Ainda Tony Allen, desta vez pela mão dos Nu Guinea

Em 2015, os Nu Guinea editaram Afrobeat Makers, Vol.3 (The Tony Allen Experiments), um disco que, como o próprio nome sugere, orbitou em torno da obra do recentemente falecido baterista, membro dos Africa ’70, colectivo que integrou ao lado do gigante Fela Kuti. Nome incontornável do afrobeat, Allen colecciona ainda património em nome próprio somado a um valioso leque de colaborações com nomes como Damon Albarn (The Good The Bad and the Queen), Flea, Amp Fiddler e Jeff Mills, destacando apenas alguns exemplos – no final do ano passado, participara em “Do Allen / Diabo Na Terra”, dos Carapaus Afrobeat, ao lado de Oghene Kologbo e do rapper Boss AC.

Desafiados por Eric Trosset, manager do baterista e fundador da editora parisiense Comet Records, os Nu Guinea atiraram-se a uma releitura do acervo do músico nigeriano. A ideia inicial de Trosset limitava-se a uma abordagem simples do material já existente. Contudo, os Nu Guinea preferiram fechar-se no estúdio durante quatro meses com a finalidade de criarem algo singular, baseado no seu código genético que encontra nos sintetizadores e na música napolitana nos anos 70 e 80 uma importante referência.

O resultado final traduz-se num trabalho rico e variado, que vai muito além dos limites da simples prova de reconhecimento. O ritmo afrobeat está lá todo mas mistura-se com jazz, funk, disco, sintetizadores, baixos electrónicos, Fender Rhodes, p-funk, arpeggios, efeitos intergalácticos, harmonias que nos levam para o mundo dos sonhos e melodias que facilmente se colam aos ouvidos. Dos três episódios da saga Afrobeat Makers, uma epopeia impulsionada pelo detentor da Comet Records, a dos Nu Guinea é claramente a mais ambiciosa e também a mais aplaudida.

Depois de terem recebido a triste notícia da morte de Tony Allen, numa altura em que o músico se apresentavem bem de saúde e muito activo na sua profissão – editara no início do ano um disco em parceria com o trompetista sul-africano Hugh Masekela e tinha concerto marcado em Portugal, na companhia de Jeff Mills, inserido no cartaz do Lisb-On Jardim Sonoro – Massimo Di Lena e Lucio Aquilina decidiram prestar a sua própria homenagem, ao editarem uma mix de uma hora com material do lendário baterista, disponível para escuta através da plataforma Mixcloud.

 

“Quisemos expressar a versatilidade da bateria de Tony, que começou com as suas gravações com os Africa ’70 e outros músicos nigerianos como Lekan One e Tunde Williams, e acabou a colaborar e a fundir-se na perfeição com pessoas oriundas de diferentes universos musicais”, conta a dupla ao Stamp The Wax. “Ficámos muito impressionados por saber que participou em temas de Amina, uma compositora que divide as suas origens entre França e Tunísia. Alguns podem conhecê-lo pela sua longa colaboração com Fela, mas nós achamos que isso não faz justiça à sua carreira. Se tivéssemos feito uma mix de seis horas teríamos provavelmente inserido muito mais, mas preferimos fazer um resumo de 1 hora das nossas músicas favoritas”.

Ainda na mesma conversa, os Nu Guinea partilham de que forma Tony Allen moldou a sua identidade musical. “Como italianos que somos, o nosso background musical foca-se muito na melodia. Poucos artistas da velha guarda deram realmente importância à faceta rítmica das canções, como o fizeram Tullio De Piscopo e Tony Esposito. Tony Allen foi um dos primeiros músicos a revolucionar a nossa forma de conceber padrões rítmicos. A sua visão musical estava muito além daquilo que um músico normal pensaria. Ele estava a pensar para lá das regras, criando padrões complexos e ao mesmo tempo harmónicos”.

Di Lena e Aquilina conheceram-se em 2006, numa altura em que eram vistos como duas grandes promessas da cena minimalista italiana, factor esse que os levou para a estrada durante anos ao ponto de terem esgotado completamente o conceito, colocando um ponto final à digressão e motivando também um afastamento. “O que mais nos aborrecia na nossa fase minimal era falta de cores e alma na música”, pode ler-se numa entrevista para o site Melbourne Deepcast.

Em 2009, os dois músicos reencontraram-se, desta feita em Barcelona, cidade onde decidiram fazer novamente música em conjunto e onde fundaram o projecto Real Pleasures, dada a sonoridade da música articulada poder perfeitamente servir de banda sonora para os filmes eróticos de categoria B dos anos 80. A colaboração tornou-se frequente desde então, impulsionando a compra de sintetizadores e a construção de um estúdio. Depois de vários anos de experimentação e algumas visitas aos confins do passado, decidem então formar os Nu Guinea.

O duo muda-se de armas e bagagens para Berlim mas nunca se afasta completamente da sua raiz, Nápoles, comuna do sul de Itália erguida nas imediações do Vesúvio. Nuova Napoli, o segundo álbum de longa duração, editado em Abril de 2018, respira o espólio de marcos importantes da música napolitana como Pino Daniele, Napoli Centrale e os já referidos Tony Esposito e Tullio de Piscopo. É uma obra que interliga o presente com as décadas de 70 e 80, oscilando entre jazz, funk e disco. “O processo criativo incluiu várias viagens a Itália e inúmeras horas despendidas na edificação de um produto que fizesse sentido”, revelam numa conversa com o site Off The Record em vésperas da edição do disco.

Além do projecto musical, os Nu Guinea são detentores do seu próprio selo discográfico, NG Records, através do qual editaram em Fevereiro a compilação Napoli Segreta Vol.2, que reúne trabalhos de vários artistas napolitanos, e actuam também como DJs. “When One Road Close (Dance Dub)” é um dos temas de Tony Allen que garantem ser mais eficaz nos seus sets. “As pessoas ficam completamente loucas quando soltamos esta música”, asseguram ao Stamp The Wax. “É uma arma que resulta a 100% na pista de dança”, acrescentam. Apontam ainda o disco Afrobeat Express, editado no final dos anos 80, como um dos seus favoritos. “Não soa tão quente como os seus álbuns mais antigos mas tem algo de peculiar no que toca aos sons e, mais do que isso, é um dos únicos trabalhos onde podemos ouvir Tony a usar baterias electrónicas. Quando começámos o LP Tony Allen Experiments, foi uma das nossas referências”.

 

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