Há quem lhes chame os “Beatles da electrónica” e não é caso para menos. A pegada musical deixada pelos Kraftwerk foi de tal forma marcante que ainda se sente nas expressões musicais mais contemporâneas. Quando ouvimos Bruno Mars a abrir “24K Magic” com recurso a um acentuado vocoder, sabemos que essa aproximação entre homem e máquina lhes é devida. Se seguirmos as raízes musicais dos Daft Punk até às profundezas da sua existência, descobrimos que grande parte dos sais minerais absorvidos provêm do imaginário electrónico criado por Florian Schneider e Ralf Hütter. No hip hop, a história repete-se. Se Afrika Bambaataa cita “Trans-Europe Express” na sua elementar “Planet Rock”, então os Kraftwerk podem reclamar a sua quota parte na fundação do hip hop, género do qual o líder dos Soulsonic Force é uma das mais importantes figuras – “Trans-Europe Express” seria também utilizado em “Under Pressure”, de Jay Z e Dr Dre.

Da electrónica à pop e do hip hop ao rock, principalmente aquele que se socorre de sintetizadores, os Krafwerk tornaram-se inegáveis pedras basilares, ao ponto de artistas como os Coldplay terem evocado o espólio do colectivo alemão – “Talk”, canção do álbum X&Y de 2005, recorre a uma melodia de “Computer Love”. Faz todo o sentido essa comparação frequentemente feita entre os Kraftwerk e os Beatles. A banda de John Lennon e Paul McCartney foi, muito provavelmente, a que maior marca deixou na cronologia musical. No que toca ao psicadelismo, que teve em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Magical Mystery Tour dois decisivos documentos, os Beatles terão sido os grandes motores de bandas contemporâneas como Tame Impala, King Gizzard & the Lizard Wizard ou Portugal the Man, citando apenas alguns exemplos. Quando se fala das fundações do hard rock ou do heavy metal, Led Zeppelin e Black Sabbath são imediatamente referenciados, contudo, em 1968, os Beatles haviam lançado “Helter Skelter”, uma das músicas mais relevantes para a definição dos géneros. Os exemplos estendem-se ao campo da pop, claro. Haverá banda mais marcante para este universo do que os Fab Four?

O mesmo sucede com os Kaftwerk. Longa é a lista de bandas, projectos, produtores e DJs que tiveram e continuam a ter os “robôs alemães” como referência, dos Depeche Mode aos New Order e dos The Chemical Brothers aos The Human League. Florian Schneider abandonou-nos aos 73 anos depois de ter perdido uma breve luta contra o cancro, mas a “autoestrada” que ajudou a pavimentar será eterna. Nas redes sociais, vários músicos prestaram a sua devida homenagem a um dos cérebros responsáveis por peças únicas como Autobahn (1974), Trans-Europe Express (1977) e The Man-Machine (1978). Os Orchestral Manoeuvres in the Dark partilharam o seu pesar. “Estamos absolutamente devastados por saber que faleceu um dos nossos heróis”. De igual forma os Future Islands, colectivo liderado por Samuel T. Herring. “Sem os Kraftwerk não existiriam os Art Lord & Self-Portraits, e consequentemente os Future Islands. Eles foram o cerne da nossa amizade e arranque musical. Queríamos ser como eles. E assim fomos”. Nick Rhodes, teclista dos Duran Duran, diz recordar-se de quando ouviu Autobahn pela primeira vez e de quão “diferente soava de tudo o que se ouvia na rádio”. Nina Kraviz deu também o seu parecer. “O que teria sido da música electrónica sem os Kraftwerk?”, questionou a DJ e produtora – de relembrar que o álbum Computer World desempenhou um papel importantíssimo nos meandros da house music e o techno de Chicago e Detroit.

Florian Schneider e Ralf Hütter conheceram-se enquanto estudantes no conservatório em Düsseldorf, mas rapidamente se revoltaram contra a música clássica. “Nós não queremos acabar a tocar Mozart e Beethoven na sala de concertos local”, chegou a dizer Hütter. “A questão é: ao que soa a Alemanha? Foi aí que começámos”, acrescentou. Juntos, os dois músicos fundariam os Kraftwerk em 1970. Editaram três álbuns antes de chegar a Autobahn, altura em que se transformaram em quarteto. O disco, muito rico em matéria de sintetizadores, seria o preâmbulo de uma sofisticação electrónica que desembocaria numa sagrada colecção de álbuns essenciais para a arquitectura da música pop dos anos que se seguiram. Descreveriam a sua música como industrielle volksmusik, termo que seria traduzido por David Bowie para “folk music of the factories”. O mesmo Bowie construiria o seu próprio tributo a Florian Schneider com o tema “V-2 Schneider”, presente no álbum Heroes (1977), inserido na sua era berlinense.

Nos seus primórdios musicais, Schneider tocou flauta, violino e guitarra mas o facto de não se sentir satisfeito com o som original dos instrumentos levou-o a passá-los por processos electrónicos. Com o avançar do tempo, interessou-se cada vez mais em tecnologia, focando-se na procura de novos sons e novas abordagens no processo de gravação. Com Hütter registou patentes para um kit de bateria electrónica e o processador vocal em tempo real Robovox, um estandarte do colectivo. “The Model”, canção de The Man-Machine, tornar-se-ia num dos maiores hits, a par de “The Robots”, que ganhou uma dimensão de hino não oficial. Em 2008, Schneider abandona os Kraftwerk e escolhe não participar em qualquer das reuniões. As razões que o levaram a sair mantiveram-se uma incógnita, com Hütter a informar em 2009 que o companheiro de longa data “já há muito que não estava verdadeiramente envolvido nos Kraftwerk”. Este capítulo continua um mistério, como muita coisa na vida de Schneider – o músico nunca revelara, quer em entrevista quer noutro tipo qualquer de declarações, pormenores sobre o seu lado privado.

O mesmo mistério acompanhou-o na hora da morte. Os rumores sobre o seu estado de saúde começaram a circular no final de Abril quando Wolfgang Flür, ex-membro do colectivo, publicou uma fotografia sua com Schneider num bar, sem qualquer explicação. Uma semana depois, Mark Reeder, músico britânico sediado na Alemanha, partilhou um breve elogio nas redes sociais. Alguém comentaria a publicação afirmando que o membro dos Kraftwerk já havia morrido há vários dias. Esta não era, contudo a primeira vez que tal informação circulava. Depois da saída dos Kraftwerk, o músico manteve-se tão discreto que os rumores da sua morte emergiram de imediato, sendo somente revelados erróneos quando este apareceu inesperadamente num evento de caridade em Paris no final de 2015, usando uma indumentária construída a partir de plástico reciclado, e estreou o tema “Stop Plastic Pollution”.

Desta vez, a notícia estava certa. Schneider partira há uma semana e fora sepultado em cerimónia privada. Continuaremos a ver o seu legado a repercutir na música de ontem, hoje e amanhã.