Oscar Jerome: “Acho que é importante os artistas utilizarem a sua voz para procurarem a mudança”

Guitarrista, vocalista e compositor, Oscar Jerome é um nome que não pode ser colocado de parte quando do novo jazz britânico se fala. Começou a aprender guitarra aos oito anos e completou os estudos jazz na emblemática Trinity Laban Conservatoire of Music and Dance, em Londres, onde estiveram matriculados nomes como Fela Kuti, John Barbirolli, Edith Coates e Margaret Price. Antigo guitarrista dos KOKOROKO, colectivo que abandonou recentemente para se poder dedicar à sua carreira a solo, Jerome já colaborou com vários outros artistas e prepara-se agora para lançar o seu álbum de estreia a solo, Breathe Deep, com edição marcada para o próximo dia 14 de Agosto, pela Caroline International. A Ritmoterapia conectou-se ao músico britânico via Zoom, numa conversa que abordou obviamente o álbum que está na calha mas também questões relacionadas com a actualidade, do movimento Black Live Matters à crise dos refugiados, não esquecendo, claro, a COVID-19.

OJ 2020 (Credit - Denisha Anderson)

Olá Oscar. Novo álbum quase a sair, como é que te sentes?

Olá. Estou à espera deste momento há muito tempo. Considerando tudo o que está a acontecer, nem parece verdade. Mas sim, estou muito entusiasmado.

Era suposto o teu disco ser editado no dia 10 de Julho, contudo, foi adiado para dia 14 de Agosto. Esta mudança de planos está directamente relacionada com o coronavírus?

Foi originalmente adiado por causa do coronavírus, sim. Mas aconteceu muita coisa nesta altura, da COVID-19 à questão do Black Lives Matter, não me senti confortável a promover o meu álbum ao mesmo tempo que estes assuntos se estavam a tornar numa prioridade no nosso dia-a-dia. As redes sociais tornaram-se num importante veículo para que essa mensagem fosse ouvida. Seria sempre uma altura importante, claro, mas eu não senti que fosse a certa para o fazer, por isso atrasei-o um pouco.

Algumas das músicas que entram neste disco foram escritas há alguns anos, como serve de exemplo “Give Back What You Stole From Me”, que é de 2016. Quando é que começaste exactamente a preparar este trabalho?

Algumas destas músicas foram escritas há muito tempo mesmo, mas, em termos de gravação, aconteceu no decorrer do último ano. O grande foco de trabalho, contudo, aconteceu em Janeiro e Fevereiro, depois de ter regressado de uma digressão em Dezembro. Foi quando decidi juntar tudo, misturar e desenvolver o produto final.

És guitarrista nos KOKOROKO e tens também o teu projecto a solo, no qual cantas e tocas também guitarra. Como é que fazes para gerir isto tudo?

Na verdade, já não estou a tocar com os KOKOROKO, por causa do meu projecto a solo – estava a ocupar muito do meu tempo. Estive envolvido com eles durante muito anos, ainda somos muito amigos e ainda nos vemos frequentemente, mas a dada altura senti que eles precisariam de alguém que estivesse presente no projecto a tempo inteiro. Escrevo e interpreto músicas ao vivo desde os meus 14 anos, e coloquei isso de parte quando comecei a tocar guitarra para outros artistas, em diferentes projectos. Estou extremamente agradecido, aprendi muito com isso, adoro tocar outras músicas que não sejam as minhas. Mas nesta altura da minha vida senti a necessidade de investir mais em mim mesmo, no meu projecto.

A tua aprendizagem de guitarra vem de tenra idade, certo? Onde é que estudaste?

Sim, comecei a aprender guitarra com oito anos e tive aulas de guitarra toda a minha vida. Estudei jazz na Trinity Laban Conservatoire of Music, em Londres.

No comunicado de imprensa que me foi enviado sublinha-se que trabalhaste com elementos dos Ezra Collective e dos Sons of Kemet no teu álbum, um verdadeiro cardápio de luxo no que ao jazz londrino diz respeito. Quem entra ao certo?

A única pessoa dos Ezra Collective que entra no meu álbum é o Joe Armon-Jones, nas teclas, que também tem a sua carreira a solo. Dos Sons of Kemet, entra o Tom Skinner, na bateria. Tenho uma série de grandes músicos, sim, apesar de não serem os principais – tenho uma banda que me acompanha ao longo do disco todo.

E da tua antiga banda, os KOKOROKO, quem participa?

Dos KOKOROKO entram o Ayo Salawu, na bateria, a Richie Seivwright, no trombone, e a Sheila Maurice-Grey, no trompete.

BREATHE DEEP COVER

“Sun For Someone”, um dos teus singles, versa sobre as alterações climáticas e a urgência de fazer algo que mude, de alguma forma, o paradigma em que vivemos. Consideras-te um activista ambiental?

Eu não sei ao certo como defini-lo, na verdade. Tentei usar a posição que criei, de chegar às pessoas com aquilo que tenho para dizer, para transmitir coisas que eu acho que possam ser úteis para o mundo. Acho que é importante os artistas utilizarem a sua voz para procurarem a mudança. É algo em que tenho pensado muito. Se conseguires que o teu público se conecte emocionalmente com a tua música, podes fazê-lo sentir algo. Não consigo definir ao certo qual o meu papel, mas acho que é isto.

Em “Your Saint”, que conta com a participação de Brother Portrait, debruças-te sobre a crise dos refugiados. Li que a ideia para música surge de uma experiência que viveste em Paris, com refugiados sírios. O que aconteceu ao certo?

Escrevi a letra quando estava em Paris, o meu irmão vivia lá. Fiquei na casa dele e vi muitas famílias de refugiados a viver em estações de Metro. Tem muito a ver com a localização geográfica de um país, a distância a que se encontra desses países que estão em guerra. No Reino Unido ouvimos falar disso nas notícias, mas estás muito menos exposto, apesar de também teres muitos refugiados. O que eu vi levou-me a pensar no quão hipócritas somos em vários aspectos. A França é um país baseado em valores cristãos, assim como Reino Unido, onde muitas vezes se usa o chavão “ajuda um vizinho”. Mas quando vês estas pessoas a fugirem de situações extremas, a correrem perigos para encontrarem um lugar seguro, com crianças ao colo, a ideia já não é aplicada. É muito hipócrita. O que eu canto é baseado no Velho Testamento e em Mitologia Grega, estabelecendo um termo de comparação entre uma jornada ao longo do Rio Styx, que divide a Terra e o Submundo [inferno], e as jornadas destas famílias que querem chegar à Europa. Há muitas coisas estranhas que se conectam aqui. O sítio na Grécia onde o Rio Styx é suposto começar, por exemplo, equivale ao local geográfico onde muitas dessas pessoas acabam as suas jornadas. Sou uma espécie de orador na música, mas depois há o Brother Portrait, o rapper convidado, que veste a pele das famílias que embarcam nessa jornada.

Infelizmente, a tendência muitas vezes é acharmos que não temos nada a ver com os problemas dessas famílias e querer de forma egoísta que voltem para o seu país, ao invés de tentarmos perceber o que os levou a tal e, com isso, tecer algum tipo de ajuda…

As pessoas são vistas como meros números e objectos, do género “és propriedade do teu país, das fronteiras do teu país”. É uma criação muito recente. Essa divisão criada pelo Ocidente é a raíz da ausência de paz nesses países. A ideia de lavarmos as nossas mãos dessa responsabilidade é errada.

Vivemos tempos de elevada agitação social por causa da morte de George Floyd e Breonna Taylor às mãos da polícia. Recentemente, em Portugal, um idoso matou um rapaz negro na esplanada de um café, à luz do dia, naquilo que se acredita ser um crime de ódio racial. Sendo um artista vive num país que também tem os seus problemas raciais, gostava de te perguntar o que é que sentes com tudo isto? Achas que as coisas estão melhores, piores ou iguais ao que eram há uns anos atrás?

Não sei se está necessariamente pior, acho que nos é permitido ver mais, as pessoas filmam as coisas nos telemóveis. O racismo sempre existiu e evoluiu de formas diferentes. Por vezes pensamos que as coisas ficaram melhores relativamente aos anos 60. E sim, em alguns aspectos, as coisas ficaram melhores, mas, de certa forma, a disparidade está mais disfarçada. Mas a consciência em torno destas coisas e a elevação da opinião pública tem sido muito importante, e isso é bom. Vês muitas empresas e figuras da indústria musical a quererem saltar para o centro do assunto e mostrar que se importam, muitas vezes através de publicações na internet. Eu acho que o verdadeiro trabalho começa agora, ao endereçar estas coisas às instituições. Porque muitos daqueles que estão no poder não querem realmente saber. Dizem que sim, mas é mentira. Afirmam uma coisa, viram as costas, e regressam a dizer outra completamente diferente, altamente contraditória. É óbvio que não querem entender o problema. Eu acho que podemos todos tentar aprender com aquilo que as pessoas discriminadas estão a dizer e tentarmos viver isso nas nossas vidas. Não só é muito importante ser-se contra o racismo como também é muito importante elevar a voz de quem sofre com isso, porque vai-nos sempre ser mais fácil entender os seus problemas se forem eles a falar das suas experiências.

E a música é sem dúvida um excelente veículo para essa transmissão de informação…

Nós músicos somos contadores de histórias, temos a possibilidade de falar destes problemas. É também muito estranho porque há quem preste mais atenção à voz dos músicos do que à dos próprios activistas, que passaram a vida inteira a trabalhar na área. Os músicos são dotados de um imenso poder, sendo que, em alguns casos, nem deveriam ter acesso a metade, já que há quem não seja assim tão formado nessa matéria. Eu acho que é importante utilizar as plataformas para falar sobre isto, concordo a 100%, mas acho que as suas vozes não deviam ser erguidas acima das pessoas que estão na linha da frente a trabalhar árduo. Eu acho que muitas vezes nós, enquanto músicos, devíamos era trabalhar para elevar a voz desses activistas.

Um ponto muito interessante em que tocas, de facto. Quero fazer-te mais uma pergunta em torno do teu álbum, e tem a ver com o tema “Timeless”, em que participa Lianne La Havas. Como se deu esta conexão?

É uma amiga, estive com ela a noite passada num pub. Apoiou-me muito no passado, convidou-me para tocar num dos seus espectáculos – toquei uma das minhas músicas e toquei outras com a banda. É da mesma área onde eu vivo, temos muitos amigos em comum. É uma artista que eu sigo muito, foi muito bom ter entrado nesta música, que é muito pessoal para mim, foi escrita para o meu pai. Ela ajudou-me muito a dar-lhe vida. Venero-a imenso. Na minha opinião, enquanto artista que canta e toca guitarra solo, é uma das melhores de sempre.

Por norma, um músico lança um disco e parte quase directamente em digressão. À luz da situação actual, esta deixou de ser uma normalidade. Tens alguma coisa marcada para este ou o próximo ano?

É suposto eu partir em tour pelo Japão em Setembro – aparentemente ainda vai acontecer. É também suposto eu ter uma digressão em Outubro e Novembro, mas estou à espera de perceber se vai mesmo para a frente. Tenho algumas datas marcadas para o próximo ano – até acho que tenho umas marcadas em Portugal, na verdade. Não tenho 100% a certeza, mas acho que sim. Temos datas em Espanha, por isso, mesmo que esteja errado, tenho a certeza que vai ser fácil encaixar uma ou outra em Portugal.

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