The Colours That Rise | Grey Doubt

Desde 2017, com a edição do EP 2020, que os The Colours That Rise, duo formado por Simeon Jones e Nathanael Williams, têm vindo a desenvolver um imaginário de afrofuturismo que se coaduna com o trabalho de importantes nomes como Sun Ra, Parliament-Funkadelic ou até mesmo Afrika Bambaataa. Não tanto de um ponto de vista estético, ainda que o jazz e o funk estejam bastante salientes na mistura final, mas sim na ideia de rasgar a estratosfera em busca de novas paragens físicas e mentais. Na capa de 2020, cujo selo é da Breaker Breaker, Jones e Williams surgem suspensos no espaço, de instrumentos ao colo e à tiracolo, exibindo vistosos fatos de astronauta, e com o nosso Planeta Azul a servir de pano de fundo. No miolo encontramos um curto mas intenso passeio sci-fi guiado pelos propulsores de aventureiros sintetizadores e energicamente sustentados pelo engrossado combustível do baixo e bateria.

2020, o ano sugerido no título do primeiro EP, é palco de uma nova investida discográfica por parte dos The Colours That Rise, desta feita em formato de longa-duração. Editado no passado dia 1 de Maio pela Rhythm Section, Grey Doubt volta a abraçar o ideal afrofuturista do seu antecessor, sendo o espaço e a ficção científica novamente o epicentro da trama. Em “Red Dawn”, tema que abre o disco, somos informados: “Este é um documentário sobre pessoas negras a conduzirem OVNIS [Objectos Voadores Não Identificados] e pessoas negras a viverem em Marte”. A capa do disco, nas tonalidades do Planeta Vermelho, volta a centrar-se em Jones e Williams, desta vez a vislumbrarem a Terra ao longe e com o continente africano em destaque – há aqui todo um ideal de pan-africanismo que se alia às doutrinas de repatriação profetizadas por Marcus Garvey.

De facto, a história de missões espaciais não tem sido muito prolífera em mostrar-nos peles escuras associadas a fatos de astronauta – há exemplos disso, como é óbvio, mas não passam de uma pequena amostra num gigantesco objecto de estudo. No cruzamento entre passado, presente e futuro, realidade e sonho, instrumentos musicais e foguetões, estúdios de gravação e planetas distantes, ondas sonoras e sondas espaciais, matéria e vácuo, sintetizadores e silêncio, ciência rítmica e ficção científica, Grey Doubt constrói um portal entre Marte e Londres, de onde os TCTR são oriundos. Graças às partículas de funk intergaláctico, que tantas vezes trazem à memória George Clinton, o duo teletransporta-se do conforto do seu estúdio para as encarnadas montanhas e planaltos de onde vislumbram uma Terra cada vez mais fora do eixo de igualdade. E fazem-no com uma cerveja ao lado e um pacote de mortalhas Rizzla à cintura (ver capa).

Apesar de contar com vários convidados especiais –  Mansur Brown (“Home Time”), Yussef Dayes (“Home Time”, “Orion’s Belt and Beyond” e “Ghost in the Forest”), Lyves (“Ghost in the Forest”), Andrew Ashong (“The Juice”) e Yazmin Lacey (“Atmosphere”) – Grey Doubt é um dos raros casos em que um disco vive por si só, em que os convidados são um valor acrescentado e não astros imprescindíveis de um cosmos recheado de viajantes sintetizadores, baterias ricas que se desmembram em várias componentes e baixos que convidam à pista de dança, por vezes evocando texturas dos anos 70 e 80 (o vídeo oficial do tema “Atmosphere”, que pede emprestada a preciosa voz de Yazmin Lacey, é um exemplo disso), por outras ligando-se a uma visão mais futurista (“Orion’s Belt and Beyond”) e até tribal (“Red Dawn” e “The Juice”).

Grey Doubt é um excelente documentário onde tão depressa imaginamos as personagens envolvidas em missões espaciais, com a sigla TCTR a trazer à memória a da NASA, como a andar de bicicleta em Londres e a sacar intermináveis “cavalinhos” por entre as rampas que interligam os prédios, como nos conta o vídeo The Colours That Rise: Trilogy. Ser extraterrestre nem sempre implica ter como morada outro planeta ou galáxia. Por vezes está relacionado com o facto de termos o espírito e mente posicionados muito além da força gravitacional na nossa azulada esfera. É o caso.

 

 

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