Pela união e pela mudança. A moderna morna de Dino D’Santiago no A COLORS SHOW

Há dias, em conversa com a Ritmoterapia, Oscar Jerome sublinhou a importância de os músicos usarem a sua voz, e o privilégio de conseguirem alcançar milhares – e às vezes milhões – de pessoas com a sua arte, para procurarem a mudança. Acrescentou ainda, a dada altura da entrevista, depois de uma breve reflexão em torno da actual agitação social causada pelas mortes de George Floyd e Breonna Taylor às mãos da polícia, que uma das formas de alcançar essa comutação mental poderá passar por um músico não utilizar necessariamente essa rampa mediática para erguer as suas ideias, mas sim para elevar a voz de quem trabalha diariamente nessas causas, como os activistas e as instituições. Um ponto de vista muito interessante, sem dúvida.

O caso de Dino D’Santiago é muito particular. Além de ser um dos grandes embaixadores da lusofonia e de ter pavimentado um percurso singular de mérito próprio, auxiliando na propagação das texturas e sonoridades da nova Lisboa, o músico luso-cabo-verdiano tem-se revelado um verdadeiro activista na luta contra o racismo, não utilizando a sua música como mero e importante veículo de transmissão de informação, mas congestionando – no bom sentido, claro – as redes sociais de publicações de teor interventivo. Vimo-lo a erguer a sua voz aquando da morte de George Floyd, através das palavras “enquanto o nosso eco for ‘este é um problema deles’, ‘isto não acontece aqui ou ali’, seremos todos culpados por perpetuar estas barbaridades que se replicam a cada 9 minutos”; e vimo-lo, meses depois, a mostrar a sua revolta com o episódio de Bruno Candé, morto a tiro em Moscavide. Pelo meio, deu a cara em manifestações, marcou presença em programas como Cá Por Casa e Maluco Beleza, estimulou a discussão, canalizou a necessidade de ajuda e apoio a causas, e aproveitou o facto de estar no palco do Coliseu dos Recreios, no âmbito da gala dos Play – Prémios da Música Portuguesa, para pedir silêncio em homenagem ao falecido actor. Sempre que pode, o artista de Quarteira utiliza a sua força enquanto figura pública para procurar mudar mentalidades.

E depois há a música. Não são poucas as vezes que as palavras, frases e estrofes de Dino evocam conceitos como mistura, união e igualdade. Quando exalta a nação crioula no tema “Kriolu”, que tem como convidado Julinho KSD, presente no seu recentemente editado KRIOLA, o músico não está apenas a prestar homenagem a toda a comunidade e cultura cabo-verdianas, como também sublinha a necessidade de olharmos para Portugal e para os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOPS) como um todo, uma só nação, uma unidade apenas, sem fronteiras e com a importância da mestiçagem entre pessoas e costumes, música e dança, língua e pensamento. Mesmo quando celebra a “Nova Lisboa”, no seu muito aplaudido Mundo Nôbu, Dino D’Santiago está, na verdade, a elogiar uma capital que conseguiu, depois de absorver e assumir sem preconceito a sua herança africana, enriquecer em vários aspectos. Não só do ponto de vista musical mas também humano, na relação entre pessoas. Contudo, se existe um ponto em que as coisas estão a evoluir, com a periferia a aproximar-se cada vez mais do centro, também há, por outro, as quotidianas situações em que os comportamentos contraditórios nos provam que ainda há um longo percurso a seguir.

Talvez “Morna”, a música que Dino D’Santiago levou ao A COLORS SHOW, represente isso mesmo. Neste inédito, que fará parte de uma versão deluxe de KRIOLA, o músico apela à união de um povo que “luta de costas viradas”. União pela mudança, união pelas razões certas. E fá-lo cruzando a tradição da morna, género através do qual tanta dor foi partilhada no passado, com a modernidade do instrumental e da própria abordagem. É a dor actual que Dino parece querer aqui cantar, a dor de um país – e de um mundo – que, por um lado, cura as suas maleitas a conta gotas e, por outro, dá um passo atrás nessa tão árdua escadaria.

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