“What kind of music?”, ter-se-ão questionado Tom Misch e Yussef Dayes quando entraram em estúdio para iniciar aquilo que, em primeira instância, estava programado ser um simples exercício lúdico mas que acabaria espontaneamente por se transformar num álbum conjunto. Falamos de dois músicos de quadrantes muito diferentes. Dayes, um dos nomes mais referenciados no novo jazz, mestre da bateria e meio cérebro de Yussef Kamaal, projecto que divide com o teclista Kamaal Williams; Tom Misch numa inclinação mais pop, resplandecente, conhecido por já ter trabalhado com nomes como Loyle Carner, De La Soul e Michael Kiwanuka, tendo com este último editado o radiofónico single “Money”. Que tipo de música nasceria deste cruzamento?

Um pouco de tudo, na verdade. Editado no dia 24 de Abril, What Kinda Music tem tanto de pop como de jazz. E tem tanto de hip hop como de improvisação. Os géneros fluem livremente entre as suas próprias cancelas e misturam-se num suave vaivém de influências e vivências. Quando assumiram as suas posições nos instrumentos, Tom e Yussef deixaram que o momento e a inspiração ditassem o caminho a seguir, respondendo automaticamente à questão previamente levantada e encerrando também o capítulo das dúvidas geradas do lado do ouvinte. A disparidade de universos jogou a favor dos dois músicos e gerou um álbum plácido, fleumático, com bom gosto e onde tão depressa se sentem as frases orelhudas de Misch como a bateria mais técnica de Dayes.

A abertura do álbum faz-se ao som do tema-título, onde é possível ouvir o homem das baquetas a explorar vários timbres nos timbalões, construindo uma melodia com recurso a diversas tensões na peça de bateria. Entrelaça-se com o parágrafo quase psicadélico do instrumento de cordas e parte para um passeio envolto em batida seca e voz desnuda. Sente-se logo aqui o casamento perfeito entre dois importantes mundos: jazz e pop. “Yussef vem de um background mais experimental e traz uma série de ideias malucas”, revelou Tom Misch em comunicado. “Eu sei como escrever letras orelhudas com acordes interessantes e tenho um bom entendimento das formas populares das músicas”, acrescentou. Um certo cancelamento de forças que favorece o resultado final.

Tom Misch e Yussef Dayes conheceram-se na festa de lançamento de Geography  – disco de Tom Misch, editado em 2018 – mas os caminhos já se tinham cruzado há uma série de anos, quando o guitarrista assistiu à participação do baterista num concurso de talentos da escola, com apenas 9 anos. De um lado, a imaginação e o experimentalismo, que transmite às músicas um elevado grau de complexidade. “Os meus esboços são bastante longos, e as faixas também. Algumas têm sete ou oito minutos de duração”, explicou Dayes ao Hypebeast. Do outro, a capacidade de simplificar as ideias e de as encaminhar no sentido de criar uma estrutura comum. “Tom tem a ética do trabalho”, partilha o baterista com o DJ Booth. “Eu não sou preguiçoso, mas Tom está lá a carregar a pista de áudio e a arranjá-la. Foi incrível ver alguém a dedicar tempo e esforço para que isso aconteça. É de loucos a forma como se dedica à produção”.

Voz, guitarra e bateria. São estes os três elementos fundamentais de What Kinda Music, sendo que são por vezes adicionadas outras variáveis à equação, como serve de exemplo o já citado tema título, onde se ouvem também violinos; o saxofone de Kaidi Akinnibi que entra em “Storm Before The Calm”, derradeira canção do álbum; alguns sintetizadores que vão polvilhando aqui e ali o enredo; e o baixo de Rocco Palladino que além de surgir em “Lift Off”, manifesta-se igualmente em outros pontos do disco, como em “Kyiv” – ambas as músicas partilham um vídeo, gravado no mesmo espaço, no qual dois bailarinos se expressam em torno daquilo que aparenta ser a reprodução do sol, numa possível representação de esperança e felicidade, combustível mais do que útil nos dias que correm.

“Kyiv” nasceu por acaso. O espaço que sobrara no rolo de câmara de Douglas Bernardt, realizador de São Paulo, impulsionou os músicos a criarem uma canção totalmente improvisada. A bem da verdade, todo o álbum soa a uma alargada jam session, como se Misch e Dayes se tivessem fechado no estúdio e pressionado o botão de rec uma única vez como forma de capturar todas as interacções dentro daquelas quatro paredes. Não foi obviamente isso que aconteceu – até porque há um trabalho de voz à la Radiohead que requere outro tipo de edição e tratamento – mas o resultado final mantém bastante essa vibração quase crua. Oiça-se, como exemplo, “Tidal Wave” e “I Did It For You”, além, claro, da própria “Kyiv”.

“Nighrider”, um dos pontos altos do álbum, beneficia dos versos de Freddie Gibs, notável rapper que também é conhecido pelo seu trabalho com o produtor Madlib – juntos, editaram Piñata (2014) e Bandana (2019). O tema, que traz consigo uma animação onde é possível ver os três artistas a percorrerem quilómetros de estrada ao volante daquilo que se pensa ser um Corvette, é uma apaziguante odisseia na qual as duas vozes se passeiam por desérticas paisagens de cactos e rochedos, acompanhadas por um ritmo também ele solto e sereno.

What Kinda Music teve, por um lado, o azar de aterrar em pleno período de pandemia, impossibilitando uma devida promoção, concerto de apresentação e consequente digressão, contudo, o seu pulsar assenta que nem uma luva neste estranho paradigma, apesar de as músicas terem sido construídas em período pré-COVID. É um álbum que transmite uma sublinhada calma, envolvendo-nos em tranquilizantes acordes de guitarra e suaves rufos de bateria, indo ao encontro do abrandar dos motores da sociedade e servindo de almofada para os momentos de incerteza – “Storm Before The Calm” soa quase a tirada de optimismo. Tom Misch e Yussef Dayes sintonizaram a frequência certa e sincronizaram What Kinda Music com o nosso batimento cardíaco. E que aconchegante é.