidade. Recorrendo a efeitos teatrais, as obras contam histórias abstratas e brincam com o medo irracional. Os objetos familiares são levemente distorcidos e ganham formas novas e desconhecidas. As paisagens sonoras criam uma narrativa que, juntamente com os objetos, produzem uma experiência participativa para o público, que é convidado a entrar num espectáculo de terror escultural envolvente”. Um curioso e ao mesmo tempo sinistro mundo para descobrir.

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