“Better Love”, o novíssimo single dos AJOYO, é um exemplo gritante de como a música consegue transportar os mais variados sentimentos. Guiado pelas vozes de Sarah Elizabeth Charles e da convidada especial Vuyo Sotashe, artista sul-africana radicada nos Estados Unidos, o tema versa sobre o tipo de amor que garante espaço para que os indivíduos cresçam de forma individual e colectiva. “O tipo de amor que pode ser silencioso e não enraizado nas expectativas”, explica Charles em declarações. “O tipo de amor que resulta de uma extensão de nos amarmos a nós próprios primeiro”.

A canção começa com uma simples frase de teclas de Jesse Fischer, à qual se soma a voz de Vuyo Sotashe, correspondida de imediato pela guitarra de Michael Valeanu (antigo músico de Cyrille Aimée). O bloco mantém-se até à entrada da quebrada bateria de Philippe Lemm, carregada de contratempos, e uma camada de sintetizadores, novamente pela mão de Fischer, que segura tudo em parceria com o baixo de Kyle Miles (antigo músico de Marcus Strickland Twi-Life). Entretanto, assistimos a um envolvente exercício vocal da parte de Charles e Sotashe, articulando bem as melodias e mergulhando a pique na mistura instrumental baseada no ritmo bend-skin dos Camarões. Yacine Boularès, líder da banda, contribui com suaves apontamentos de saxofone.

“Better Love” é uma das amostras de War Chant, álbum que chega a 22 de Maio e que sucede ao título homónimo da banda, editado em 2015. War Chant mune-se da celebração auditiva da alegria e da vida para uma chamada à ação mais focada em nome da justiça social e racial. Os temas abordam a opressão, xenofobia e ganância que tomam conta da América moderna, combatendo as mentiras e a corrupção alimentadas pelo governo Trump com uma diatribe musical honesta e refrescante. “Expor as pessoas aos nossos mundos e às nossas próprias histórias de imigração desenvolve empatia, independentemente das suas visões políticas”, explica Boularès em comunicado de imprensa.

Sediados em Brooklyn, os AJOYO misturam jazz, soul e tradição africana. A banda resulta da visão de Yacine Boularès, saxofonista e compositor tunisino que já teve oportunidade de colaborar com músicos dos Camarões como Jojo Kuo, antigo baterista de Fela Kuti. Boularès e Charles, com quem viria a formar os AJOYO, começaram a trabalhar juntos em 2009, quando o saxofonista chegou a Nova Iorque. “Temos histórias de imigração muito semelhantes”, partilha ainda Boularès. “Sarah é americana e haitiana e é através da música que mantém relações com o Haiti. Eu sou tunisino, e apesar de ter crescido entre Tunis e Paris, é graças à música que consegui conectar os pedaços da minha fragmentada identidade. Eu também tenho fortes ligações com a comunidade haitiana enquanto saxofonista dos Tabou Combo nos últimos seis anos. Influenciou-me bastante ter viajado com eles para Moçambique, Cabo Verde e todo o Caribe. Eles são pioneiros, desbravaram território. Os grooves e a estrutura são muito complexos e sofisticados, e isso mexeu muito com o meu processo de composição – acompanhar as diferentes partes, pensar no arco da música, na dramaturgia”, acrescenta.

A par do seu trabalho com os AJOYO, Boularès fundou o primeiro festival de cultura árabe no Joe’s Pub em Nova Iorque, a realizar-se – se a pandemia assim o deixar – em Outubro de 2020. No final de Abril, a banda prestou a sua homenagem a Manu Dibango com uma versão de “Soul Makossa”, talvez a maior bandeira do músico camaronês falecido a 24 de Março, vítima de COVID-19.