Redefinir a arte sem precisar de a destruir: Os Carters ensinaram-nos isso em 2018

A morte de George Floyd foi uma acendalha para vários protestos que tiveram como grande epicentro os EUA mas que rapidamente se alastraram ao resto do mundo, com especial incidência na Europa. O malogrado episódio levou também a que vários símbolos do passado colonial, directa ou indirectamente relacionados com a escravatura, fossem alvos de vandalismo. Na Virgínia destruíram-se as estátuas de Cristóvão Colombo e de Jefferson Davis, o único presidente dos confederados. Em Bristol, manifestantes derrubaram a estátua do traficante de escravos Edward Colston. Em Bruxelas, a estátua do Rei Leopoldo II, acusado pela morte de cerca de 10 milhões de congoleses, foi pintada de vermelho. A revolta chegou também a Portugal. Em Lisboa, a estátua do Padre António Vieira foi vandalizada. No porto, várias estátuas foram pintadas com lágrimas azuis. E assim consecutivamente.

Como resposta a este tipo de comportamento, vários países estão a trabalhar na retirada das estátuas dos espaços públicos, uns para preservar a integridade dos objectos, como é o caso da estátua no Sul de Inglaterra de Robert Baden-Powell, fundador dos escuteiros, acusado de ser simpatizante do regime nazi, outros por apoiarem a posição dos manifestantes, como foi o caso da presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, que apelou a que as 11 figuras da Confederação fossem retiradas do Capitólio. Banksy, por sua vez, sugere voltar a colocar no sítio a estátua que foi atirada ao mar, em Bristol, mas com uma corda ao pescoço e figuras de manifestantes a puxá-la, criando-se assim um monumento em homenagem às manifestações.

Esta é mais uma daquelas situações em que os extremos da linha se podem tornar perigosos, sob pena de perda de razão e da banalização da causa pela qual nos insurgimos. A delapidação do património não apaga nem reescreve a história, muito menos anula os manuais onde esta vem mal explicada e a glorificar episódios menos felizes, como é o caso dos Descobrimentos Portugueses, onde muito sangue foi derramado e ainda maior sofrimento infligindo. Acredito que há outras vias além da destruição em série de objectos de pedra e bronze, tratando-se de situações que podem perfeitamente ser expostas aos governos e autarquias para que se pensem em substituições, reestruturações, reinterpretações e redefinições.

Enquanto pensava nisto, lembrei-me do caso de Beyoncé e Jay-Z, que em 2018 reservaram o Museu do Louvre para gravarem o videoclip de “Apeshit”, canção de Everything Is Love. Na altura do lançamento do single escrevi umas linhas que acho que vão ao encontro desta ideia de tentarmos nós próprios mudar o peso e o significado histórico dos monumentos, das obras, das estátuas, sem precisarmos de partir nada. Aqui vai:

O Império Contra-Ataca

A digressão On the Run II já se iniciou e os números são de certa forma reveladores: 18 datas espalhadas pela Europa em estádios com capacidades que variam entre os 40 e os 80 mil espectadores – sendo que alguns dos espaços se encontram há muito lotados, obrigando à marcação de datas suplementares, como serve de exemplo o concerto no Stade de France, em Paris (14 e 15 de julho). OTR II manifesta-se, assim, bem mais ambiciosa que a primeira página desta fuga em conjunto de Beyoncé e Jay-Z, não só por visitar mais cidades europeias (em 2014 o casal passou apenas por Paris) mas também por fazer a volta ao contrário: desta vez, os Estados Unidos ficaram para último plano.

Contudo, a Europa parece não ter sido escolhida como mero local de passagem para o casal Carter. O vídeo de “Apeshit”, canção single do álbum em conjunto lançado de surpresa no passado dia 16 de junho (o anúncio foi feito no decorrer da actuação no Olimpic Park Stadium, em Londres), gravado no Museu do Louvre, em Paris, comprova-o. Beyoncé e Jay-Z escolheram o velho continente para ser palco de um dos principais episódios de uma das mais mediáticas – senão a mais mediática – telenovela amorosa a nível global. E sejamos sinceros: ter o mais emblemático museu francês como pano de fundo para esta fase do enredo não é de todo despropositado e muito menos fruto do acaso.

Já não é a primeira vez que a arte ocupa um lugar central na obra de Beyoncé e Jay-Z. Em 2013, por altura da apresentação de Magna Carta Holy Grail, cuja capa recorre à escultura Alpheus and Arethusa (exposta no Metropolitan Museum of Art), do italiano Battista di Domenico Lorenzi, Jay-Z interpretou o tema “Picasso Baby” durante seis horas na Pace Gallery, em Nova Iorque, com a captação vídeo a ser inspirada no trabalho de Marina Abramović. A canção evoca nomes como Picasso, Mark Rothko, Jeff Koons, Francis Bacon, Jean-Michel Basquiat, Andy Warhol e Leonardo da Vinci. Desta vez, O casal Carter elevou a fasquia, reservando o museu localizado na margem direita do rio Sena para a gravação de “Apeshit”, que teve como realizador Ricky Saiz.

Coloquemos a ingenuidade de parte. Esta é uma clara demonstração de poder. Ao conquistarem espaço no Louvre, algo que não está claramente ao alcance do comum mortal, Hova e B estão a puxar os galões da sua representatividade dentro do meio musical e a mostrar quem manda, que são divindades tão intocáveis quanto as pinturas e esculturas que os rodeiam, que eles são a arte dentro da própria arte.

Existe também uma incontornável mensagem racial no vídeo, a qual não pode ser logicamente ignorada. O Louvre é um museu que guarda várias peças de arte ocidental, sendo grande parte delas retratos de rostos brancos pintados por artistas brancos, como serve de exemplo a própria Mona Lisa e o seu autor. O contraste criado pelo casal norte-americano e pelo seu conjunto de bailarinos não é coincidência mas sim uma premeditada cartada. A coreografia de Beyoncé na base do quadro que representa a coroação de Napoleão Bonaparte, um dos maiores símbolos do colonialismo, tem um peso indiscritível. As palavras “I can’t believe we made it” cantadas por Queen B são o resumo disto tudo. Não só a conquista enquanto marido e mulher, a paz alcançada e a hegemonia reforçada, mas também essa “invasão” simbólica.

On The Run II dá seguimento à série iniciada por Beyoncé e Jay-Z em 2002 com o tema “03 Bonnie & Clyde”, presente do álbum The Blueprint 2: The Gift & The Curse, a qual tem como alicerce a história de Bonnie Parker e Clyde Barrow, dois criminosos norte-americanos da altura da Grande Depressão que ficaram famosos por uma série de assaltos nos Estados Unidos. Parker e Barrow iniciaram uma fuga pelas estradas americanas, intercaladas por mais assaltos e mais fugas, até terem sido mortalmente travados numa estrada do Louisiana a 23 de maio de 1934. A “fuga” do casal Carter já dura há dezasseis anos, com direito a pontuais “assaltos”: “On The Run (Part II)”, presente em Magna Carta Holy Grail, e, claro, a materialização ao vivo dos crimes de ambos, com as duas digressões conjuntas.

Dadas as circunstâncias da história mais fresca do casal, parece ter havido uma necessidade de rescrever o guião para On The Run II. Jay-Z traiu Beyoncé – seja a história real ou propositadamente forjada, pouco interessa para esta situação –, acto esse que inspirou uma boa parte dos temas amargos de Lemonade, o último disco da cantora, sendo sucedido de um pedido de desculpas por parte do rapper, no recente 4:44. Todo este condimento foi sabiamente aproveitado na presente digressão. Na introdução do espectáculo, que já é possível testemunhar no Youtube, é reproduzido um filme que mostra várias cenas íntimas do casal, bem como algumas imagens alusivas à fuga em questão. A dada altura, os perfis de Beyoncé e Jay-Z são projectados com duas legendas diferentes e bastante opostas: o gangster e a rainha (os mesmos cognomes utilizados no primeiro episódio desta longa fuga, mas, desta feita, com as portas abertas a novas interpretações). Podia haver aqui uma tentativa de camuflar ou até ignorar por completo o que aconteceu, mas não. Jay ergue-se como o mau da fita, o vilão; enquanto B assume o papel de boazinha, da vítima. E parece resultar na perfeição, pois, apesar da carregada antítese, a verdade é que não há momento em que o público não bata palmas ao casal em palco que, na verdade, é um espelho da realidade, da imperfeição entre relações, da culpa e da mágoa, do perdão e do arrependimento.

E que melhor local poderia haver para consumar esse perdão? Esse regresso à normalidade depois de uma fase tempestuosa? O robustecer da mais forte aliança matrimonial dos nossos tempos? O Louvre, claro. Local que já albergou a própria realeza francesa, palácio simbólico que alberga um recheio de valor incalculável, espaço sito em pleno coração da cidade do amor.

Esqueçam Lucious e Cookie Lion, o verdadeiro império mora aqui.

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