Nubya Garcia | Source

Falar de um álbum de estreia de Nubya Garcia nesta altura do “campeonato” jazzístico britânico soa de certa forma estranho. Ela que tanta música assinou até à data e que tanto representa nos meandros do jovem género – da sua participação na basilar compilação We Out Here (entra em cinco dos nove temas) às colaborações com nomes como Blue Lab Beats, Joe Armon-Jones, Louis VI, Ben Hayes, Neue Grafik Ensemble, Makaya McCraven e Ben Hauke, citando apenas alguns exemplos, e sem esquecer, claro, o seu trabalho com os colectivos NÉRIJA e Maisha. Mas a verdade é que, apesar de ter chegado a editar dois EPs em nome próprio – When We Are (2018) e Nubya’s 5ive (2018) – só agora é que a saxofonista londrina se aventurou no seu primeiro registo de longa-duração. E diga-se de justiça: valeu a espera.

No que diz respeito ao seu conceito e construção, Source, que viu a luz no passado dia 21 de Agosto, é um álbum de sublinhada heterogeneidade. “Pace”, a canção de abertura, tira o pulso à agitada vida moderna com uma composição que parece traçar o retrato da grande cidade. Sentem-se os batimentos cardíacos nas notas graves de Daniel Casimir, a inquietação nas teclas de Joe Armon-Jones e o nervosismo na bateria de Sam Jones – a banda que acompanha Garcia em todo o disco. Oscila-se entre barulho e silêncio, caos e calma, agitação e sossego, relembrando-nos que na convulsa azáfama do nosso dia-a-dia é necessário encontrarmos momentos para abrandar os nossos motores e pensarmos naquilo que é essencial. E é o próprio saxofone de Nubya Garcia que imprime esse momento de serenidade, de reflexão. “Source”, tema-título, pede ajuda a Sheila Maurice-Grey, Cassie Kinoshi e Richie Seivwright para uma maratona de 12 minutos nos campos do reggae e do dub, com a síncopa das teclas de Joe Armon-Jones a tratar da importante cadência e os metais do quarteto feminino (que mistura elementos das NÉRIJA e dos KOKOROKO) a desenharem livres melodias sobre o bloco de bateria e baixo. A conexão de metais entre Garcia, Maurice-Grey, Kinoshi e Seivwright volta acontecer em “Stand With Each Other”, que medeia Source.

Mais à frente, Nubya Garcia homenageia as suas raízes latinas – o pai é do Guiana, a mãe de Trinidad – em “La Cumbia Me Está Llamando”, canção gravada em Bogotá, numa viagem que fez à Colômbia, que conta com a participação de La Perla, colectivo feminino que mistura tradição folk com ritmos afro-colombianos. Uma mudança abrupta na textura de num álbum que, regra geral, não estabelece fronteiras estilísticas. Source acaba com a belíssima “Boundless Beings”, uma balada paredes meias com a soul e blues, em que o saxofone de Garcia contracena brilhantemente com a voz de Akenya, cantora, pianista e compositora californiana que já colaborou com artistas como Smino, Saba, Chance the Rapper, Noname e, no universo jazz, com Esperanza Spalding, Fred Hersch e Vijay Iyer, entre outros.

No seu álbum de estreia, Nubya Garcia deixa bem assente os grandes pilares desta nova onda de jazz britânico: o carácter heterogéneo, que tão depressa abraça o reggae e o dub, como instantaneamente se espraia nas areias quentes da cumbia ou na sinceridade do blues e da soul. Pelo caminho há tempo para pintar retratos de cidades, homenagear as suas raízes e convidar amigos para partilharem o momento. Há improviso e tradição jazz mas há, acima de tudo, uma vontade de destruir os cânones. Uma importante declaração de intenções por parte de alguém que simboliza – e muito – as novas linguagens dentro do género.

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