A velha teoria de que os supergrupos raramente geram boas colheitas aplica-se na perfeição aos Dinner Party, colectivo formado por Terrace Martin, Kamasi Washington, Robert Glasper e 9th Wonder. “Freeze tag”, o single que nos deu a conhecer esta aventura, ainda chegou a estimular os ouvidos, mas o resultado final é desolador: uma entrada tão boa para um prato principal muito fraco, que mais uma vez mostra que o vector resultante nem sempre iguala o potencial das forças envolvidas. Na bancada de preparação, um forte elenco de cozinheiros: Terrace Martin (músico e produtor, responsável pela californiana Sounds of Crenshaw), Kamasi Washington (reconhecido e muito aplaudido saxofonista, um dos nomes fundamentais da Brainfeeder de Flying Lotus), Robert Glasper (pianista e produtor musical) e 9th Wonder (um dos incontornáveis nomes no campo de produção hip hop). Na hora de refogar, um claro cancelamento entre estas tão activas energias – e nem o facto destes nomes já terem trabalhado com Kendrick Lamar, principalmente no enorme To Pimp a Butterfly, parece favorecer este jantar festivo.

Dinner Party até começa bem, ao som de “Sleepless Nights”, esta que é a primeira intervenção de Phoelix, um convidado quase titular no disco. A toada de balada, onde os acordes de piano servem de cama para uma compassada bateria, simples melodias de saxofone e um percurso vocal carregado de soul, serve bem o propósito introdutório de um álbum que se adivinharia empanturrado de ideias – afinal de contas, é isso que se quer de uma equipa de luxo como esta. “Love U Bad”, novamente com Phoelix, não cumpre. A bateria é interessante mas a repetição de acordes não traz nada de novo àquilo que se tem feito no hip hop nos últimos quarenta anos. Nem a voz a simular um loop de sample e o saxofone a realizar umas tímidas aparições fazem sentido nesta estranha composição. Dinner Party vai evoluindo, não se sabe é muito bem para onde. A dada altura afasta-se da soul bem executada de “From My Heart and My Soul” e aposta numa recta de hip hop instrumental com “First Responders” e “Mighty Tree”. Entende-se a ideia de querer petiscar em vários universos, como é normal e como tantas vezes por aqui se defende, mas em Dinner Party não parece haver uma lógica, um fio condutor. Se a chegada a “Freeze Tag” em nada se coaduna com a estrada instrumental que a antecede, o teor da sua letra, muito actual, evocando rapidamente os malogrados episódios de Breonna Taylor, George Floyd e Rayshard Brooks, contracena abruptamente com os vocoders à anos noventa de “LUV U”, o tema que encerra esta refeição. Excelentes cozinheiros, sem dúvida alguma, mas a ausência de um bom chef que injecte novas ideias e interligue as diferentes iguarias propostas faz-se claramente notar.