Em “6a Feira”, canção do álbum Projecto Inoxidável II (2004), de DJ Kronic, Sam The Kid serve-nos uma maratona de sete minutos sobre a história de um perverso casal que tenta o tudo por tudo para conseguir um instrumental seu. Ela, Janice, chega a enveredar por um enredo de sedução que a leva até ao Quarto Mágico, o berço da criação. No interior do quarto, Janice depara-se com a colecção de MiniDisks de Sam The Kid e cozinha uma manobra de diversão para roubar um para si, na esperança de o entregar ao namorado rapper. O furto é imediatamente descoberto pelo produtor, que se apressa a desmascarar as intenções de Janice, informando-a, já no fim, que o objecto que guardara na lingerie está virgem e que o seu maquiavélico plano fora em vão.

Verdade ou ficção, o que importa reter aqui é que nos é sempre fácil imaginar este mágico quarto, recheado de discos, MiniDisks, samplers, caixas de ritmo e outras máquinas que permitem descodificar a informação para os sempre atentos ouvidos de Sam The Kid, o género de produtor que ouve música numa dimensão diferente da nossa, tirando radiografias a cada excerto de áudio e dividindo-o automaticamente em diferentes camadas, como se de uma profunda e afinada sonda se tratasse. O que para nós é uma simples melodia de guitarra ou piano, é para si uma pedra basilar para a construção de um beat. É um processo compulsivo, ao ponto de Sam coleccionar uma vasta quantidade de instrumentais nunca editados, inacabados e em estado de maquete. Temas como “6a Feira” ajudam-nos a traçar esta ideia, mas há outros indícios palpáveis: recentemente, Sam The Kid arrancou um directo na sua conta de Instagram, onde se fez valer do seu leitor de MiniDisk para desfilar uma série de instrumentais. Falamos de muito mas mesmo muito material, inclusive produções fora do universo hip hop – até kuduro marca presença no seu repertório.

No dia do seu 41.º aniversário, Samuel editou Caixa de Ritmos, um álbum em que compila dezoito instrumentais nunca editados, retirados da sua majestosa colecção. Não se trata de um Beats Vol.1: Amor, no sentido de não ter uma aparente história para contar, mas de uma espécie de expositor criativo, uma compilação de material sem minucioso detalhe, um edifício sem refinados acabamentos. É mais cru, por assim dizer. Não só na estrutura, por vezes longe da normal ideia de intro-verso-refrão-verso-refrão, mas também na própria duração das músicas. Se em Beats Vol.1: Amor os instrumentais ultrapassavam facilmente a barreira dos quatro minutos, em Caixa de Ritmos, que vai buscar o nome às caixas de sapatos onde Sam The Kid guarda os seus MiniDisks, num bem conseguido trocadilho, as produções cingem-se a uma média de dois minutos e meio, sendo que a faixa mais longa usufrui de 3’28” para se expressar.

Caixa de Ritmos fina-se em 42 minutos e aposta forte em beats de recorte clássico, algo que está muito presente em temas como “Dedicação” (a abertura, onde se escutam importantes vozes do hip hop nacional), “Despertar” (passeio até ao outro lado do Oceano Atlântico); “Bons Bocados” (um familiar exercitar de vozes e violinos), “Fanático” (aquilo que seria uma boa base de trabalho para os Orelha Negra), “XL” (efeitos de videojogos que pulam por entre os bombos e tarolas), “Shorty” (o evocar dos anos 90), “Fds” (estrutura muito similar a “Body”, o recentemente editado tema onde partilha protagonismo com os GROGNation) e “Duro” (sample feroz e batida severa, implacável), citando apenas alguns exemplos. Estamos perante uma lista de instrumentais muito bem construídos, com uma boa manipulação de samples, onde a única coisa que falta mesmo é um baixo mais presente que rasgue a mistura com personalidade ao invés de servir de mera base harmónica.

O grande destaque deste disco vai, contudo, para os temas em que Sam mais se afastou da receita tradicional. “Perco Tempo” é um desses exemplos, com um ritmo agitado e umas taroladas que fogem constantemente à arrumação da grelha. Segue-se “Era”, que explora duas cadências bastante distintas: uma directa e vigorosa; outra fraccionada e acompanhada de palmas. Mais à frente, “Mãe Solteira” coloca bombos e tarolas sobre o wah wah de uma guitarra; “Check Sound” joga com aceleração e desaceleração; “Billy” recheia-se de contratempos; “Lara Li Shit” articula um áudio escuro, sombrio, rematado com uma interessantíssima recta tribal; “Fingir” liberta-se da batida e dá o merecido ênfase ao sample; “À Frente” trata da despedida com uns degraus melódicos e uma tarola que bate na cadência de um relógio. Há espaço para o Sam clássico, mais seguro e intocável, mas também para o Sam que arrisca piscar o olho a outras texturas. Caixa de Ritmos representa isso mesmo: um álbum que experimenta, aqui e ali, novas paisagens, ainda que falemos de instrumentais antigos. Talvez os kuduros que Sam The Kid mostrou no seu live do Instagram possam ser encaixados numa próxima aventura do género. Quem sabe.