Run The Jewels | RTJ4

Em momentos como o que vivemos actualmente, com a tensão racial a subir em flecha em países como os Estados Unidos e não só, torna-se fácil e perigoso enveredarmos pela estrada do ódio desmedido e da aversão generalizada, guiando-nos a uma rápida perda da razão e a um afastamento dos ideais basilares que defendemos. Vulgarizam-se os discursos, delapida-se o património e, a dada altura, mistura-se o bem com o mal e perde-se o grande propósito que é toda esta luta pela mudança. É mais ou menos isso que Killer Mike condena no seu popular discurso em Atlanta quando diz que a solução não passa por “queimar as nossas casas”, referindo-se aos episódios de pilhagens e destruição que varreram os Estados Unidos, mas sim “planificar, criar estratégias, organizar e mobilizar”.

Killer Mike sabe do que fala quando alerta para que os polícias não sejam todos colocados no mesmo saco e catalogados como racistas assassinos quando estes assuntos regressam recorrentemente aos tópicos de debate. Além de ser filho de um agente da polícia, o rapper tem na sua família dois primos que partilham a mesma profissão. Mas isso não o impede de canalizar a sua mensagem para um determinado conjunto de profissionais (muitas aspas no emprego desta palavra) a quem nunca devia ter sido concedido um distintivo e uma arma para fazerem cumprir a lei. A um isolado grupo de elementos que se deixam consumir pelo ódio, racismo, trauma e instabilidade psicológica na hora de intervirem na sociedade. Assassinos como Derek Chauvin, que pressionou o pescoço de George Floyd durante longos minutos até que este perdesse totalmente os sentido e acabasse, pouco depois, por perder a vida – isto depois da vítima ter exclamado por diversas vezes que não conseguia respirar e de ter evocado, em desespero, pela sua falecida mãe.

Quando este triste caso teve lugar, já RTJ4, o mais recente álbum dos Run The Jewels, estava gravado. Contudo, se prestarmos atenção às letras, facilmente encontramos relações directas com os mais recentes acontecimentos. “And you so numb you watch the cops choke out a man like me/Until my voice goes from a shriek to whisper, ‘I can’t breathe’/And you sit there in house on couch and watch it on TV/The most you give’s a Twitter rant and call it ‘a tragedy“, diz-nos Killer Mike em “Walking In The Snow”, canção que medeia o disco. Apesar de os versos estarem relacionados com o caso de Eric Garner, muito facilmente se adaptam ao sucedido com George Floyd. Existe uma razão de ser. A história tende infelizmente a repetir-se, e as mortes de hoje igualizam as de ontem e anteontem, num círculo vicioso que só prova que os EUA ainda têm um grave problema em mãos e que este só poderá ser resolvido com uma forte e organizada luta que consiga de alguma forma alterar as fundações deste edifício mal erguido. É por isso que discursos como o de Killer Mike em Atlanta se tornam tão importantes.

A urgência de colocar nas ruas um documento imprescindível que se adapta à situação actual levou a dupla lançar RTJ4 dois dias antes da data prevista. “Que se lixe, para quê esperar”, partilhou El-P nas redes sociais. “O mundo está infestado de treta, por isso, aqui está algo cru para ouvirem enquanto lidam com isto tudo. Esperemos que vos traga alguma alegria”. O álbum, quarto na carreira de El-P e Killer Mike, carrega às costas uma forte mensagem política – como, aliás, tem sido usual na carreira dos RTJ – embebida em instrumentais possantes e muito bem estruturados, onde pouco espaço sobra para grandes melodias, floreados e orquestrações. É bombo e tarola sobre loops que nada têm de orelhudo e blocos de efeito que procuram apimentar os versos dos dois rappers. É cru, urgente, sem papas na língua. A linguagem, numa primeira análise, poderá soar agressiva e até incendiária, mas existe, acima de tudo, uma necessidade de consciencialização para dramas que vão da violência policial à desigualdade social – em “JU$T”, onde participam Pharrell Williams e Zach De La Rocha (o homem dos RATM já havia colaborado em “Close Your Eyes (And Count to Fuck)”, presente em RTJ2), os artistas abordam o dólar enquanto instrumento de escravatura próprio do sistema capitalista.

Em 2015, To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, tornou-se numa espécie de banda sonora para a instabilidade racial nos EUA, despoletada por uma nova vaga de episódios de afro-americanos mortos pela polícia, elevando o tema “Alright”, que teve a mão de Pharrell Williams, a hino do movimento Black Lives Matter – a batuta do homem dos N.E.R.D. acaba por estabelecer aqui um interessante padrão. RTJ4, poderá tornar-se, em 2020, numa espécie de TPAB. Não no que diz respeito à textura nem necessariamente ao conteúdo, que até acaba por se coincidir em vários momentos, mas essencialmente por ser um disco que ficará para sempre associado a um determinado período da história e a um conjunto de acontecimentos específicos, como as mortes de George Floyd e Rayshard Brooks, os tumultos que se geraram depois disso em diversas cidades norte-americanas e todas as réplicas que se fizeram sentir do lado de cá do Atlântico, com várias cidades como Londres, Paris, Atenas e Lisboa a saírem à rua para manifestarem a sua posição contra o racismo e a brutalidade policial. Ainda há muita estrada para andar, mas esta é claramente a direcção certa.

 

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