A forte mensagem de Brent Sayers, um dos fundadores da editora independente Rhymesayers

Casa-mãe de artistas como Atmosphere, Aesop Rock, Brother Ali, Evidence e Grieves, a Rhymesayers é uma editora norte-americana sediada em Minneapolis, cidade no Estado do Minnesota onde George Floyd morreu asfixiado por um agente da autoridade, que pressionou o pescoço do cidadão afro-americano com o seu joelho durante cerca de nove minutos, sem dó nem piedade. O bárbaro episódio reacendeu o debate em torno da violência policial e do racismo, com multidões a saírem à rua em protestos que pedem justiça para Floyd e que seja colocado de uma vez por todas um ponto final na novela de polícias que matam deliberadamente sem que sejam devidamente punidos.

Na passada terça-feira, a indústria musical sugeriu um apagão nas redes sociais, acompanhado pelo hashtag #BlackoutTuesday, que visava suspender toda e qualquer actividade durante essas 24 horas e mergulhar o mundo num desconfortável silêncio com o intuito de estimular um profundo momento de reflexão em torno do racismo e da violência policial. No regresso ao ensurdecedor barulho que se tem feito desde a morte de George Floyd, Brent “Siddiq” Sayers, um dos fundadores da Rhymesayers, a par de Sean Daley (Slug), Anthony Davis (Ant) e Musab Saad (Sab the Artist), utilizou o Instagram oficial da editora para partilhar uma forte mensagem, que ganha ainda mais importância por ter sido escrita por alguém que cresceu a escassos quarteirões de distância do local onde Floyd foi assassinado.

“Para alguém que nasceu e foi criado na zona sul de Minneapolis, os eventos da semana passada não surpreendem. Nem o facto de ser mais um negro morto pela polícia, nem a dor, frustração e raiva a ser expressa por uma comunidade que tem sido ignorada, desconsiderada e desumanizada ao longo dos anos. Eu cresci a escassos quarteirões da zona onde George Floyd foi assassinado. O excesso de policiamento e a violência policial sempre foram a norma das comunidades negras no Minnesota. Os bairros que estão a ser saqueados e queimados são o pano de fundo na minha vida inteira. No final dos anos 70, o meu pai era proprietário de uma loja de chapéus nos agora queimados quarteirões de East Lake Street. O edifício onde aconteceu a Soundset ’97 [festa com vários artistas do universo hip hop] ficava a um quarteirão da rua onde a 3ª Esquadra foi destruída. Esses anos moldaram os valores pelos quais eu e a Rhymesayers nos regemos. O Minnesota tem uma longa história de sistemático e estrutural racismo, e ao mesmo tempo que frequentemente surgimos no topo das listas de melhor qualidade de vida, também lideramos a nação na disparidade entre negros e brancos no que toca a aceder àquilo que o Estado tem para oferecer.

Enquanto homem negro filho de uma mãe branca, sempre tive muito orgulho no facto dos artistas da nossa editora, o staff e os apoiantes serem tão diversos quanto as nossas famílias e a cidade que me criou. Contudo, é importante para mim que as pessoas que encontraram alegria e significado na nossa música, espectáculos, festivais e que construíram relações e memórias connosco ao longo dos nossos 25 anos de história, percebam que a Rhymesayers é feita das comunidades que estão de luto e a pedir justiça. Eu gosto de pensar que os nossos apoiantes percebem isto, e que estão profundamente conectados não só para amarem a cultura negra mas também para amarem as pessoas de pele escura. Infelizmente, muitas vezes não é o caso. Estou a pedir para que a nossa família branca, parceiros e ouvintes analisem profundamente o seu compromisso com a igualdade racial e com o fim o sofrimento infligido aos negros.

Eu sei que confrontar a injustiça racial é desconfortável para muitos, mas eu espero que os nossos apoiantes se juntem a nós nesta luta, utilizando todos os recursos e privilégios colocados à sua disposição para agarrarem esta oportunidade de se erguerem, criarem a mudança onde puderem, exigirem onde puderem, e estabelecerem responsabilidades a nível colectivo e individual”.

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