Jazzego: “Há música boa que precisa ser editada, escutada e seguida por mais gente”

O novo jazz está cada vez mais a ganhar um importante e inegável espaço na esfera musical, com vários músicos a lançarem trabalhos de elevada fasquia e editoras a apostarem forte nesta jovem e auspiciosa derivação do género-base. De Kamaal Williams a Shabaka Hutchings, de Londres a Melbourne e da Brownswood Recordings à International Anthem, são cada vez mais os focos de actividade, sendo que a materialização não acontece somente em álbuns e compilações mas também em eventos e festivais, como é o caso do We Out Here Festival 2020, que, não fosse esta situação pandémica, se realizaria pelo segundo ano consecutivo em Abbots Ripton, Inglaterra, entre os dias 20 e 23 de Agosto deste ano (o evento foi adiado para 2021, de 19 a 22 de Agosto). O abalo chegou também a Portugal, com vários músicos e editoras a virarem as suas antenas em direcção a este sismo de grande magnitude. Hugo Oliveira (Minus & MRDolly) e André Carvalho são os donos da ainda fresca editora Jazzego, que se predispõe a ter o novo jazz como ponto de partida para uma frutífera aventura. Miles Davis – AZAR Reworks, de Sérgio Alves (AZAR AZAR), é a primeira entrada para o selo portuense. A Ritmoterapia esteve à conversa com os criadores da Jazzego.

Muito obrigado por terem aceite o convite para esta entrevista. Assim que soube da existência da vossa editora, e visto o novo jazz ter ganho bastante destaque nas páginas digitais da Ritmoterapia, fiquei bastante entusiasmado e motivado com a ideia de falar convosco, fazia todo o sentido escrever um artigo sobre a Jazzego. Antes de mais, queria perguntar-vos como é que tudo começou, como é que surgiu esta ideia?

Hugo Oliveira: Obrigado nós. O André já tinha trabalhado comigo noutras editoras anteriores a esta, noutros projectos. A Jazzego foi uma forma de nos tornarmos mais independentes e percebermos que partilhávamos o mesmo gosto. Que havia coisas que gostávamos de editar e projectos em que acreditávamos. Isso fez com que abraçássemos o projecto de uma forma descomprometida; acho que a ideia é essa. O jazz surgiu porque sempre tivemos ligados ao género, não propriamente ao classicismo mas a todas as raízes e ao que o rodeia.

André Carvalho: Basicamente começou com uma troca de cromos entre nós os dois, de artistas dos quais gostávamos e de novas descobertas. Verificámos depois que havia muita gente à nossa volta com as qual nos identificávamos. A dada altura, por causa do Sérgio, perguntámo-nos “e se editássemos isto? E se começássemos a pensar isto de uma forma séria?”

Eu quando ouvi o Árvores, Pássaros & Almofadas [álbum de Minus & MRDolly, nome que Hugo Oliveira utiliza para assinar os seus trabalhos, editado em 2014] senti que já havia ali bastante jazz. Vai ao encontro daquilo que o Hugo dizia há pouco, de o género sempre ter marcado presença nas vossas vidas…

Hugo Oliveira: Sim, sim. Tenho muitos músicos jazz no disco, que eu convidei. Eu próprio estava a estudar piano jazz na altura. Era uma das minha ferramentas, por assim dizer. E isso acabou por ser tudo influência, acho que em todos os meus trabalhos tenho uma abordagem àquilo que considero o jazz, nem que seja através do sampling.

Curioso, não sabia que tinhas estudado piano…

Hugo Oliveira: Estudei e estou a tentar voltar outra vez, para desenferrujar.

Também é o teu caso, André? Também tens formação jazz?

André Carvalho: Não, eu sou o gajo que não percebe nada do lado criativo, só sei acompanhar, ajudar e mandar bitaites [risos].

Hugo Oliveira: E dá muitos bons inputs

O nome que escolheram para a editora dá a ideia de algo que se quer sepultado, esquecido. Querem falar um pouco sobre esta escolha?

Hugo Oliveira: Tem a ver com o assunto com o qual iniciei a conversa. Eu e o André já tivemos alguns projectos que não funcionaram assim tão bem, nos quais estávamos os dois envolvidos. Queremos continuar a aprender, e vamos cometer imensos erros como já cometemos no passado, mas a ideia será matar ou enterrar os projectos antigos e continuar com um novo. Se calhar foi uma ideia para sossegarmos um pouco com a aventura, porque nunca foi fácil ter uma editora. E hoje em dia ainda pior é. Nós sabemos que vamos errar sempre, mas mais vale enterrar as coisas em que estávamos provavelmente a gastar energia a mais e começar algo do zero.

E depois há o lado do “ego”… Tem alguma coisa a ver com o lado mais conservador do universo jazz?

André Carvalho: Existe uma noção às vezes elitista, principalmente por parte do pessoal que vem da formação jazz clássica. Do que é jazz e do que não é jazz. Isto é assim, isto é assado. Eu não tenho formação. E o Minus, apesar de ter formação, tem um background hip hop e gosta de outros géneros musicais. Nós ouvimos tudo. Posso dizer que os únicos discos que não compro são os de trance. De resto, compro um pouco de tudo e consumo um pouco de tudo. E consigo perceber a ligação do jazz com outros tipos de música, do deep house ao hip hop, até mesmo em algumas coisas de techno. A nossa ideia enquanto editora é poder lançar material jazz ou hip hop mas sempre com esse background, não tanto a nível estrutural e da composição da música em si mas a maneira como foi pensado, quase em termos de feeling. Como se o jazz fosse um sentimento e não uma estrutura específica.

Que seja uma noção mais abstrata e não tão concreta…

André Carvalho: É um pouco o que tem sido feito por algumas editoras lá fora, como a Rhythm Section INTL, que tanto consegue editar um álbum que é grande breakbeat, como serve de exemplo o dos SAUL, como tão depressa tem a cena de Pinty, que vai ao 2-step. Também tens a Jazz re:freshed, a Intergalactict Mantra, que é da mesma malta da International Anthem, de Chicago. Para mim tem sido grande cena. As releases deles, apesar de irem buscar cenas antigas, têm grandes novidades, um som muito fresco.

É curioso falares da Rhythm Section INTL, os responsáveis pela edição de um dos meus álbuns favoritos do ano até à data, Grey Doubt, dos The Colours That Rise. É uma epopeia intergaláctica, tem ali um pouco do afrofuturismo de Sun Ra.

André Carvalho: E a capa está brutal…

Pois está. Sempre tive a curiosidade de fazer esta pergunta: o que é que motiva alguém a criar a sua própria editora?

André Carvalho: No nosso caso teve a ver com o facto do Minus e do Sérgio estarem a fazer música nova. Teríamos levado mais tempo a criar isto se não existissem já projectos. A vontade surgiu porque há música boa que precisa ser editada, escutada e seguida por mais gente. E nós achámos que poderíamos ser nós a assumir esse papel. Na minha cabeça, para começar uma editora, tem que haver um propósito maior do que ser simplesmente um selo.

Hugo Oliveira: Acaba por ser um pouco uma esperança. Uma editora grande não parte desse propósito, porque olham para uma questão monetária. A questão aqui é ter a satisfação de conseguir dar esperança a projectos ou artistas com os quais nos identificamos, com quem trabalhamos directa ou indirectamente. Quando trabalhamos uns com os outros estamos a aprender. E é provavelmente essa esperança que falta a alguém que só cria. Eu se me puser no papel de músico, não acredito em metade das coisas que faço, não sei muito bem onde as vou conseguir colocar no futuro. Às vezes é preciso alguém que acredite, que possa confiar na música dessa pessoa.

E como é que funciona o vosso processo de recrutamento? São vocês que escolhem/procuram os artistas ou ficam a aguardar que esse contacto parta de quem quer fazer parte da editora?

André Carvalho: Para já, tem sido mais um papel activo da nossa parte do que outra coisa. De momento, nem sequer um email temos para receber demos.

Hugo Oliveira: Nós já temos algumas pessoas em mente com as quais partilhamos esse interesse, que podem produzir um disco com a estética da editora, mesmo que não tenham nada feito no universo jazz. Temos na proximidade alguns músicos que ponderam fazer o seu projecto a solo. Ou produtores que querem arriscar na área e que têm talento para isso. Para já, é quem temos contactado e sugerido. Mas isto de uma forma muito descontraída. É uma partilha de amizade.

André Carvalho: Com esta quarentena temos visto muitos amigos nossos a partilharem vídeos na net com gravações engraçadas. Eu e o Minus vemos esses conteúdos e trocamos ideias um com o outro, se gostamos do que estamos a ouvir. Acaba por ser quase uma partilha de ocasião.

E já há alguns artistas que possam revelar?

Hugo Oliveira: Temos o Hugo Danin, baterista que entrou no meu projecto de Minus & MRDolly, que irá sair pela Jazzego. É um projecto acústico, com o Sérgio a ajudar nas teclas e o Hugo na bateria. O Hugo, no processo de gravação, chegou a mostrar-nos algumas coisas que também lhe interessariam editar. Será uma das nossas propostas. O André também tinha em mente um rapaz que é de outra área que não jazz, mas que também faz coisas que se enquadram com a nossa estética…

André Carvalho: O Bernardo Pinhal, sim. Ele é teclista, um grande pianista de música clássica, e há umas semanas partilhou um vídeo no Facebook que está muito fixe. É uma coisa com a qual nos identificamos, mandei-lhe logo mensagem a perguntar se tinha mais material naquela onda e se nos queria mostrar. Temos também o Pedro, que é amigo, colabora connosco há já algum tempo. Ele fazia parte dos Hai, um projecto através do qual lançou o EP Going Somewhere, há três anos, pela 1980. Vai eventualmente fazer uma cena connosco, ainda não se sabe muito bem o quê.

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O Sérgio Alves, que assina os seus trabalhos como AZAR AZAR, foi o primeiro artista a ingressar na vossa editora, à boleia do disco Miles Davis – AZAR Reworks. Como é que aconteceu esta “contratação”? Já existia disco quando fundaram a editora?

Hugo Oliveira: O Sérgio está a trabalhar no disco dele já há algum tempo, desde que formámos a editora, foi basicamente ao mesmo tempo. Entretanto, a quarentena atrasou um bocado a saída desse EP. Então aproveitou a celebração dos 50 anos do Bitches Brew, e a particularidade de ser fanático por Miles Davis, para fazer uma abordagem ao disco, que também requere alguma coragem. Foi assim um processo de quarentena, a perspectivar o que podia acontecer. Acabou por levar o AZAR a fazer umas cenas mais hip hop e também house, o que também foi surpreendente para nós. Lá está, estas cenas também estão todas um pouco ligadas, estes géneros e sub-géneros que nascem de alguma coisa, que podem também servir de influência para outras. Já nem deve haver essa catalogação, eu pelo menos já não tenho.

André Carvalho: As catalogações só existem nas lojas para o pessoal saber onde é que há-de procurar as coisas. E digo-te já, eu tenho uma loja de discos e há discos que eu me vejo à rasca para catalogar, porque tenho que os colocar numa estante e não dá para meter em todas. Apesar de tudo, hoje em dia, os discos vão buscar um pouco aqui e um pouco acolá.

Um desses exemplos é o To Pimp a Butterfly, do Kendrick Lamar. É um álbum claramente hip hop que também se encaixa perfeitamente no escaparate do jazz. E não deixa de ser interessante vermos cada vez menos essa divisão, como dizem. Hoje em dia, tens músicos jazz a abordarem o género de uma perspectiva hip hop, como é o caso de Makaya McCraven, que sampla a própria música que toca…

André Carvalho: Completamente.

Hugo Oliveira: Eu acho isso muito positivo. O próprio Sérgio, que é músico antes de ser produtor, acaba por fazer a mesma cena que o Makaya McCraven. Pega nas cenas dele e sampla e volta a tocar por cima. Eu próprio tenho feito isso. Pego em coisas que toco nos teclados e em vez de usar aquilo como está, reaproveito essas ideias para outras coisas que se calhar até pertencem a outros géneros.

O mesmo acontece com Kassa Overall…

Hugo Oliveira: Ele também faz muito isso, sim. Ele inclusive veio recentemente dizer numa entrevista para o Rimas e Batidas que o hip hop e jazz são a mesma coisa.

Verdade. Há pouco falavam que o Sérgio se prepara para lançar um EP pela Jazzego, que vai suceder à releitura que fez de Miles Davis. Querem falar um pouco sobre isso?

Hugo Oliveira: Vamos lançar o single daqui a duas semanas. Estamos neste momento a preparar a cena para sair e escolher a melhor altura. O disco tem dois temas do AZAR: “Space Coconut Conspiracy”, que é o single, e “Inner World”. E depois tem três remixes. Um meu, como Mr Dolly. Um do K15. E outro do Esa Williams. Será uma antecipação do disco de longa-duração que sairá no final do ano, intitulado Cosmic Drops. A energia é assim um pouco Sun Ra, de quem falavas há pouco – é uma grande inspiração.

André Carvalho: Ao mesmo tempo sinto alguma influência de trip hop e daquela onda assim mais Jazzanova e coisas do género.

Por fim, gostava de vos perguntar se existe no Porto, mera curiosidade, algum espaço como o Total Refreshment Center, uma espécie de tubo de ensaio para a criação de projectos?

Hugo Oliveira: Sim, sim. Existem dois. A ESMAE, apesar de ser um espaço académico que existe mais para os músicos que estão a estudar lá. Volta e meia, acaba por lá haver coisas interessantes. E o Hot Five, que abriu agora um novo espaço. Há também um espaço novo, na Rua Cone de Vizela, que também costuma ter jams – abriram em Janeiro. Temos muitos músicos a fazer coisas e a ir este tipo de jams. De todos, talvez a ESMAE seja a mais acessível.

André Carvalho: Fazem cenas às terças-feiras, já vi muita coisa fixe lá.

Hugo Oliveira: Eu estava a acabar o meu ano da faculdade e senti que já havia essa abertura para experimentar coisas diferentes, cheguei a ver malta que se juntou para tocar temas de hip hop, por exemplo. Músicos de jazz a fazerem versões de Anderson Paak, de Erikah Badu. Não é assim tão comum, mas começa-se a sentir. Por incrível que pareça, acho que vem desde o TPAB, do Kendrick. Comecei a faculdade nesse ano e senti logo uma diferença. Pode até não ser muito nítida mas acho que teve muita influência, que o pessoal queria explorar outras coisas.

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