Kamaal Williams | Wu Hen

Assim como a noite é vencida pelo o dia e o dia dá novamente lugar à noite, também Wu Hen, o mais recente álbum de Kamaal Williams, parece apostar numa sucessão cíclica. “Street Dreams”, que conta com a preciosa mão do multi-instrumentista Miguel Atwood-Ferguson (assim como acontece em “1989” e “Toulouse”), sugere o amanhecer, o despertar depois de uma noite agitada que nos conduzirá a mais uma volta no carrossel do quotidiano. O arranjo de cordas traz à mente a alvorada, os raios de sol a rasgarem o horizonte, o amarelado corpo luminoso a resplandecer depois de uma noite escura e gélida. “One More Time”, a canção que se segue, é o tiro de partida para uma nova jornada citadina, com a azáfama a fazer-se sentir nas teclas de Williams, prontamente secundadas por um nervoso bloco de bateria e pela força motora do baixo, complemento importante para a locomoção. “1989” cola directamente com “One More Time” mas propõe, com a sua cadência, um abrandar dos motores, a chegada ao final da tarde, quando tudo se acalma e nos deparamos com o prefácio da agenda nocturna. Há novamente cordas a embelezarem o ramalhete, acompanhadas de suaves pronúncias de saxofone.

“Toulouse” arranca a noite com um passeio pela Praça do Capitólio ou com uma fotografia à fachada da Basílica de Saint-Sernin. O recorte aqui é mais clássico, noctívago, guiado pelas notas graves do piano de Williams, uma curiosa mudança na textura do disco que até agora investira em sonoridades mais modernas, com um maior sentido de inovação, nos campos da nova vaga londrina. “Pigalle”, o jantar. A mais longa canção de Wu Hen, numa vénia a John Coltrane, coloca os talheres sobre a mesa e convida-nos para uma sessão jazz na Cidade Luz, em plena zona boémia.

“Big Rick” faz a ponte para o próximo capítulo da escuta, uma recta destinada à pista de dança, onde os corpos são entregues ao movimento. “Save Me” carrega às costas as primeiríssimas vibrações house, garantidas pelo andamento da música e, mais concretamente, pelo prato de choque aberto da bateria, que entra em conformidade com o groove contagiante do baixo. Segue-se “Mr Wu”, tema através do qual Kamaal Williams imprime uma nova energia dançável, servindo também de homenagem ao nome com o qual assina os seus trabalhos de DJ e produtor, Henry Wu. Facilmente se idealiza aqui o interior de uma concorrida discoteca, recheada de luzes intermitentes, PA de alta potência e uma cabine de DJ disposta em palco com o desfilar de conteúdos vídeo em tela colocada à retaguarda. E fumo, muito fumo. Tanto quanto aquele que surge na capa do disco, ou mesmo aquele que, no curto vídeo de apresentação do álbum partilhado nas redes sociais, se solta do cigarro de natureza duvidosa erguido pelo misterioso ninja.

Depois da dança, o regresso à calma. “Hold On” coloca o travão na locomotiva de “Mr Wu”, com a belíssima voz de Lauren Faith a assumir o principal papel desta que é a única música cantada do disco. É o momento que antecede o acender das luzes da discoteca, o derradeiro gole na bebida espiritual, o despertar da mente para mais um ciclo, o adeus ao conforto do escuro para reencontrar a luz, o calor humano que será trocado pelos igualmente aconchegantes raios do astro-rei. “Early Prayer” é a oração que abre as portas ao crepúsculo, a meditação no táxi que nos leva de volta ao matutino “Street Dreams”. E tudo recomeça.

Existe ainda outra faceta de Wu Hen que merece ser evocada. O título inspira-se na alcunha que a avó de Williams lhe deu quando este era novo, contudo, a fonética facilmente se confunde com a de Wuhan, cidade chinesa que foi o epicentro do coronavírus. Kamaal é filho de mãe taiwanesa e mantém, por isso, fortes ligações com os países asiáticos. Existe, além disso, uma evocação de um imaginário oriental que vai desde a personagem japonesa citada nas publicações nas redes sociais, o tal misterioso ninja, à capa do álbum onde surgem caracteres Han, somando-se ainda o tema “3 Yourself”, presente no disco Live at Dekmantel Festival, cujo vídeo compila várias imagens captadas no auge dos protestos de Hong Kong, no final de 2019. Numa altura em que os crimes de ódio contra a população asiática sobem em flecha no Reino Unido por causa do coronavírus, este poderá ser, apesar de o músico nunca o ter afirmado em entrevistas ou comunicados de imprensa, um breve apelo de paz.

 

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