Khruangbin | Mordechai

Na capa, uma ave esvoaça por entre aquilo que aparentam ser as paisagens áridas de um deserto. Talvez o do Texas, talvez um deserto imaginado na mente dos Khruangbin, já que o desenho colorido, acompanhado de uma lua amarelada e uma constelação com a forma humana, nos dá a total liberdade de idealizar o cenário que melhor nos aprouver, independentemente de haver ou não localização GPS que o enquadre. E é precisamente essa a liberdade que sentimos quando a música do colectivo de Houston nos aterra suavemente nos ouvidos, como uma ave que encontra no seu ninho o conforto certo para descansar as asas. A liberdade de oscilar entre canções com uma índole psicadélica de inspiração Thai, como é o caso do primeiro álbum, The Universe Smiles Upon You, outras a sorrirem ao funk iraniano e mediterrâneo, como acontece em Con Todo El Mundo, o segundo trabalho, ou até a espraiarem no universo dub, algo que pode ser encontrado em Hasta El Cielo, disco em que se revisitam a si próprios.

Mordechai, o terceiro desta conta (isto sem incluir Hasta El Cielo, claro), colocado nas ruas no passado dia 26 de Junho, é, possivelmente, o álbum onde estas coordenadas se alinham todas ordeiramente e de forma fluída e harmoniosa. A faceta psicadélica intercepta-se nas guitarras de “Father Bird, Mother Bird” e “Shida”; o ritmo funk pulula em “Time (You and I)” e no tranquilo entrelaçar do baixo e bateria em “So We Won’t Forget” e “Connaissais de Face”; o dub manifesta-se na forma como as vozes e guitarras são tratadas em “One To Remember”. Tudo isto com uma manifesta subtileza que deixa bem longe a ideia de uma aplicação forçada ou sequer da ausência de viaduto de conexão entre os diferentes elementos. E depois há aquele imaginário texano, árido, muito bem evocado nas taroladas secas e nos bombos gordos e ao mesmo tempo laços. São algo poeirentos, até, inspirados nos longos quilómetros de alcatrão rodeados de dunas e cactos, que, compreensivamente, não conseguem reverberar a vibração das peles da bateria. Mas até nisso os Khruangbin conseguem articular a sua liberdade criativa, ao humedecer a mistura com vozes que, por vezes, se deixam regar de longos reverbs – ouvir “First Class” e “Dearest Alfred”.

É precisamente na componente vocal que podemos encontrar a grande diferença entre Mordechai e os trabalhos anteriores. A voz, que até à data se mostrara muito pouco presente na mistura, passa agora para primeiro plano, na linha da frente, mesmo ao lado dos restantes instrumentos, com o mesmo protagonismo. É principalmente Laura Lee, baixista, que canta, apesar de haver momentos em que se ouvem vozes masculinas nas músicas, como serve de exemplo o diálogo de “Connaissais de Face”. Laura Lee, que retirou as letras de um diário que começou a escrever depois de uma caminhada revigorante com um amigo chamado Mordechai, assina alguns dos momentos mais altos e também orelhudos do disco, principalmente nas líricas da dançante “Time (You and I)”, da castelhana “Pelota” e da meditativa “So We Won’t Forget”. Em momentos com o o que vivemos actualmente, com os EUA em erupção depois das mortes de Breonna Taylor, George Floyd e Rayshard Brooks às mãos da polícia, acompanhada de toda a situação do coronavírus e rematada com a postura altiva, intolerante e incompreensiva de Donald Trump, sabe bem escutar álbuns que, por momentos, nos transportem para a calma de um deserto que nos cabe a nós desenhar e cuidar.

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