Com saudades mas de olhos postos no futuro. O novo single de Branko é uma importante lufada de positivismo

A palavra saudade é frequentemente utilizada em contextos de exagerada nostalgia ou excessivo saudosismo, menosprezando o presente e colocando demasiado ênfase num passado que já não faz sentido e que simplesmente nunca mais será vivido. Em determinadas situações, como na música, viver acorrentado ao que aconteceu não nos deixa desfrutar o presente com a devida atenção e impede-nos de escavar a densa camada superficial do ruído em busca de sonoridades que sirvam de confortável almofada para o ouvido. Porque o que se fez é sempre melhor do que o que se faz, porque o que se viveu é insubstituível. “Naquele tempo é que era” ou “já não se faz música assim” são os argumentos constantes de quem não perde tempo a acertar o relógio com a actualidade.

Quando usado em abundância, sem o devido conta-gotas que defina a dose certa, o saudosismo pode tornar-se numa fatal prisão, impedindo-nos de respirar ar puro. No seu mais recente single, Branko aborda a saudade de olhos postos no horizonte, num futuro com a moldura de um passado recente. “SDDS”, que serve de aperitivo para o segundo volume da compilação Enchufada Na Zona, olha para um ponto cronológico pré-COVID e enaltece-o. Não no sentido de pensar no bom que era mas no óptimo que poderá voltar a ser. Há uma toada nostálgica sóbria mas ao mesmo tempo inspirada no futuro, procurando fomentar a alegria e o positivismo ao invés de elogiar a tristeza. Ainda que os tempos que se avizinham sejam adversos e prometam algum sacrifício (já todos sabemos o que nos espera a nível de (de)crescimento económico), a lágrima não parece ser o melhor condimento para os episódios que se avizinham.

E do que temos nós saudades, afinal de contas? De viver o dia-a-dia sem medo, sem desconfiança, sem duvidar de tudo e de todos, de cada passo que damos, de cada casa ou estabelecimento em que entramos. De sair à rua sem máscara, de abraçar sem receio, de nos sentarmos à mesa de um restaurante para comer sem ter de perguntar se a higienização foi devidamente executada, de acompanhar um familiar ao hospital e não ter que ficar do lado de fora do edifício à espera. De ir ao cinema ver um filme, de ir a concertos e sentir salas cheias a abarrotar de pessoas e da vibrante energia que muitas vezes conduz um espetáculo a bom porto, de ter a agenda profissional de tal forma preenchida que nos obriga a ansiar por dias de descanso, de poder simplesmente viver sem a constante preocupação da contaminação individual e colectiva. No fundo, temos saudades de um futuro com os contornos de um passado recente. E isso cabe tudo neste novo single de Branko.

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