Ainda jovem na sua existência, a nova vaga de jazz britânico está recheada de momentos que podem ser considerados basilares na popularidade que está a alcançar no campo dos géneros a que mais atenção se prestam actualmente. Um deles aconteceu com a edição de We Out Here (2018), compilação da responsabilidade do colossal Gilles Peterson (DJ, radialista, coleccionador de discos e proprietário do selo Brownswood Recordings), que reune nomes como Shabaka Hutchings, Moses Boyd, KOKOROKO, Joe Armon-Jones, Ezra Collective e Nubya Garcia. O disco mereceu uma vénia universal e recebeu o distintivo de indiscutível montra para os frescos contornos jazzísticos das Ilhas Britânicas, impulsionando a criação do homólogo australiano Sunny Side Up, de 2019, que juntou em disco vários talentos de Melbourne.

Juntam-se a We Out Here álbuns de elevado grau de relevância para o movimento, como Black Focus (2016), de Yussef Kamaal, projecto que junta o baterista Yussef Dayes ao teclista e produtor Kamaal Williams; Juan Pablo: The Philosopher (2018) e You Can’t Steal My Joy (2019), dos Ezra Collective; Displaced Diaspora (2018), de Moses Boyd, baterista que no decorrer do presente ano colocou nas ruas o magnífico Dark Matter, álbum que a Ritmoterapia passou a pente fino na secção das críticas; Channel the Spirits (2016) e Trust in the Lifeforce of the Deep Mistery (2019), dos The Comet is Comet, banda do imprescindível Shabaka Hutchings, saxofonista que também integra os colectivos Sons of Kemet (Burn; Lest We Forget What We Came Here To Do e Your Queen Is A Reptile) e Shabaka and the Ancestors (Wisdom Of Elders e We Are Sent Here By History). A estes casos de estudo junta-se ainda Gilles Peterson Presents: MV4 (2020), um álbum que juntou nos estúdios da Maida Vale da BBC nomes como Joe Armon-Jones, Asheber, Oscar Jerome, Nubya Garcia e Ishmael Ensemble. Material do mais elevado calibre, portanto.

O dia 25 de Setembro de 2020 promete ficar para a história do novo jazz britânico, com a edição de Blue Note Re:imagined, um trabalho que convida uma nobre família de músicos da “grande ilha” para revisitarem o catálogo da lendária editora norte-americana, que no ano passado soprou a sua octogésima vela. Shabaka Hutchings, Ezra Collective, Nubya Garcia, Steam Down, Skinny Pelembe, Emma-Jean Thackray, Poppy Ajudha, Jordan Rakei, Ishmael Ensemble, Blue Lab Beats, Yazmin Lacey, Alfa Mist e Jorja Smith são apenas alguns dos ilustres artistas que figuram na lista de participantes desta prometedora aventura. Para já, conhece-se “Rose Rouge”, original de St. Germain revisto na magnânima voz de Jorja Smith. A canção de Tourist, que pede emprestado um sample de “Woman of the Ghetto”, de Marlena Shaw, perde os contornos house da versão de Ludovic Navarre e ganha uma roupagem mais encostada aos campos da soul.

Sabe-se ainda que os Ezra Collective vão efectuar uma releitura a “Footprints” de Wayne Shorter e que haverá reinterpretações de obras de artistas como Herbie Hancock, Bobby Hutcherson, Joe Henderson, Donald Byrd, Eddie Henderson, McCoy Tyner e Andrew Hill. Isto promete.