Há uma mensagem de paz dissolvida nas quarenta e nove notas microtonais de Ustad Saami

Aos 76 anos, Ustad Saami é o último defensor e praticante vivo de um casamento único entre duas disciplinas musicais: khayál (palavra árabe para “fantasia”), uma vertente de música clássica derivada do subcontinente indiano, e qawwali, uma forma de música de devoção Sufi (corrente mística e contemplativa do Islão) do século XIII. É a única pessoa à face da terra capaz de reproduzir fidedignamente as 49 notas microtonais da complexa técnica khayál, uma escala que tem sete vez mais notas por oitava que a maioria das disciplinas musicais ocidentais.

Saami vive todos os dias em constante perigo. A tradição que representa é repudiada e condenada pelos fundamentalistas das comunidades islâmicas paquistanesas – os extremistas ressentem o seu trabalho tal e qual como ressentem tudo o que feito numa cronologia pré-Maomé. Em 2006, o famoso cantor qawwali Amjad Farid Sabri foi interceptado por dois motociclistas depois de uma performance televisiva e assassinado numa ponte. Esse mesmo ano foi palco de diversos ataques a Sufis paquistaneses. Em Novembro, pelo menos 52 pessoas foram mortas num ataque terrorista a um santuário Sufi na província de Baluchistan. Grupos como a Al Qaeda, os Talibãs ou o Estado Islâmico alimentam uma profunda repulsa para com o Sufismo, que promove uma vertente pacífica e tolerante do Islão. Trata-se de uma dimensão mística dentro da religião, praticada por Sunitas e Xiitas.

A imortalização da voz de Ustad Saami tornou-se uma prioridade para o produtor norte-americano Ian Brennan, que já trabalhou com nomes como Tinariwen, Zomba Prison Project e The Good Ones. Contactado pelos próprios alunos do músico paquistanês, que lhe terão explicado a urgência de gravar um álbum com o talentoso mestre, Brennan começou de imediato os preparativos para descolar em direcção a Karachi, o coração do Paquistão e uma das maiores cidades do mundo. As sessões aconteceram, numa primeira fase, dentro das quatro paredes do hotel onde Brennan ficou hospedado, e, numa segunda, no terraço da casa do próprio mestre. Coube aos filhos de Ustad, conhecidos como Saami Brothers, a tarefa de acompanhar o pai e professor na tabla e na tambura. A ideia nunca foi levar o mestre para um estúdio sofisticado mas sim captá-lo em casa, num ambiente confortável e familiar.

Das longas sessões de gravação com Ustad Saami, que começaram à noite e prolongaram-se até ao outro dia de manhã, Brennan reuniu material suficiente para a gravação de vários álbuns. O primeiro, God Is Not a Terrorist, de título bastante provocatório, viu a luz do dia em Janeiro do ano passado; o segundo, Pakistan Is for the Peaceful, também ele bastante sugestivo, tem saída agendada para o próximo mês de Outubro. Deste disco conhece-se, para já, “True Notes (‘Happy Morning’)”, uma viagem de seis minutos guiada pela intensa voz do cantor paquistanês.

Ustad Saami nasceu em 1944. Tinha apenas 11 anos quando se alistou com o seu tio e mentor Ustad Munchi Raziuddin para aprender as 49 notas microtonais que actualmente o notabilizam. Foi proibido pelo seu mestre e pela sua família de falar durante anos. Durante esse período, só lhe era permitido expressar-se vocalmente, nunca verbalmente. Saami estudou 35 anos para aperfeiçoar cada uma destas notas, muito antes de sonhar em pisar um palco. Actualmente é o único mestre no mundo a conseguir expressá-las – ainda que tenha filhos e alunos a quem vai transmitindo o seu conhecimento, esta é uma técnica quase sobre-humana que não está ao alcance de todos, exigindo muito tempo e dedicação.

Aos 76 anos, Ustad pratica de manhã à noite na maior parte dos dias, recorrendo a diversos exercícios. Embora a sua audição física tenha diminuído e precise de um aparelho auditivo para a comunicação, a sua capacidade de percepção continua a aumentar. No ano passado, conquistou audiências no Reino Unido, na Europa e na Austrália. Pisou o palco do WOMAD, em Inglaterra, arrebatando uma plateia de 10 mil pessoas num concerto em que serviu uma música apenas, com a duração de uma hora, especialmente projectada para ser tocada à meia-noite.

17