Natural de Sintra, Francisco Godinho é sound designer e músico. Actualmente, trabalha para uma empresa de videojogos e está desenvolver Saurian, um simulador de dinossauros que se encontra ainda em fase experimental – os fãs pagam uma quantia simbólica pelo acesso ao jogo e vão partilhando com a equipa o que gostariam de ver melhorado e alguns erros que possam surgir. Nos tempos livres, constrói bibliotecas de sons para colocar à venda e produz música electrónica. Assina os seus trabalhos como XZICD – um nome que informa ter surgido de modo acidental numa conversa via Skype com um amigo – e conta com um vasta colecção de lançamentos na sua página de Bandcamp. No dia 18 de Maio editou ɅVΟѺΟVɅ, uma odisseia sci-fi que explora as ligações entre o ser humano e as máquinas, fruto de uma profunda leitura de  literatura cyberpunk e obras de incontornáveis autores como Philip K. Dick (Do Androids Dream of Electric Sheep?) e Arthur CClarke (The Sentinel). Na construção deste disco, Francisco recorreu à inteligência artificial para criar ritmos e melodias que são controlados e orquestrados à posteriori em hardware e software – “o álbum gira em torno dessa ideia de deixar as máquinas falarem por si”, explica. A Ritmoterapia entrou em contacto com XZICD para uma conversa via Zoom que foi do seu recentemente editado álbum a questões mais técnicas relacionadas com o universo do som.

AnalogXZICD

É curioso estarmos a ter esta conversa pouco depois de eu ter publicado um artigo na Ritmoterapia sobre o 4DSOUND, um sistema de som que explora a quarta dimensão do som. Chegaste a ver?

Vi o teu artigo, sim. Por acaso é uma das coisas que me interessa, tanto que estou a recorrer a uma interessante tecnologia para a gravação de sons. Comprei um microfone Ambisónico, que é um formato que dá para usar em realidade virtual. Pode-se usar em jogos, aplicações. Há empresas médicas que estão a usar a realidade virtual nas operações. Criar um som de ambiente tranquilo ajuda bastante os médicos a desempenharem as suas tarefas. É um formato que existe desde os anos 70, mas só agora é que se começou a pegar um pouco mais nisso por causa do boom da realidade virtual. Eu comecei a usar este formato porque podes converter para surround 5.1 ou 7.1. É versátil e até tens programas gratuitos que te façam isso.

Abre um vasto leque de utilizações…

Há uma série de coisas que podem ser exploradas e que nos ajudam a fugir da monotonia, sim.

Queria falar um pouco sobre o teu mundo artístico. Mas antes, gostava que me explicasses a origem do nome com o qual assinas os teus trabalhos…

O nome surgiu por engano. Basicamente, toda a gente me chama Xico ou Francisco. E houve um amigo no Skype que tentou chamar-me à atenção e escreveu XZICD. O X está correcto, o Z surgiu acidentalmente, por estar ao lado do X, o C e o I estão correctos e o D nem sei onde foi buscar. Achei piada o nome porque a minha música também parte muito do erro e pegar em coisas que estão feitas e destruí-las.

Como é que tudo começou? Já fazes música há muitos anos?

Eu tinha uns 14 ou 15 anos quando comecei a fazer música, numa altura em que não havia YouTube, nem tutorais. Começou com um demo do Dance eJay que veio nos cereais Golden Grahams. Eu pensava que estava a fazer música com aquilo, mas basicamente era só meter os loops uns em cima dos outros. Sempre gostei muito de música desde miúdo, de vários géneros. Na altura estava muito dentro do trip hop de Tricky, Massive Attack e Portishead, e percebia um pouco como é que eles faziam música, muitas vezes a pegarem em trechos de filmes ou de outras músicas que já existiam. E eu pensei que seria capaz de fazer isso. Vi que era possível com o Dance eJay – aquilo era mesmo para te conquistar, não tinha grande ciência. Depois evolui para o Fruity Loops e foi aí que aprendi um pouco mais sobre produção e a meter as coisas juntas e a fazer batidas, melodias, tudo sozinho, sem bases nenhumas musicais, sem perceber de composição nem de mistura, absolutamente nada. Era o caos completo mas as coisas iam saindo. Na altura havia o Myspace, a melhor plataforma para a divulgação de música. Construías os teus temas e não tinhas aquela treta do algoritmo que omite o que tu publicas a 70% dos teus fãs ou das pessoas que segues. Podias chegar a toda a gente, era mesmo muito fixe.

Foi muito importante na altura, de facto…

Foi através do Myspace que conheci malta a fazer a mesma música do que eu. Depois evolui do trip hop para uma coisa um pouco mais IDM ou electrónica experimental. Conheci pessoas de outros países – Itália, Inglaterra, França – e foi aí que entrei mais a sério na cena musical, porque eu em Portugal não conhecia ninguém, não fazia ideia de gente que fizesse o mesmo tipo de música. Criei amizades que ainda hoje perduram. Aprendi um pouco com eles, como é que organizavam as coisas, e comecei a entrar na parte do design de som, a pensar um pouco mais em fazer algo que soasse à minha maneira. Trocávamos várias técnicas e metodologias. Ainda hoje mostramos coisas uns aos outros e há sempre espaço para opiniões e críticas construtivas. Foi uma forma porreira de evoluir o som, de encontrar novas abordagens. Tanto que eu não gosto de me repetir de álbum para álbum, de EP para EP. A electrónica deixa-te explorar, é infinita. Eu gosto de mudar completamente aquilo que estou a fazer.

Tens uma obra vasta no Bandcamp. Quantos lançamentos fizeste até à data?

Não sei ao certo até porque houve uma altura, no ano passado, em que as netlabels para as quais tinha EPs deixaram de existir e o material deixou de estar nos servidores deles, houve muita coisa que mudou. Decidi incluir essas músicas na sessão do álbum que eu pensava ter mais completo ou que fosse mais porreiro para as pessoas ouvirem. Fui buscar essas músicas, EPs, compilações e remixes ao disco externo e a outros sítios – em alguns casos tive mesmo que pedir a amigos. Compilei tudo nesses álbuns que já existiam como se fossem faixas bónus. Se fores ao meu Bandcamp encontras um álbum com 18 músicas, por exemplo. Quando compras encontras lá 30 e tal músicas. Por isso é que não sei ao certo o que tenho e quanto tenho. No entanto, posso dar aqui uma vista de olhos [vasculha rapidamente o computador]. Tenho 17 lançamentos…

Bem bom…

Sim, já faço música há algum tempo…

Quando é que foi o teu primeiro lançamento oficial?

O meu primeiro EP saiu por uma label que deixou de existir e era um pouco influenciado pela onda do techno minimal que apareceu em meados de 2000. Tinha apenas três músicas: duas minhas e uma remix do dono da editora. Esse foi o primeiro, em 2007. Álbum mesmo foi em 2008, na Crazy Language, uma editora alemã que ainda vai lançando alguma coisa. O tipo que gere aquilo está muito activo na cena de Berlim, em gigs e coisas mais underground. À conta dele já fui tocar a Berlim cinco vezes. Foi óptimo. Ainda hoje vamos fazendo umas cenas, quando isto tudo passar queremos ver se conseguimos organizar lá qualquer coisa.

Qual é a editora deste mais recente disco?

Detroit Underground. Dentro deste tipo de música é uma editora de topo, tens artistas conhecidos que já lá lançaram muita coisa e o próprio dono da editora é o Dj Kero. Já tocou com Plastikman, por exemplo. É uma editora que expande muito os horizontes, às vezes até demais. A música perde-se ali um pouco nos vídeos e em cenas que ele vende, fica uma grande confusão. Mas pronto, ele vai fazendo as coisas e promovendo-as à sua maneira. Já é o meu segundo lançamento na editora. O meu primeiro álbum através deles saiu em cassete. Foi fixe porque esgotou em dois dias. Eram 50 cassetes, edição limitada. E agora lancei este álbum assim mais grandinho, bem pensado, para fechar o ciclo deste tipo de música. Daqui para a frente quero fazer outras coisas.

No e-mail que recebi, dizes que a tua música é influenciada por sci-fi. Queres falar um pouco sobre isso?

Sempre gostei de sci-fi, de filmes de terror. Vi o Alien muito novo, tinha uns 7 anos e não o devia ter feito. O anúncio passou na televisão e pedi aos meus pais para me deixarem ver, o que foi negado por não ser para a minha idade. Eles adormeceram os dois e eu acabei por devorar o filme do início ao fim. Resultado: fiquei com pesadelos durante uma semana ou duas, mas adorei aquilo. Depois surgiu o interesse em mais filmes desses, como o Blade Runner.

E isso também inclui leitura, certo?

Tenho lido muito cyberpunk e autores como Philip K. Dick e Arthur CClarke. Muitas vezes tem a ver com aquela ideia de o ser humano se melhorar. E será que isso é para melhor ou para pior? Às vezes os melhores livros são os que nem te dão uma resposta se é bom se é mau, se é o caminho que podemos seguir ou não. Eu acho interessante e tentei transportar isso para a música. Daí utilizar alguns programas que geram notas sozinhos. Deixo o software correr à sua maneira e vejo o que vai sair dali. Pegas nas notas midi e passas para o teu software. Algumas são geradas por inteligência artificial. Consegues dizer-lhe que escalas é que queres explorar e ela ficam a ali a fazer umas coisas. O álbum gira em torno dessa ideia de deixar as máquinas falarem por si. Peguei nesse conceito quer para melodia quer para o ritmo, porque acho que as pessoas estão a falhar muitas vezes em não utilizar essas teorias musicais e aplicá-las a batidas. Por isso é que as minhas batidas estão sempre a mudar de segundo a segundo. Basicamente, o que estou a fazer é a pegar em notas musicais e a transformá-las em ritmo, a ver o que aquilo dá. Às vezes é uma confusão descomunal, inaudível. Mas se conseguirmos impor limites e barreiras saem coisas muito interessantes. Gosto que o público oiça o álbum e o interprete. Sou daquelas pessoas que adora ouvir um álbum antes de ler sobre ele e extrapolar aquilo que me está a dizer, à minha maneira. É interessante porque podes ir ao encontro da ideia do artista ou exactamente o oposto.

A arte tem essa particularidade. Pode ser subjectiva ao ponto de significar uma coisa para mim e outra completamente diferente para outra pessoa. Às vezes vamos a um museu e pensamos num certo tipo de sentimento quando olhamos para um quadro que pode ser exactamente o oposto daquele que o artista tinha em mente quando o pintou. Eu quando ouvi o teu disco, por exemplo, fiquei logo com uma ideia sci-fi…

Sempre me disseram isso. Este álbum é muito influenciado pelo que estou a ler. Mas também gosto que as pessoas explorem à sua maneira.

No início da conversa mostraste-me um livro mas não cheguei a perceber bem o que era. Queres partilhar?

The Difference Engine, de William Gibson e Bruce Sterling. Este até é mais steampunk, não é tão cyberpunk. Acontece numa fase industrial, mil oitocentos e tal, mas já com a era da computação avançada e grandes maquinarias. Já vou a meio e ainda não percebi muito bem para onde é que isto vai. Por um lado é bom mas acho que já podia estar a avançar um pouco mais. Estou a ler William Gibson porque foi dos pioneiros do cyberpunk, foi ele que criou a trilogia Neuromancer. Foi ele que deu origem àquela ideia dos neons, da malta com os braços robóticos e das companhias que gerem tudo e controlam a vida de toda a gente.

Achei uma certa piada aos títulos que utilizas para os teus discos. Parece que têm assim uma vertente de computador ou de programação…

São símbolos ou imagens em paralelo, espelhadas. O tipo de música que tenho feito, esta sequência de álbuns, é mais mecânica, precisa e fria. Então acho que estas formas ultra geométricas transmitem a ideia de que isto vai ser um pouco agressivo em termos de som. Não quero que o título do álbum seja uma palavra que tu consigas definir, quero que tu entres aqui e saibas que isto vai ser abstrato, tens ali várias maneiras de interpretares aquilo que estás a ouvir. Espelha um pouco o que estamos a viver de momento com os teletrabalhos e de estarmos tão ligados à máquina. Não acho que isso seja uma coisa necessariamente má. As pessoas têm muito aquela ideia de que as máquinas nos vão roubar trabalho. Acho que vai ser exactamente o contrário, acho que vamos ter muito trabalho à conta das máquinas e que vai ser bom para todos.

Por falar em máquinas, quais são as que utilizas no teu dia-a-dia e mais especificamente para este último disco?

Tenho uma Analog Rytm da Elektron. Sinceramente nem era esta que eu queria, eu gostava de ter o modelo anterior da drum machine deles mas está descontinuado. Aquilo que existe no eBay está demasiado gasto, já passou por muitas mãos, já não tem aquele brilho do hardware novo quando é comprado. Decidi comprar uma coisa nova e tirar o máximo partido disso, à minha maneira, a criar os meus sons. Não era bem aquilo que eu queria, porque a outra ainda tem um som super actual, que dá para fazer coisas incríveis. Acho que já tem mais de 15, 16 ou 17 anos, mas tem um som muito bom.

Um clássico…

É que nem é um clássico, aquilo não tem um som definido, não é como a 808 da Roland nem nada que se pareça. Tenho outra máquina da Elektron que é a Monomachine, um sintetizador com sequenciador. Podes ter seis pistas a trabalhar simultaneamente, ou seja, seis sintetizadores a trabalharem numa só máquina. Tenho coisas da Roland, da série Boutique. Um microKORG, que não usei muito. Um amigo emprestou-me um Korg Minilogue durante umas semanas; saquei uns sons daquilo, mas também não usei muito. E tenho também um 0-Coast da Make Noise, um sintetizador semimodular que tem um som muito específico de onde podes sacar montes de coisas diferentes, deixa-te fazer muitos patchs. Podes ter um ritmo, um sintetizador mais limpinho e sons mais abstractos, crus e agressivos. Só não tenho mais porque este tipo de material é caro. E vendo bem não é tão necessário quanto isso. Tens aí tanto software a soar bem. Às vezes até gosto de enganar a malta a dizer que a música é toda analógica mas foi tudo feito com computador, e há quem não consiga distinguir.

Isso é bom sinal, quer dizer que o digital já se aproxima do analógico ao ponto de confundir o ouvido…

Eu acho que isso às vezes nem é grande discussão, se o analógico é melhor que o digital ou vice versa. São dois formatos que têm as suas vantagens e desvantagens, estar no meio dos dois é o ideal. Para mim até é mais uma questão de desenjoar dos ecrãs, daquele processo de compor num software como o Ableton ou o Cubase e centrar o foco nas máquinas e naquilo que elas podem dar. Às vezes, com o computador, perdemo-nos um bocadinho porque temos que fazer muitas coisas, e perdemos a ideia que tínhamos para a música ou para aquele tipo de som.

Eu também produzo algumas coisas, nada de muito especial, nem trabalho editado tenho. E sinto isso que estás a dizer. Por vezes, ter o limite da máquina ajuda-te a não te dispersares, algo que acontece muito quando te deparas com o infinito leque que o computador te dá.

Claro. Por isso é que eu gosto de estar nos dois ambientes. Por vezes é para desenjoar um pouco, outras é para me focar mais numa única abordagem. Tenho tendência a gostar das máquinas que me dão margem para inventar e para sacar sons diferentes.

E a nível de software, o que utilizas?

A minha base é o Ableton, foi onde comecei a produzir depois do Fruity Loops. Em termos de criação de sons, melodias e sintetizadores, o software que mais uso e há mais tempo é o Reaktor. Tens uma biblioteca muito boa de patchs e samples que a comunidade constrói de forma gratuita. Não só consegues ter logo 200 ou 400 ensembles – e com isso já tens sons, sintetizadores e drum machines para anos e anos – como podes ser tu a criar os teus sons, a tua identidade. Normalmente, uso tudo o que é da Native Instruments. E depois uso softwares mais pequenos como o Synplant ou o MicroTonic. Não gosto de usar só um software nem dois ou três.

Há pouco dizias que este álbum vai encerrar um ciclo e que vais fazer outra coisa daqui para a frente. Com o imaginas a próxima etapa?

Eu já estou a trabalhar no próximo álbum. Na música electrónica podes fazer tanta coisa que já tenho ideias para os próximos 30 anos, caso necessite. O próximo disco será um pouco a antítese deste. Vai ter muito mais melodia, vai ser muito mais quente. Gravo coisas em fita, passo para digital e depois volto a passar por fita para estragar o som; mas sempre com muita melodia. Os ritmos continuam a ser muito abstractos e a seguir o seu rumo, não têm uma estrutura definida, que é para fazerem a ponte com os álbuns que lancei agora. Gosto de pegar em ideias daquilo que ficou para trás e incluí-las no capítulo seguinte para criar uma espécie de narrativa ao longo dos anos. Para já estou a trabalhar em quatro ou cinco músicas. Esta parte de pegar em cassetes e em gravações antigas é morosa mas crias uma outra afeição com o teu trabalho. Tenho andado a ver muitos filmes de família gravados em VHS e Betamax, estou a samplar esses sons e a incluí-los na música, a destruí-los, nem sabes muito bem o que é. Concede-lhe uma característica mais quente, mais nostálgica.