AZAR AZAR: “Vamos ter que ter muita capacidade, muita resiliência, e vamos ter que repensar e reflectir muito a respeito da existência de todos”

Oriundo do Porto, Sérgio Alves é um talentoso teclista que já trabalhou com nomes como Capicua, Maze, Virtus, Minus, Keso e Diana Martinez, citando apenas alguns exemplos. Integrou a banda de Marta Ren e acompanhou-a numa longa digressão que se espraiou além-fronteiras. Sérgio coleciona uma vasta lista de créditos em trabalhos para outros artistas mas nunca tinha, até à data, investido num projecto seu. “Acabo sempre por colocar as minhas coisas em segundo plano”, informa. Recentemente deu-se a mudança no paradigma. AZAR AZAR, nome artístico que escolheu para assinar as suas criações, editou, pela fresquíssima Jazzego de Hugo Oliveira (Minus & MRDolly) e André Carvalho, um EP de releituras de trabalhos de Miles Davis, uma das suas grandes referências a par de Herbie Hancock, Sun Ra, Keith Jarrett e, nas cristalinas águas do novo jazz, Joe Armon-Jones, Shabaka Hutchings e Nubya Garcia. Sérgio Alves prepara-se para lançar um novo EP, com saída marcada para o próximo mês de Setembro, que constará de dois originais e três remisturas assinadas por Minus, Esa Williams e K15. Esses dois originais – dos quais se conhece, para já, “Space Coconut Conspiracy” – integrarão o álbum de estreia em formato de longa-duração, agendado para o final do ano. Sérgio Alves esteve à conversa com a Ritmoterapia, a partir do seu estúdio, via Zoom.

 

Comecemos pelo mais óbvio: porquê AZAR AZAR?

A luta para ter um nome artístico acompanha-me desde sempre, nunca consegui arranjar nenhum que me agradasse. Porque estas coisas são um pouco complexas. Andei na internet à procura de umas definições e de umas traduções para indiano e surgiu a palavra “azar”. Comecei assim a medo, porque o azar é algo assim forte, principalmente para nós portugueses que somos muito agarrados a estas coisas. Mas pensei que faria algum sentido porque sou aquele gajo que, num mês, tem zero concertos e, se houver uma banda a marcar alguma data, as outras vão fazê-lo exactamente no mesmo dia. Acontecem-me sempre estas coisas. Não sei se é uma questão de azar ou de pouca sorte. E depois também pensei que faria sentido por isto ser um projecto jazz, meio de improviso, que, sendo uma questão de trabalho e inspiração, também é de sorte e azar.

E acabas por repetir a palavra no teu nome…

Sim, porque um azar nunca vem só… [risos]

Como é que começaste no meio musical, tens formação?

Sim. Eu estudei piano clássico, depois piano jazz. Pelo meio fui DJ, que também faz parte da minha formação. Tirei produção musical na ESMAE, uma licenciatura. Tive aulas particulares de composição antes de ir para a ESMAE, onde tirei também composição jazz. E sou também licenciado em psicologia.

Estudaste com o Hugo Oliveira [Minus, um dos responsáveis da Jazzego] na ESMAE?

Não, eu tirei antes.

O percurso como AZAR AZAR é relativamente recente, mas calculo que já tivesses trabalho anteriormente editado…

Meu mesmo não, nunca lancei nada cá para fora. Acabo sempre por colocar as minhas coisas em segundo plano e a focar-me no trabalho com outros artistas. Tenho créditos noutras músicas mas nunca é a minha cena, sempre foi uma existência quase de serviço – o que não é mau, claro. Fiz algumas cenas mas mais a nível corporativo, aquela onda de compor uma música para um vídeo ou até mesmo um jingle.

E qual é que foi o trigger que te fez arrancar nesta aventura?

Eu já andava com esta vontade há muito tempo, foi algo que sempre quis. A malta à minha volta dava-me na cabeça para o fazer. Eu na altura trabalhava na rádio nova em par-time e acabei por me despedir mesmo por causa disso. Só que isso já foi em 2017, acho eu, na altura em que a Marta [Ren] estava com aquela tour lá fora gigante. Acabei por não fazer nada até ao ano passado. O problema é que vou fazendo coisas mas nunca finalizo nada, acabo por me fartar. Se vires o meu computador tenho ali material para fazer discos de música house, techno e hip hop instrumental.

Pelo que percebi, faltou-te mesmo foi o incentivo para acabares as tuas músicas…

Sim. O Minus desempenhou um papel muito importante neste capítulo, ele ouvia as minhas coisas cá em casa e dizia-me que tinha mesmo de as editar. E eu respondia-lhe que sim, que seria fixe. Mas sou pouco pró-activo, e ele sabe. Quase que me disse que faria uma editora para lançar os meus trabalhos, caso eu não arranjasse uma. Ele dizia isto na brincadeira e acabou por acontecer uma coisa desse género. Por coincidência, claro.

Há pouco dizias que gostavas de house e hip hop, algo que se sente bastante no teu disco de reworks a Miles Davis…

Sim. Eu comecei a passar música no bar dos meus pais, nos anos 90, com  11 anos. O primeiro contacto com a música negra acontece pelo disco, porque era o que passava o DJ que lá trabalhava. Comecei na onda digging a descobrir o funk mais a sério. Depois surgem o hip hop e o jazz. Rock nunca foi a minha praia, sinto-me meio inseguro a tocar, até porque acho estranho as teclas no rock, apesar de haver quem o consiga fazer mesmo bem. Eu é que não. O house aparece na adolescência. Cheguei a trabalhar para uma agência que havia aqui no Porto, a Heart & Soul, que fez umas festas gigantes, a Elektro Parade e a Dance in Douro. Quando dei por mim andava a passar música nessas festas. Era ainda chavalo, ganhava guito e passava música. Divertia-me à brava.

Ainda passas música actualmente?

Passo. Se me convidarem para passar, sim. Ainda cheguei a passar música aqui no Porto, em bares, mais naquela onda das 7”, funk e disco, por estar mais conotado com essa vertente. Recentemente, antes da pandemia fechar tudo, o André Carvalho desafiou-me para fazer um gig com ele no Plano B, e aí passei house. Já não passava há anos. Diverti-me para caraças.

Queria continuar aqui no capítulo dos teus reworks. Porquê Miles Davis e não, por exemplo, Sun Ra ou John Coltrane?

Apesar de não ser pessoalmente a pessoa mais incrível do mundo e de roubar algumas coisas a outros artistas, o Miles é super carismático e eu gosto mesmo do trabalho dele. Ele andava sempre à procura da novidade. Não que os outros não andassem mas ele esteve sempre muito à frente. Se nós analisarmos o início da carreira e o final, aquilo é mesmo diferente. A banda eléctrica que ele começa com o Bitches Brew é por causa do rock psicadélico do final dos anos 60, do Jimi Hendrix. O Sun Ra tinha uma cena espiritual, era uma persona, adoro a cena dele. Era um alien. Musicalmente, o Coltrane é um monstro, um virtuoso inacreditável. Se analisarmos bem o Miles enquanto instrumentista, é um virtuoso mas não é um Coltrane. Contudo, tinha uma cena incrível: sabia sempre quem escolher para trabalhar com ele. Ele criava o ambiente, a música dele é como se fossem quadros. Aliás, ele também pintava. Mas a cena dele era tipo um quadro, uma imagem. A minha cena com o Miles também não se explica muito bem. Adoro o Bitches Brew, tenho a edição em vinil normal, o duplo, e depois comprei a edição dos 40 anos. Sou mesmo geek. Gosto mesmo do Miles, tenho quase tudo. E o Kind of Blue é um dos álbuns da minha vida. Eu já andava com vontade de fazer uma cena de reworks do Miles há muito tempo. Mas como sou pouco pró-activo, não aconteceu. E depois acabo sempre por ter outras coisas para fazer. Agora é que entrei nesta ideia de me dedicar às minhas coisas. E a ideia dos reworks calhou na quarentena. O disco fez cinquenta anos. Na altura, fiz um story no Instagram e dei por mim a pensar que o que deveria fazer não era uma publicação numa rede social mas sim uma homenagem como deve ser. Mostrei ao Minus, ele curtiu e mostrou ao André Carvalho. Quiseram editar, apesar de eu não ter esse intuito. Iria provavelmente meter no SoundCloud ou assim, numa onda low profile, sem grande alarido à volta.

Além destes nomes aqui evocados, que outros artistas é que influenciaram o teu gosto musical?

Eu tenho uma espécie de altar que te posso mostrar, ao pé dos meus monitores [leva o computador até a uma zona do estúdio onde jazem três discos alinhados na horizontal]. Tenho o Bitches Brew, do Miles Davis, o Head Hunters, do Herbie Hancock, e o Facing You, do Keith Jarrett. Tenho este do Jarrett mas podia estar também o The Köln Concert. A minha ideia inicial era ir trocando os discos de vez em quando mas acabaram por ficar sempre os mesmos. Adoro o Jarrett, é um pianista inacreditável, uma cena meio cósmica. Ele é muito mais jazz, ainda que tenha feito umas cenas meio fora ali na fase dos anos 70. Gosto dos álbuns dele de piano solo, todos de improvisação. As primeiras partes eram mais free jazz do que outra coisa, só depois é que ia construindo o concerto. E depois também gosto do Sun Ra, do Ahmad Jamal…

E nas ondas do novo jazz? Já vi que também é uma importante coordenada para ti…

Gosto do Joe Armon-Jones, acho que é um teclista muito fixe; do Shabaka Hutchings, adoro todas as cenas que ele faz…

Os projectos dele são todos incríveis…

Sim, estão sempre a aparecer coisas novas, é capaz de ser o mais cósmico, o mais fora, assim o mais Sun Ra…

Sem dúvida alguma. Aliás, se fores ouvir Shabaka and the Ancestors aquilo tem muito afrofuturismo, muito Sun Ra…

Adoro os álbuns, tanto o que saiu agora como o anterior. Também gosto da Nubya Garcia, do Makaya McCraven….

A cena de Chicago está fortíssima…

Pois está. E depois também gosto do Kiefer, do Robert Glasper…

E Kamaal Williams?

Também gosto, ainda que eu ache que ele tem um ego gigantesco. Uma cena que eu adoro no Kamaal é que ele consegue fazer música instrumental sem solos. Ele faz canções sem as preencher muito, tudo muito minimal. Adorava conseguir fazer aquilo.

E os cruzamentos que ele traça com o house…

Sim, ele faz isso mesmo bem feito. É mesmo fixe.

Azar azar reworks

Fala-me um pouco sobre o EP que vais lançar em Setembro. Sei que vai incluir dois temas principais – que também vão marcar presença no teu disco de longa-duração agendado para o final do ano – e algumas remisturas…

O Minus falou-me que havia essa possibilidade de lançar um EP em vinil, em jeito de antecipação, e eu pensei que seria altamente. Então escolhemos a “Inner World” e a “Space Coconut Conspiracy”. A ideia basicamente era lançar um EP com os dois temas. E como há um cruzamento com a electrónica e eu curto pra caraças de remixes, surgiu essa ideia de pedir à malta para remisturar. O Esa Williams foi das primeiras pessoas que ouviu a “Space Coconut…”, ainda em demo. Eu e ele somos mais ou menos amigos, apesar de só falarmos praticamente pela web. Ele veio cá passar música há dois anos ao Plano B, e eu tive com ele porque quem organizou esse gig foi Jonathan, um amigo que temos em comum. No ano passado veio tocar ao Pérola Negra, estive com ele, e foi aí que ele ouviu a “Space Coconut…”. Curtiu muito e chegou a passá-la no programa da Worldwide FM, na versão ainda com baterias e baixos MIDI. A música ainda tinha outro nome e tudo, assinada como Sérgio. E para mim foi quase óbvio escolhê-lo para remisturar. O K-15 assina outra das remisturas, foi o André [Carvalho] que entrou em contacto com ele. O Minus tinha as pistas com ele e decidiu também remisturar o tema, nem foi com o intuito de entrar no álbum. Ele nem queria muito porque parece quase uma egotrip: um remix de um disco de um amigo dele que sai na label dele. Mas tinha que entrar, está mesmo fixe.

Pelas pessoas que estou a ver envolvidas, podemos esperar uma vertente mais house e outra mais hip hop, não?

Mais ou menos, porque o remix do Minus é meio house, ele também curte fazer umas cenas mais uptempo. As pessoas geralmente não estão muito preparadas para ouvir essa faceta mas ele é muito bom produtor nesses meandros.

Curioso, nem sabia que o Minus produzia nos campos do house… Mas não tem material editado, certo?

Vai editar agora, na Jazzego. Não é bem house, é tipo Kamaal, tocado. Mas é com os BPMs mais acelerados, meio broken beat.

A “Inner World” segue a mesma linha da “Space Coconut Conspiracy”?

Elas acabam todas por ter a mesma linguagem, até porque gravei sempre com a mesma banda. A nível tímbrico acaba por estar tudo próximo. A onda é a mesma, um jazz que não é jazz. É mais lenta e tem uma cadência mais hip hop, se calhar. As pessoas quando ouvem geralmente dizem isso, que tem essa vibe. Eu não sei, não tenho essa percepção, mas deve ser por ter um ritmo mais quebrado. Enquanto a Space Coconut é mais four-on-the-floor, com um beat meio afro, a outra é mais straight. E tem um pouco de swing. Não muito mas tem.

Depois do EP, seguir-se-á o teu registo de longa-duração. Em que fase está? Já tens as músicas todas prontas?

Elas já estão todas prontas, todas gravadas. Ainda não estão misturadas. E numa delas ainda estou à espera de uma participação. Aceitou fazer mais ainda não gravou, por isso, ainda está em stand by. Assim que esteja, é só misturar tudo e tratar do master.

Tratam-se de canções feitas recentemente ou foste ao baú acabar algumas malhas antigas que tinhas incompletas?

Eu não consigo fazer isso. Eu quando digo que sou meio obsessivo não estou a brincar. Quando passo música não consigo escolher dois discos da mesma editora seguidos, muito menos dois discos do mesmo artista. Eu organizo os meus discos por género e por ordem alfabética, sou mesmo freak. E não consigo pegar numa música que tinha pensado de uma forma para fazer outra coisa, não dá mesmo. Comecei pela “Space Coconut…” e o resto foi construído a partir daí, de raíz. A música mais antiga data do início do ano passado e a mais recente de Setembro ou Outubro, está quase a fazer um ano. Isto está muito lento [risos].

O álbum conta alguma história?

O disco é uma espécie de viagem cósmica. É como se adormecesses e acordasses, um desenvolvimento. A “Space Coconut…” é como se fosse a parte REM do sonho em que tens uma grelha onde codificas a informação. No REM, um desses eixos desaparece e começas a ver pessoas a andar a cavalo e cocos a invadirem o planeta. Misturas todas as informações que apreendeste ao longo do dia.

A minha vontade de ouvir o disco foi agora elevada ao cubo. Conta-me mais…

Posso dizer-te que a “Inner World”, a segunda música, representa aquele momento em que estás quase a adormecer e dás por ti a refletir sobre a tua existência. É um momento que eu uso muito para fazer uma análise a mim próprio; o que tenho que fazer ou mudar. É ligeiramente mais espiritual que a “Space Coconut…”, é mais aberta.

Ou seja, usaste o que sabes de psicologia no álbum…

Que tenha valido para alguma coisa [risos].

Vivemos tempos únicos causados por toda esta questão da COVID-19, que veio mexer muito no nosso quotidiano e na forma como socializamos uns com ou outros. Aproveitando os teus conhecimentos na área da psicologia para esta reflexão, como é que achas que vamos todos sair desta situação?

O que eu acho, e isto já vai sair meio toldado por estudos que li, é que vamos sair mal. A doença mental é um dos grandes flagelos deste século. Não acredito naquela história do “vamos sair daqui mais fortes”. Acho que isto não vai ser fixe. Sinceramente, acho que não. E não estou a ser pessimista, que eu nem costumo ser muito pessimista. Estou a ser mesmo realista. Vamos ter que ter muita capacidade, muita resiliência, e vamos ter que repensar e reflectir muito a respeito da existência de todos. Poucas pessoas terão ficado mesmo na boa com isto, tirando aquelas que até estão habituadas a estar sozinhas. E mesmo essas. De repente tiveste que te habituar a viver de uma forma para a qual não estás preparado. As pessoas estavam muito habituadas a interagir através das redes sociais, ainda que sentadas na mesma mesa a jantar. Era freak, mas tudo certo. Neste momento ficou cada um em sua casa. É um pouco esquisito porque as pessoas precisam de toque, mesmo aquelas que não precisam de muito. O toque é super importante. Espero estar completamente errado mas acho que não vai ser muito fácil isto. A doença mental já vinha em crescendo, agravada por ser o parente pobre da saúde. A depressão ainda é tratada como um estado de tristeza. E não é suposto. É importante estarmos tristes, percebermos o porquê e trabalharmos essa questão. Mas estar triste não é estar deprimido. São coisas completamente diferentes. E isto de estarmos todos isolados é mau. O homem é um ser social.

 

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