Branko | Enchufada Na Zona Vol.2

Desde os tempos das suas aventuras a bordo dos Buraka Som Sistema que Branko tem desenvolvido uma importante componente: a de incendiar as pistas de dança por onde passa, colocando como que uma espécie de soalho vibrante debaixo dos nossos pés que nos obriga a movimentar as pernas em busca do equilíbrio e, por consequente, a abanar as ancas. Não basta conjugar bombos e tarolas numa estipulada cadência, entrelaçados com baixos gingões e melodias que servem de molde ao ouvido. É preciso ter uma intrínseca noção do que é necessário para levar uma pista de dança ao ponto certo de ebulição, aquele exacto momento em que as mentes se libertam das naturais preocupações do quotidiano e convidam o corpo a dançar numa singular e enérgica catarse. Esse patamar de sabedoria só é alcançado depois de muitos anos de prática e depois de muitos clubes tomados de assalto, algo que surge sublinhado no vasto currículo de João Barbosa. Imagine-se a quantidade de espaços que o produtor português pisou com a sua antiga banda, numa altura em que ainda respondia por Lil’ John, e ainda aqueles que actualmente conquista no seu percurso a solo.

Editar uma compilação como a Enchufada Na Zona Vol.2 em pleno momento de pandemia pode parecer, numa primeira análise, algo descabido – afinal de contas, que pistas de dança é que temos à nossa disposição para podermos sequer usufruir desta contagiante vibração? Não há Lux, Lontra ou B.Leza que nos possam escancarar as portas para desfrutarmos em condições desta colecção de músicas. Contudo, se olharmos para a actividade de Branko durante estes meses de distanciamento social facilmente percebemos o porquê deste lançamento ter acontecido agora. Estamos a falar de um dos artistas que maior proximidade manteve com os seus fãs desde o momento em que a COVID-19 nos atirou a todos para o abrigo das nossas casas, longe dos ajuntamentos sociais e, claro, a milhas de qualquer evento musical. A tecnologia e as redes sociais foram a grande arma de Branko para garantir que os corações de quem o acompanham batessem na cadência do seu ritmo, aquele que tantas vezes saltou dos altifalantes nas noites Hard Ass Sessions e Na Surra. Vimo-lo a transferir o concerto que tinha agendado no Tivoli para a sua sala de estar, em pleno dia de aniversário, via Instagram; vimo-lo remotamente a tomar conta da Avenida da Liberdade com Dino D’Santiago, no dia 25 de Abril; vimo-lo a passar música a partir de um telhado nas imediações da Basílica da Estrela, com Lisboa, a sua grande inspiração, a servir de pano de fundo; vimo-lo no Enchufada Na Zona On Air, um festival on-line que viajou pela música da recentemente editada compilação, emitido a partir do Lux; e houve ainda quem tivesse a sorte de ver o artista em carne e osso a subir ao palco do Tivoli, para dois dias de concertos com apertadas medidas sanitárias.

Branko ensinou-nos a dançar de outra forma, em casa, longe dos graves puxados do sistema de som de um clube, longe dos balcões onde se consomem quantidades industriais de álcool. Ensinou-nos a exorcizar os demónios anexados a toda esta situação do coronavírus, a sorrir, a abanar a anca no conforto dos nossos lares, a olhar para a frente com positivismo. “SDDS”, um dos temas que podemos encontrar nesta compilação, procura isso mesmo. A ideia não é exercitar a nossa crónica nostalgia, que nos leva a suspirar pelos tempos em que tudo era normal, quando banalizávamos coisas simples como um abraço ou um aperto de mão. “SDDS”, com a sua vibração agradável e ritmo construtivo, sugere-nos que olhemos para a frente de cabeça erguida e que tentemos a todo o custo transformar o menos em mais. Não é um triste fado mas sim um alegre adágio, com um andamento que serve de combustível a um amanhã risonho, recheado de esperança. São as saudades de algo que ainda está para vir. Branko tem sido um dos maiores embaixadores das boas vibrações, aquelas que dão alento, aquelas que nos fazem subir o volume da aparelhagem lá de casa e saltar do sofá para dançar ao som do seu livestream. E é por isso que a compilação Enchufada Na Zona Vol.2 faz todo o sentido, ainda que editada numa altura em que as pistas de dança ainda são uma miragem. E fá-lo através de temas inéditos, edits e remisturas, onde saltitam nomes como Rose Juam, Dino D’Santiago, Umi Copper, Studio Bros, Dengue Dengue Dengue, Lua Preta, Gafacci, PEDRO, Catalina García e Vanifox, entre outros.

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