Ontem, as redes sociais pintaram-se de negro como forma de protestar contra o racismo e a violência policial nos EUA e em todo o mundo. A iniciativa #BlackoutTuesday tinha como principal intuito estimular um momento de reflexão em torno de um assunto que veio novamente à baila com a morte de mais um afro-americano nas mãos da polícia. George Floyd foi asfixiado durante longos minutos por um agente que em momento algum pestanejou ou mostrou um pingo de piedade. A primeira autópsia ao corpo de Floyd, a oficial, apontou para homicídio involuntário, contudo, uma segunda autópsia, desta feita independente, a pedido da família, concluiu que a sua morte fora causada por asfixia (impedindo o fluxo sanguíneo) e compressão das costas (dificultando-lhe a respiração).

Os acontecimentos levaram milhares de norte-americanos para a rua numa vaga de protestos que não tardou em atingir proporções de violência, saque e destruição, aparentemente causados por grupos que se infiltraram nos actos pacíficos. O cenário só se equipara ao da revolta pela morte de Martin Luther King em 1968, com cidades como Washington, Baltimore, Detroit, Chicago e Louisville – entre muitas outras – a sofrerem profundos danos. O recurso ao caos para defendermos as nossas ideias não é solução, sob pena de perda de razão e de sermos correspondidos na mesma moeda. Quem decida combater ódio com ódio recebe ódio de volta e assim consecutivamente, num triste círculo vicioso.

Contudo, a saída à rua nestes casos é inevitável. Veja-se os exemplos dos protestos Black Lives Matter de 2015, impulsionados pelas mortes de Trayvon Martin, Michael Brown e Eric Garner. Importa aqui também a forma como a Casa Branca respondeu aos desacatos. Obama preferiu aproximar-se das comunidades numa atitude diplomática. Trump ameaça colocar os militares na rua caso os governadores não consigam travar os tumultos nos seus Estados. Todavia, pensar que esta é uma situação que se resolve com a mudança de administração é um sonho demasiado cor-de-rosa, já que o problema dos EUA é crónico e remonta a décadas de escravatura e perseguição racial. O racismo está enraizado e contamina não só a população como também a classe política e, claro, as forças de autoridade. A mudança exige muito trabalho, uma restruturação profunda das mentalidades, uma elevada injecção de informação a nível das instituições de ensino e um controlo da entrega de armas e do poder de fazer cumprir a lei a psicopatas fardados, com impiedosos exames psicotécnicos.

Muita coisa pode ser feita para travar o racismo e uma delas é utilizar a arte como veículo de consciencialização. Foi precisamente isso que aconteceu com a iniciativa #BlackoutTuesday que causou um apagão nas redes sociais, com várias figuras da indústria da música a trocarem as imagens de perfil por fundos negros, como forma de protesto, e a reservarem o dia para uma reflexão colectiva em torno deste estigma. É claro que o movimento se estendeu a outros sectores e aos mais diversos utilizadores, numa manobra colectiva que não terá passado despercebida aos olhos de ninguém. Cancelaram-se actividades culturais, como concertos e lançamentos de músicas ou álbuns, mergulhou-se o mundo num silêncio ensurdecedor. A pergunta que se coloca agora é: e depois do silêncio?

A música – como o cinema, a dança, a pintura e o teatro – anda constantemente de mãos dadas com os acontecimentos político-sociais. Em 2015, To Pimp a Butterfly de Kendrick Lamar tinha como epicentro toda uma nova vaga de instabilidade social gerada pelas mortes de Martin, Brown e Garner, transformando o álbum numa espécie de bandeira pela luta contra o racismo e elevando “Alright” a hino do movimento Black Lives Matter. Mais atrás, em 1971, Marvin Gaye lançava What’s Going On, um disco que explorava temáticas como o abuso de drogas, a pobreza e a guerra do Vietname, sendo a canção-título baseada num episódio em que a polícia investiu contra um grupo de manifestantes que se opunha a participação dos Estados Unidos na guerra. Ainda mais atrás, em 1939, Billie Holliday editou “Strange Fruit”, um protesto anti-racismo escrito por Abel Meeropol – os “estranhos frutos” sobre os quais Holliday canta aludem ao linchamento de negros nos EUA. Estes são apenas alguns exemplos de como a arte tem caminhado paralela à história, pretendendo, por vezes, mudar o seu rumo e, por outras, registar os acontecimentos para que não se repitam.

Pelas piores razões, Floyd será o gatilho de novas expressões artísticas que, mais do que documentar o sucedido, vão procurar mudar as mentalidades e lutar por um mundo mais justo onde tão depressa se prendem os civis que tenham cometido crimes como os polícias criminosos. Adivinha-se um futuro com muita consciencialização por parte de nomes como Beyoncé, Jay-Z, Kendrick Lamar, Foo Fighters, Pearl Jam, mas também artistas de um patamar de visibilidade mais reduzido como Shabaka Hutchings, Moses Boyd, Kassa Overall, Makaya McCraven, Kamaal Williams, Tenesha the Wordsmith – citando apenas alguns exemplos. Do jazz ao hip hop e da soul à electrónica, qualquer género é um indispensável meio de transporte para esta que é uma informação cada vez mais urgente. As coisas não podem continuar como estão, casos como o de George Floyd – e de tantos outros – não podem voltar a acontecer. Que a informação viaje do emissor para o receptor com o maior volume e definição. E depois do silêncio? O barulho.