Melodia e ritmo, silêncio e agitação, corpo e mente: tudo isto cabe no UM YANG de Emma-Jean Thackray

A capa de UM YANG, o mais recente trabalho de Emma-Jean Thackray, descodifica-nos imediatamente uma importante informação sobre o seu conteúdo: na imagem, a artista britânica surge simetricamente espelhada mas com duas expressões faciais diferentes: à esquerda, a esboçar uma cara séria e, à direita, um rasgado sorriso. Um Yang (o nome coreano para o conhecido Yin Yang) baseia-se numa filosofia taoista que expõe a dualidade de tudo o que existe no universo. É usada para descrever a união de forças aparentemente opostas, as quais vivem entrelaçadas e interdependentes no mundo natural, dando origem uma à outra. Na natureza não há absolutos. As linhas que separam conceitos ou pontos de vista opostos raramente são definidas com nitidez, mudando gradualmente. O efeito é um equilíbrio entre dar e receber, promovendo a harmonia.

Criada em Yorkshire mas sediada em Londres, Thackray herdou estas bases taoistas do seu pai e tem, ao longo da sua carreira, aplicado a harmonia do Um Yang, contrabalançando melodia e ritmo, pautas e improvisação, silêncio e agitação, o que é do domínio do corpo e o que ascende ao espírito. Não é ao acaso que a sua recentemente formada editora, Movementt, tem como grande mote fazer mexer o corpo, a mente e a alma, ou, como a própria informou aquando da revelação do selo, “a união do visceral, do cerebral e da música que nutre a alma”. É que a trompetista, compositora, cantora, beatmaker e DJ britânica procura ao máximo que a sua música estimule o nosso lado físico mas também o psíquico, num compromisso total e imersivo.

“UM”, o lado A desta proposta musical, arranca calmamente com modestos ambientes e tímidas notas de Fender Rhodes (Lyle Barton), pontuadas com o suave suspiro do trompete de Emma-Jean Thackray e do saxofone de Soweto Kinch. Mais à frente, depois de uma curta vírgula para alinhar as energias e respirar fundo, como quem se prepara para subir uma íngreme montanha, a bateria (Dougal Taylor) tranca o ritmo da composição e transporta consigo a percussão (Dwayne Kilvington e Crispin Robinson), aos quais se juntam novamente os metais, desta vez com Ben Kelly no sousafone (instrumento da família da tuba) a garantir as camadas graves. Aumenta a agitação entre os instrumentos à medida que a canção se aproxima do fim, altura em que a voz de Thackray decide expressar-se por entre o bloco de concentradas frequências. “UM” finda no apogeu da energia acumulada, no cume da montanha que se comprometeu a subir, naquele preciso momento em que o batimento cardíaco atinge o valor mais alto. “YANG”, o lado B, aproveita a força gerada e arranca fugaz, descendo vertiginosamente a encosta até encontrar novamente a calma que o transporta harmoniosamente pelo menos acentuado vale, onde o sousafone assume quase o papel de guia rítmico até ao momento em que os instrumentos desvanecem na mistura.

Convidada pela Night Dreamer Records para gravar UM YANG directamente para vinil no estúdio vintage Artone, localizado em Haarlem, Holanda, Emma-Jean Thackray mostrou-se entusiasmada por capturar este projecto específico num take apenas, sem edição ou overdub. “Gravar no Artone foi verdadeiramente um sonho”, pode ler-se nas notas de Thackray que acompanham a edição. “Tinha todo o equipamento analógico que sonhas conseguir utilizar um dia. A mesa de mistura é algo que Uhura [personagem do Star Trek] usaria. Todos os instrumentos eram naturais, de madeira e metal, sem plástico à vista, e tudo era para ser tocado ou soprado, tudo analógico. Eu precisava mesmo que tudo fosse natural, porque a música é sobre o universo, sobre a energia das coisas todas, e não há nada mais real do que  isso”, conclui.

UM YANG transmite fidedignamente a ideia de dois opostos que se misturam no mesmo espaço, divididos por uma linha muito ténue e permeável, ao ponto de nos permitir, num segundo, desfrutar de refrescantes brisas de metais, e, no outro logo a seguir, embrenhar-nos nas complexas e agitadas teias rítmicas. Existe um jogo de pergunta e resposta entre este Um Yang, mas existe, sobretudo, um ponto onde as duas facetas conseguem coexistir harmoniosamente, numa pura associação simbiótica.

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